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  • BRIZA LUIZA CUNHA DANTAS

Agda: “Temos duas escolhas, acreditar nos outros ou acreditar em nós”

Atualizado: 30 de abr.



Agda olhando de lado, com um fundo de frases poéticas
Foto: Briza Cunha

“Mãe, jornalista, professora e muito fashion”, é assim que Agda se define. Natural de João Pessoa, Agda Aquino, 44, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Professora do quadro efetivo da universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade estadual da Paraíba (UEPB), tem experiência em telejornalismo, assessoria de imprensa, revistas, webnews e afins.


Com formação em Design de Moda, coordenou uma revista de jornalismo com ênfase em ensaios fotográficos, chamada Xique Xique, fruto de um projeto de extensão vinculado à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Nesta entrevista, temas como vida acadêmica, vida profissional, projetos futuros e as dificuldades do trabalho como fotojornalista e professora são abordados de forma crítica e leve, perspectivas típicas de Agda.


O que te fez querer entrar no mundo acadêmico?

Eu trabalhava em um mercado quando recebi um convite para ministrar uma aula de fotografia em uma faculdade particular. Os coordenadores do curso buscavam alguém com graduação, pois a maioria dos alunos de fotojornalismo não possuía formação superior. Eu precisava de dinheiro, e foi Hidelbrando que me indicou. A aula seria na ASPER, no curso de Publicidade e Propaganda. Lembro-me de entrar em uma sala de aula em formato de auditório, com cerca de 85 alunos. Estava nervosa, mas dei a aula e saí apaixonada! Ao olhar para trás, percebo que sempre tive um talento para tutoria e instrução, o que também era reconhecido por Hidelbrando. Na TV Cabo Branco, era responsável por receber novos repórteres e profissionais e introduzi-los em cada setor, algo que sempre adorei fazer. Após essa aula em agosto de 2007, decidi redirecionar minha carreira.


Foto: Matheus Souza

É difícil ser uma mulher dentro de um meio majoritariamente masculino?

Sim, o tempo todo. A gente acaba passando por muita coisa, até dentro de casa mesmo. Meu pai, que é fotógrafo, muitas vezes chega para perguntar coisas básicas sobre fotografia, fica me testando para saber o que eu sei. Quando era mais jovem, decidi entrar no jornalismo, ele me dizia que não era lugar para uma mulher. Hoje em dia ele me dá apoio, mas quando vou à alguma premiação, ou quando fui lançar meu livro, ele continua fazendo essas perguntas teste. Muitas vezes pessoas de fora, que sequer trabalham com a fotografia, tentam me explicar como se mexe numa câmera. Minha gente, eu trabalho com fotografia há anos, sou uma fotografa premiada, vai por mim, eu sei usar uma câmera. Sou a primeira professora de fotografia concursada, tanto na UEPB quanto na UFPB, antes disso, nenhuma mulher ocupou a cadeira. O curso da UEPB começou há 50 anos, é o mais antigo da Paraíba e ainda não tivemos mulheres pretas, transgênero, ou seja, não dá para negar que estou numa posição privilegiada, mesmo que precise dar dez passos para equivaler a um passo só de um homem. Meus colegas me respeitam e reconhecem minha experiência como fotógrafa, mas muitos alunos já soltaram piadas e tentaram me testar. Quando a pergunta é genuína, a gente realmente sabe. Me chateio ainda? um pouco, porque entendo que faz parte de uma estrutura, não necessariamente me chateio com o aluno, meu objetivo com eles é desconstruir isso. Nem sei se consigo, só faço minha parte.


Acredita que as mulheres estão conquistando mais espaço no fotojornalismo?

Não tenho como afirmar que estamos ocupando mais espaço, uma vez que não há pesquisas e dados sobre isso, mas com certeza absoluta os homens ainda são maioria. Hoje existe uma visibilidade maior de algumas figuras importantes do fotojornalismo, como Gabriela Biló, entre outras. Estou realizando um projeto de pesquisa sobre mulheres no fotojornalismo da Paraíba, uma nova missão que vai abraçar e recapitular a memória dessas mulheres e seus acervos. Estou fazendo esse levantamento com base nos créditos de jornais e portais de notícia, isso quando as fotos são creditadas com o nome das pessoas, que muitas vezes nem são. Hoje, os problemas que outras mulheres enfrentam eu não enfrento, por ser cis e branca. Talvez por isso eu tenha conseguido chegar aqui, tem muitas mulheres talentosas e capacitadas, e que talvez não consigam chegar longe por causa de todos os impedimentos sociais. Eu luto com unhas e dentes pelo meu espaço, espero servir de exemplo para que daqui há alguns anos a gente tenha um quadro diferente.

