• Renata Jordão

Ricardo Noblat: Jornalismo não se faz com pesquisa do Google



Fotos: Sergio Amaral (cedidas por Ricardo Noblat)

Ricardo José Delgado Noblat é natural de Recife-PE, nasceu no dia 7 de Agosto de 1949 e cursou Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Em sua longa trajetória, Noblat já passou por poucas e boas. Em 1968, quando ainda estudante, foi preso juntamente a mais de 700 ativistas em um congresso da UNE, em São Paulo.

Iniciou sua profissão aos 18 anos, quando substituiu Alceu Valença na sucursal do Jornal do Brasil, em Recife. Depois de chefiar a sucursal da revista Manchete, também no Recife, ele escreveu para a "Pais & Filhos", "Desfile", e muitas outras revistas da editora Bloch. Atualmente, Ricardo reside em Brasília-DF, é casado com Rebeca Scatrut e mantém seu Blog na revista Veja.

Em entrevista por telefone, Noblat respondeu a alguns questionamentos sobre ele e sobre sua vida profissional. Conta sobre a primeira reportagem que escreveu na vida, a decisão de sair de Recife e o desejo, desde cedo, de cobrir política em Brasília. Noblat orienta os novatos na profissão, revela como virou blogueiro e fala sobre as perspectivas para o futuro do jornalismo.

Renata Jordão: O senhor lembra de sua primeira matéria assinada? Se sim, qual foi e em qual jornal?

Ricardo Noblat: Eu comecei na sucursal do Jornal do Brasil, lá em Recife, em fevereiro de 1967, eu acho que foi em Março, no dia 19 de Março. No Nordeste havia a comemoração do dia de São José, e aí o jornal me mandou fazer uma reportagem em uma cidade que comemorasse o dia de São José, no caso, eu escolhi São José do Egito, no sertão de Pernambuco, e fui acompanhado pelo correspondente do The New York Times no Brasil, que morava no Rio, mas que viajava para fazer reportagens e era muito amigo do Jornal do Brasil. Então eu fui com ele no carro do JB e a gente ficou uns dois dias em São José do Egito e foi minha primeira matéria assinada.

Renata Jordão: Com que idade o senhor saiu de Recife e por quê?

Ricardo Noblat: Eu saí de Recife em 1978, aos 29 anos, para chefiar a sucursal da revista Veja em Salvador. Na época, eu era repórter da sucursal da Veja, no Recife. Eu saí porque eu achava que precisava crescer profissionalmente, angariar experiência e, no Recife, embora eu fosse muito jovem, ainda estivesse no começo da carreira (tinha uns 10 a 11 anos de profissão), eu achava que as​ minhas perspectivas não eram grandes. Eu já tinha trabalhado nos dois jornais locais, que eram o “Diário de Pernambuco” e o “Jornal do Commercio”. Nesse segundo, eu já tinha sido repórter, editor, chefe de reportagem... Então, se eu ficasse no Recife, eu iria ficar ali marcando passos, foi por isso que eu aceitei o convite da Veja para ir para Salvador. Mas quando eu aceitei esse convite, o meu projeto já estava muito claro, eu queria de Salvador, ou vir para Brasília, ou ir para São Paulo e, de São Paulo, vir para Brasília. Eu queria vir morar aqui [Brasília] e fazer Jornalismo aqui, porque eu sempre gostei muito de Jornalismo no geral, mas mais de Jornalismo político e, nada melhor para fazer Jornalismo político do que em Brasília como capital da República, então fiquei dois anos em Salvador, e aí eles me chamaram para ser editor assistente de política da Veja em São Paulo, aí eu fui e fiquei dois anos lá, e pintou a oportunidade de chefiar a redação do Jornal do Brasil, na sucursal de Brasília, eu vim em 1982 e estou aqui até hoje.

Renata Jordão: Ricardo, quais os principais acontecimentos e dificuldades que marcaram a sua trajetória?

