Envelhecer no Brasil: Entre o avanço da longevidade e a experiência da solidão
Solidão na Terceira Idade
Velhice e Cidadania no Brasil

“Vou botar fogo nesse asilo. Respeite minha caducagem”, canta Rita Lee na música ‘’Ôrra Meu!’’. Entusiasta de temas sociais em suas letras, a artista vocalizava a recusa em ser reduzida a rótulos como “velha”, “ultrapassada” ou “incapaz” em função da idade. A provocação dialoga com um cenário concreto: o Brasil envelhece em ritmo acelerado. Dados do IBGE mostram que a expectativa de vida da população brasileira alcançou 76,6 anos em 2024, a maior da série histórica. Esse avanço vem acompanhado pela ampliação do contingente de pessoas com mais de 60 anos, faixa etária que define legalmente o idoso no país, conforme estabelece o Estatuto do Idoso.
Sancionado em 2003, o Estatuto organiza um conjunto de direitos invioláveis voltados à população idosa e responde a um cenário de transição demográfica já em curso naquele momento. No mesmo período, a novela Mulheres Apaixonadas, exibida pela Rede Globo levou ao centro do debate uma situação recorrente, ainda que pouco discutida fora da ficção. A personagem Dóris, ao lado dos avós, expôs uma dinâmica de negligência dentro do ambiente familiar. A repercussão à época indicou que não se tratava de um caso isolado ou exclusivamente narrativo.
A legislação reconhece o envelhecimento como questão pública e fixa parâmetros para garantir acesso à saúde, à assistência e à convivência social. Ainda assim, a existência de um marco legal não elimina as formas de isolamento que atravessam a experiência cotidiana de parte dessa população e reconhece que o isolamento não é um efeito colateral inevitável da idade, mas um problema social. O envelhecimento da população ocorre de forma mais rápida do que a capacidade de absorção das redes de cuidado, o que amplia situações de abandono, ruptura de vínculos e restrição da vida social.
Cenas do cotidiano revelam uma velhice marcada pela ausência de companhia
/ Fotos: Piedro Ferreira e Davi Souza
A solidão, nesse contexto, não se limita à ausência de companhia. Estudos como os reunidos pelo doutor Drauzio Varella apontam que o isolamento prolongado está associado ao aumento de quadros depressivos, à piora de doenças crônicas e ao declínio cognitivo. Pesquisas divulgadas por instituições como a Fiocruz e a UNICAMP reforçam que a solidão pode atuar como fator de risco comparável a outros problemas de saúde pública, com impacto direto na qualidade e na expectativa de vida.
Questões físicas e psicossociais
Para entender como essa realidade é enfrentada no dia a dia, visitamos o Lar da Sagrada Face. Fundada em 1973 pelo Frei Matias, a instituição que recentemente mudou-se para novas instalações às margens da BR-230, em Campina Grande é hoje o refúgio de 26 residentes. Nas instalações da Fazenda do Sol, o ambiente tenta equilibrar a técnica médica com o calor humano, entre hortas orgânicas e momentos de oração.

É neste cenário que as teorias sobre o envelhecimento ganham rosto e voz. Maria das Graças, 60 anos, que diz ser a "animada da turma", utiliza a alegria como resistência. Para ela, o local é um "hotel de luxo" onde a receita contra o tempo é o movimento.
"Nunca pensei, na minha velhice, vir para um campo tão abençoado".
Por outro lado, o relato de Jessé Quirino, 69 anos, revela a face mais silenciosa da solidão. Mesmo recebendo visitas semanais da filha, o vazio se faz presente nos momentos de ausência.
"Às vezes você fica sozinho dentro de um quarto e se acha só. Tenho três filhos, mas às vezes eles estão muito ocupados e não têm como vir me visitar", desabafa Jessé, evidenciando como a rotina acelerada da família moderna pode aprofundar o isolamento de quem espera.

A técnica de enfermagem e cuidadora, Márcia, observa que o isolamento entre idosos se manifesta no recolhimento, na recusa ao convívio e em longos períodos de introspecção, efeitos diretamente ligados à ausência familiar, contrastando com a mudança de comportamento quando recebem visitas, momento em que demonstram animação e cuidado com a própria aparência. Para aqueles sem vínculos familiares, a equipe assume esse papel, com estratégias cotidianas como cuidar da aparência, escolher roupas e participar de atividades como forma de resgatar o senso de pertencimento e dignidade, reforçando a compreensão de que, embora o corpo envelheça, a necessidade de atenção, respeito e vínculo permanece.
Esse conflito entre o convívio e a solidão interna é explicada pela medicina. O médico geriatra Alberto Farias observa que a solidão muitas vezes se manifesta como dores psicossomáticas no consultório.
"O isolamento acelera a perda de funcionalidade, gerando desatenção, esquecimento e aumento do risco de quedas".