Foto: Luiz Farias

Qual foi seu primeiro contato com o jornalismo de moda? Você se apaixonou logo de cara por essa área?

Sempre fui jornalista de cultura, nasci para isso. Quando era estudante da graduação em Jornalismo, fazia fanzine, que era só cultura: moda, música, cinema, teatro, artes de maneira geral. Fiz isso com um grupo de colegas por um ano e meio, era algo bem moderno para a época. Quando me formei, fui contratada meses depois para trabalhar como editora de cultura da TV Cabo Branco, fazendo um telejornal que se chamava Paraíba Meio Dia, ele era diário e só sobre cultura. Dentro dele tinha o conteúdo de moda, algo que sempre me interessei, e é uma coisa que combina muito a minha ancestralidade feminina, minhas duas avós costuravam, me ensinaram a costurar, a bordar, e agora estou ensinando minha filha Íris a bordar também. Em 2007, ganhei uma bolsa para fazer design de moda, eu trabalhava na TV ainda. A bolsa foi oferecida pela Fundação de Educação Tecnológica e Cultural da Paraíba (FUNETEC). Paralelamente, eu continuava na TV e nos portais de notícia, fui fundadora do G1 Paraíba e do JP online. Por trabalhar com cultura comecei a trabalhar mais com jornalismo de moda e com fotografia. Dentro do jornalismo cultural, moda é a especialidade que mais tem fotografia como seu pilar de comunicação, além do texto. Foi a faca e o queijo, porque a moda é um lugar que aceita bem a jornalista mulher, a fotografia estava lá e eu sabia fazer, então comecei a me desenvolver, mas eu já tinha sido picada pelo bichinho da docência, queria ser professora. A partir daí, comecei o mestrado, estudava o figurino do jornalista de televisão, o conceito e problematização toda, que é minha tese de mestrado, então juntei minha graduação de jornalismo, a graduação de moda, minha experiência como colunista e fotografa, tudo na pesquisa do mestrado.

Foto: Matheus Souza

Como a disciplina "Jornalismo de Moda" tem se desenvolvido?

A disciplina eletiva é a realização de um sonho, capacitar pessoas para essa área, mostrar como é importante. Hoje eu trabalho pouco com fotografia de moda, porque a fotografia de moda que temos na Paraíba não é vinculada ao jornalismo, ela está ligada ao marketing e publicidade. Essa fotografia da marca não é jornalismo, eu gosto do conceito que fazia na Xique Xique, isso é o que temos feito na disciplina, fotografias conceituais, com temas de jornalismo, reportagens fotográficas para o jornalismo de moda. Tem conceito, tem os grandes ícones, é uma outra pegada. Por isso estou muito mais feliz na universidade do que na redação, é muito difícil criar quando você está sob amarras da empresa. A eletiva de moda acaba sendo uma grande revisão sobre jornalismo cultural, bem raiz.


Você já havia se imaginado trabalhando no meio da fotografia? O que fez você perceber que as coisas não seriam como você imaginava?

Agda iniciante do curso de jornalismo tinha zero confiança no próprio trabalho fotográfico, jamais achou que seria o seu ganha pão, como é hoje. Mas eu era preparada, e as oportunidades foram aparecendo. Eu adorava trabalhar em redação com edição e texto, toda aquela dinâmica. Mas foram aparecendo as primeiras oportunidades de trabalhar com fotografia, e eu passando em primeiro lugar em tudo. Sabe quando o mundo conspira para que algo aconteça? Resisti durante um tempo, achava que era uma coisa pontual e momentânea, mas teve uma hora que eu olhei assim e disse: “Rapaz, eu tenho que gostar de quem gosta de mim”. Por que estou resistindo tanto? Essa resistência era justamente por todo histórico de dizerem que aquele não era meu lugar, porém, com a maturidade, eu entendi que aquele era sim meu lugar, e o que me abriu muitas portas foi estar capacitada, então eu fui ocupando os espaços. Sabe quando você chuta a porta para entrar mesmo? Foi isso que eu fiz!