Ricardo Noblat: É muita coisa, pois já são 52 anos de Jornalismo. Olha, dificuldades você sempre enfrenta em todo canto, o que você não pode é se deixar abater por elas. Eu acho que os acontecimentos mais importantes, mais marcantes na minha vida profissional foi a saída do Recife, que me levou a Salvador, a São Paulo e, depois, a Brasília. Isso foi uma coisa importante, eu ter tomado a decisão de sair do Recife e vir tentar a vida aqui. Eu sempre tive muito na minha cabeça que era a Brasília que eu queria chegar. O segundo grande acontecimento foi quando eu vim para Brasília chefiar a sucursal do Jornal do Brasil, foi um momento marcante na minha vida porque eu estava vindo chefiar uma equipe grande, eu já tinha chefiado equipes pequenas, em Salvador, no Recife, agora a daqui não, a daqui era uma equipe grande, uma sucursal de um jornal importante na capital da República. Acho que um terceiro momento marcante da minha vida foi quando eu fui ser diretor de redação do Correio Braziliense. Ele era o jornal que, embora fosse um jornal dono do mercado de Brasília, sempre deteve uma posição de monopólio da informação aqui. Era um jornal muito chapa-branca na época, não era muito respeitado, mas aí foi possível fazer um trabalho muito interessante de reforma do jornal. Foi uma reforma muito profunda, muito reconhecida por todo mundo como uma coisa que deu certo enquanto durou. E acho que outro momento importante, é quando eu saio do correio e aí resolvo criar esse blog, numa época em que você não tinha blog de notícias no Brasil. Esse blog foi o primeiro de notícias diárias, com atualização diária, e é no blog que eu trabalho até hoje. Então, eu acho que esses são os momentos principais.

Renata Jordão: Pegando o gancho, já que o senhor tocou no assunto do blog, como surgiu a ideia de fazer ele? Ele trata única e exclusivamente de política?

Ricardo Noblat: Olha, antes de inventar o blog, eu tinha passado por Salvador, eu tinha sido editor chefe, depois que eu saí do Correio Braziliense, do Jornal A Tarde, o principal jornal de lá. Tinha voltado, tinha feito um livro e aí tinha sido chamado para fazer uma página política semanal de notas, de comentários no jornal O Dia, no Rio de Janeiro, daí comecei a fazer. Mas como era uma página que saía aos domingos, muitas das notícias decorrentes da semana, elas envelheciam, e aí conversando mais sobre isso com o pessoal do jornal O Dia lá no Rio, o colega que cuidava do O Dia online disse “Poxa, por que que você não cria um blog?” e eu “Pô, eu não sei nem o que que é um blog”. Eu nunca tinha entrado em um blog naquela época, não conhecia, eu ouvia falar que era uma espécie de diário de adolescentes. Mas ele disse “Não, os jornalistas nos EUA já estão começando a fazer blog e, alguns até já estão conseguindo viver disso”, e foi aí que eu comecei a fazer o blog, por sugestão desse colega. É um blog de política até hoje, agora política e economia às vezes são casados, política e cultura são casados, e tiveram momentos ao longo desses 15 anos de blog que aconteceram fatos importantes que, naqueles dias, ficaram focados nisso. Lembro de quando morreu o Papa João Paulo II. Eu fiquei com o blog entre a morte dele e a eleição do sucessor dele, o blog só tratou disso, aí muito mais por um capricho meu por gostar dessas histórias de Igreja e, principalmente, por atrair muito essa coisas de sucessão do Papa, entendeu?! Então, de fato, a política é levada a um refinamento fantástico.

Renata Jordão: Há três livros de sua autoria: “A arte de fazer um jornal diário”, “O que é ser jornalista” e “Céu dos favoritos”. Com base nessas obras, o senhor acredita que para se tornar jornalista, necessariamente tem que ser um bom escritor?

