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O sentimento de quem sepultou pessoas próximas na pandemia

Com mais de meio milhão de mortos em decorrência da pandemia de Covide-19 no Brasil, o trabalho dos aumentou e até mesmo nas cidades pequenas não foi diferente!


 

Maria De Oliveira


Na pandemia causada pelo novo coronavírus, o Brasil foi atingido em cheio e têm mais de 614 mil vítimas fatais até o fim de novembro de 2021. Os efeitos da crise sanitária brasileira refletem na sociedade em todos os aspectos possíveis e não é diferente nas pequenas cidades como São Domingos Do Cariri, no interior da Paraíba.


Mas o que sente a pessoa responsável por enterrar pessoas, em especial conhecidos que morreram tão inesperadamente? Como se sente a coveira que conhecia cada pessoa que sepultou? É o que vamos descobrir ao falar com ela!


Servidora pública há pouco mais de 2 anos, Josefa Tatiane De Oliveira Silva tem 26 anos e trabalha no cemitério municipal de São Domingos do Cariri. Até 30 de novembro, a cidade registrou um total de cinco óbitos. Talvez ao ver esse número isoladamente pareça pequeno, mas não para uma cidade de pouco mais de 2.600 habitantes, segundo dados do IBGE, onde todos se conhecem.


Para se ter uma ideia, o índice de letalidade da Covid no município é proporcionalmente maior do que a média nacional. De acordo com os dados do consórcio de veículos de imprensa, 2,54% dos infestados pro Covid em São Domingos do Cariri morreram em decorrência da doença. Enquanto a média nacional é de 2,4%.


Confira a seguir a entrevista com Tatiane Silva:




Como é para você enterrar pessoas próximas?

“Já faz algum tempo que eu trabalho com isso, não mexe tanto mais comigo, não é que eu seja sem coração é que por ser uma cidade pequena e eu já conhecer todo mundo influencia a forma como eu as vejo. Na primeira semana que eu entrei para trabalhar enterrei uma prima, eu tive que tirar os restos mortais do meu avô que estava enterrado na mesma sepultura e isso por ser no início mexeu comigo, mas hoje em dia depois de ter passado por essa experiência, tudo fica mais fácil.”


Na pandemia em que você sentiu mais diferença em relação aos velórios?

“A quantidade de pessoas diminuiu bastante, mas ainda assim as pessoas continuam com a teimosia, principalmente os idosos que já tinham costume de ir para velórios e continuam indo mesmo sendo grupo de risco e eles vão muitas vezes sem proteção.”


Como você se sente ao enterrar uma vítima da Covid-19?

“Eu me sinto muito triste pois eram pessoas que morreram muito repentinamente e algumas eram pessoas que estavam presentes no último sepultamento e também por essas pessoas não tem terem tido a chance de um tratamento e uma preparação para o fim.”




Como é conhecer cada rosto que está sendo sepultando?

“É bem difícil porque como a gente mora numa cidade pequena é já teve casos de uma pessoa que veio em um sepultamento e ser a próxima pessoa a ser sepultada. Aí a gente fica imaginando quem vai ser o próximo. A maioria das pessoas são bastante conhecidas, são familiares mesmo que não tão próximos, mas ainda tem um pouquinho do sangue correndo então sempre fica aquela impressão de quem será o próximo?!”


Você sente diferença ao enterrar uma vítima de Covid-19?

“A diferença que eu sinto em relação à vítima de covid-19 é a falta de chance e oportunidade dessas pessoas que não tiveram tempo. A luta ser invisível e por essas pessoas não terem tido a oportunidade de se vacinarem.”

 

FICHA TÉCNICA

Reportagem, fotografia e edição: Maria de Oliveira

Monitoria: Myrlla Dos Anjos

Supervisão editorial: Rostand Melo

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