A psicóloga Liriel Thais Dantas reforça que esse quadro é alimentado pelo preconceito social, o chamado etarismo. Para ela, quando a sociedade trata o envelhecer como perda de utilidade, o idoso internaliza essa invisibilidade e acaba se afastando ainda mais das relações. Para que o isolamento não evolua para quadros graves de depressão, os especialistas listam sinais que as famílias e cuidadores devem observar:
Perda de interesse em atividades antes prazerosas;
Alterações bruscas no sono e no apetite;
Sensação constante de inutilidade ou de "ser um peso";
Cansaço físico persistente sem causa biológica aparente.
Diante desse cenário onde o silêncio e o esquecimento podem comprometer a dignidade de quem envelhece, surge a necessidade de iniciativas que devolvam ao idoso o seu papel na comunidade. Se por um lado o abandono gera marcas profundas, por outro, o fortalecimento de redes de apoio e o incentivo ao convívio social surgem como o principal antídoto. Mais do que assistência médica, a busca por espaços de acolhimento institucional e o suporte de órgãos de proteção pública como universidades abertas à terceira idade e conselhos municipais mostram que é possível ressignificar o envelhecer, transformando a reclusão em uma nova oportunidade de interação e autonomia.
Fotos: Davi Souza
Formas de combate à solidão
Diante de rotinas restritas ou da ausência de vínculos familiares próximos, uma parte dos idosos tende ao isolamento e ao afastamento do convívio social. Mas também há outros que buscam espaços de acolhimento. É nesse contexto que surgem os projetos sociais, como meio de reconstrução de vínculos e retomada do convívio coletivo. Um dos mais conhecidos na cidade de Campina Grande, é a UAMA - Universidade Aberta à Maturidade.
Idosos do UAMA assistindo palestra sobre o combate a violência a mulher.
Fotos: Piedro Ferreira
Criado após uma experiência individual vivida durante o doutorado do professor Manoel Freire, coordenador da CIEFAM/UAMA; a instituição nasceu com o intuito de promover a inclusão social, a valorização e a melhoria da qualidade de vida de pessoas idosas. Glauce Jácome, professora e uma das coordenadoras do projeto, destaca que muitos procuram a UAMA visando ampliar o convívio social. Demanda que reforça a importância da iniciativa, sobretudo pela necessidade de espaços que favoreçam a construção de vínculos e o fortalecimento das relações na terceira idade.
Rômulo Ferreira, 67 anos, participante do projeto, relata que procurou o projeto por conta própria, com o propósito de fazer amizades e para se distanciar de pensamentos negativos. Segundo Glauce, o instituto tem diversos projetos de extensão e atividades extracurriculares, com a finalidade de amparar aqueles idosos que vivenciam a solidão.

Além do UAMA, a cidade de Campina Grande conta com outras iniciativas voltadas para o envelhecimento ativo por meio de educação, lazer e saúde. Um exemplo é o UATI (Universidade Aberta à Terceira Idade) da UFCG, resultado do Programa Interdisciplinar de Apoio à Terceira Idade (PIATI), onde pessoas com 60 anos ou mais podem participar de cursos e atividades que promovem autonomia e inclusão social.
A maioria dos idosos que já enfrentaram ou que ainda lidam com a questão da solidão não estão totalmente cientes dos malefícios do isolamento. Surge, então, um dos principais órgãos de proteção envolvendo pessoas da terceira idade, o Conselho Municipal do Idoso, formado com o intuito de oferecer apoio e orientação para a família desses cidadãos.
Maria Joseny Josa, presidente do Conselho Municipal do Idoso de Patos, destaca que o órgão atua na promoção da convivência entre pessoas idosas, por meio de iniciativas como visitas domiciliares a quem se encontra em situação de isolamento e a formação de grupos de apoio. Segundo ela, ainda é necessário ampliar a atuação do conselho para alcançar um número maior de idosos, embora avalie que a legislação vigente oferece uma base consistente para esse avanço.
Visitas domiciliares realizadas pelo Conselho Municipal do Idoso de Patos
Fotos cedidas por: Maria Joseny Josa
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Para leitores que desejarem contribuir com o Instituto Lar da Sagrada Face, é possível apoiar diretamente a manutenção dos cuidados oferecidos aos idosos acolhidos através da chave PIX CNPJ: 08.717.704/0001-91. Qualquer apoio colabora para a continuidade dos serviços prestados!
Expediente
Pauta: Davi Souza, Piedro Ferreira e Rômulo Queiroz
Entrevistas: Davi Souza, Piedro Ferreira e Rômulo Queiroz
Redação: Davi Souza, Piedro Ferreira e Rômulo Queiroz
Fotografia: Davi Souza, Piedro Ferreira e Rômulo Queiroz
Pós produção e Color Grading: Davi Souza
Agradecimentos: Administração do Lar da Sagrada Face, Glauce Jácome e Maria Joseny Josa pelo acolhimento durante a realização desta reportagem, e aos idosos entrevistados, que nós receberam com toda atenção e carinho.
Supervisão Editorial: Ada Guedes e Rostand Melo



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