Ricardo Noblat: Ah, sim, não é possível, não tem cabimento. Você precisa escrever bem para poder ser um bom jornalista, como você precisa também apurar bem para poder ser um bom jornalista. Quando eu entrei no jornal, naquela época, 1967/68 nos jornais no Recife, ainda existia aquela coisa de “fulano é um bom repórter, mas não sabe escrever direito.”, ou então, “Sicrano escreve muito bem, mas não sabe apurar”. Isso não tem cabimento. Já não tinha naquela época, hoje em dia, é absolutamente inconcebível que você ter na redação, como jornalista, alguém que não sabe escrever ou que só sabe apurar, ou que não sabe apurar e só sabe escrever. Não, você tem que escrever muito bem, cada vez melhor, se quer ser um bom jornalista. Antigamente era só uma questão de apurar e escrever, hoje em dia não é mais. Hoje em dia, você tem que saber fotografar, você tem que saber falar ao vivo, independente de como você vai empacotar as informações e vai oferecer, você pode oferecer aí no papel, mas acho que o jornal de papel está com os seus dias contados, sobraram muito poucos, e você, hoje em dia, tem que dominar bem a linguagem na internet, seja no Twitter, seja no Facebook, você tem que fazer jornalismo direito.

Renata Jordão: Sabemos que a geração atual é totalmente dependente da tecnologia. Na época em que o senhor iniciou seu trabalho como Jornalista, como eram feitas as trocas de informações?

Ricardo Noblat: Veja, não tem muita diferença de antigamente para atualmente. A tecnologia, claro, você tem hoje o Google, vai lá e faz a pesquisa. Mas você não pode fazer jornalismo com base nas pesquisas do Google, você tem que apurar as informações, tem que ir atrás de mais informações, você tem que ouvir pessoas, você tem que apurar dados e o jornalismo sempre foi assim. Você tem que usar a tecnologia, que hoje existe, não é só para facilitar o teu trabalho, é para enriquecê-lo, e você não deve usar essa tecnologia para se tornar uma pessoa preguiçosa. “Ah, dei um ou dois telefonemas, conversei com algumas pessoas e o resto eu pego no Google” não! É isso que está empobrecendo o jornalismo.

Renata Jordão: Considerando que o jornalismo, seja qual for a editoria, é em si muito criticado, certa vez, por curiosidade, entrei em seu twitter e percebi que haviam muitas críticas negativas em relação ao seu trabalho e consequentemente à sua pessoa. Quanto a isso, como o senhor lida com essas críticas?

Ricardo Noblat: Veja, quando as críticas têm procedência, quando eu acho que têm, que são bem feitas e com boas intenções, eu levo a sério. O que eu acho que é um processo muito bom. Jornalista antigamente, não gostava nem de atender telefone em redação, “ih, lá vem o chato de telefonema”, era incrível, ninguém gostava. Hoje em dia é inconcebível você não ouvir o leitor, não levar em conta o que ele diz. Agora com a disseminação das redes sociais, elas também permitem que muita gente as use, primeiro para dizer um monte de idiotice e, segundo para criticar aquilo o que elas não gostam, então você tem que separar aquilo que você pode aproveitar, aquilo que pode te enriquecer, que pode te orientar. Eu tenho que ler todas, as que valem e as que não valem à pena.

Renata Jordão: Qual a perspectiva para seus próximos anos no Jornalismo?

Ricardo Noblat: Não faço a menor ideia, eu sei que eu quero continuar fazendo o que eu gosto de fazer. Nada você faz melhor do que aquilo que você tem o prazer de fazer. Agora, como vai ser, se o blog ainda vai durar muito tempo, se não vai… Se eu vou migrar para outra coisa, eu não faço a menor ideia, te confesso.

FICHA TÉCNICA

Texto e Reportagem: Renata Jordão

Edição: Thaís Alves

Fotografia: Sérgio Amaral (cedidas por Ricardo Noblat)

Site e Redes Sociais: Ana Júlia Morais

Supervisão Editorial: Rostand Melo

Agradecimentos: Ricardo Noblat, Jurani Clementino

Material produzido originalmente para a disciplina "Técnicas de Entrevista e Reportagem", com o professor Jurani Clementino.

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