Foto: Briza Cunha

Você já havia se imaginado trabalhando com fotografia? O que a fez perceber que as coisas não seriam como você imaginava?

Agda iniciante do curso de jornalismo tinha zero confiança no próprio trabalho, jamais achou que seria o seu ganha pão, como é hoje. Mas eu era preparada e as oportunidades foram aparecendo. Eu adorava trabalhar em redação com edição e texto, toda aquela dinâmica. Mas foram aparecendo oportunidades de trabalhar com fotografia e eu passando em primeiro lugar em tudo. Resisti durante um tempo, achava que era uma coisa pontual e momentânea, mas teve uma hora que eu olhei assim e disse: “por que estou resistindo tanto?” Essa resistência era justamente por todo o histórico de dizerem que aquele não era meu lugar, porém, com a maturidade, entendi que aquele era sim meu lugar, e o que me abriu muitas portas foi estar capacitada, então eu fui ocupando os espaços.


Quais foram suas fontes de inspiração na fotografia?

Eu gosto de ver muitas coisas fora da minha bolha, descubro novos fotógrafos e fotógrafas sempre. No universo da fotografia de moda, sou muito fã de Annie Leibovitz, ela tem uma trajetória incrível, é fotojornalista de moda, fez fotos muito importantes para história, como a última foto de John Lennon. Diva, musa, num mercado dominado por homens, está lá maravilhosa. São coisas que eu gosto de ver, mas não coisas que eu gostaria necessariamente de fazer. Gosto muito de trabalhar com luz natural e com retrato. No Brasil, a Nair Benedicto trabalha muito com retrato e luz natural, gosto, mas ela é de uma escola de outra geração e Annie Leibovitz trabalha muito com retrato super produzido, uma superprodução. Eu sou low profile (Expressão da língua inglesa para indicar algo ou alguém que é discreto) e tenho baixo orçamento, então gosto muito de retratos, de luz natural, fotografar mulheres e de ver mulheres.

Foto: Luiz Farias

Qual foi o seu trabalho mais desafiador como fotógrafa?

Fotografar o parto da minha amiga. Ainda estávamos com medo da covid-19, mas também pelo meu emocional. Foi uma gravidez que eu acompanhei de perto, é uma pessoa muito importante para mim. Ela também é fotógrafa e professora de fotografia, olha responsabilidade! Ela só queria alguém muito íntimo naquele dia. Foi difícil para mim pois não sei lidar com sangue e essas coisas, mas também foi muito desafiador tecnicamente, porque é um lugar escuro, durante a madrugada, você não pode intervir na cena ou iluminar o quarto. Era um parto humanizado e o local estava cheio de pessoas que importam, médica, ginecologista, enfermeira, doula, e eu tinha que dar espaço. Precisei fazer o foco a mão, era muito escuro, não tinha como usar nada automático, mas me orgulho muito do trabalho que consegui fazer. Minha amiga é muito ligada nos signos, queria fazer o mapa astral do menino, então pediu que eu fotografasse o exato momento do nascimento dele. Dei meu melhor e ao final das seis horas de trabalho de parto, na madrugada, consegui a foto do momento preciso do nascimento do Lírio.


Qual seu aspecto favorito na fotografia?

Eu adoro cor, o congelamento do tempo, mas uma coisa que só existe na fotografia que eu amo, é até clichê, mas eu gosto, é a pequena profundidade de campo, o desfoque de fundo, adoro. Eu sou retratista, gosto de retrato clássico, a pessoa de primeiro fundo definida e o fundo desfocado, adoro. Minhas lentes preferidas são 1.8, 1,4 para fazer desfoque. Acho massa porque a gente não enxerga daquele jeito, aquilo não existe na natureza, é uma coisa que só a fotografia faz. Transplantada para a cinematografia, mas teve seu começo na fotografia. É elegante, atemporal e sempre funciona. Eu gosto muito de light painting também. Acho que o light painting é a aula de fotografia mais divertida que tenho, meu momento preferido da sala de aula.


Agda segurando uma lente e sorrindo
Foto: Briza Cunha

O que pensa sobre os 50 anos do curso de Jornalismo da UEPB?

Venho muito envolvida com essa data, estou dirigindo o novo projeto pedagógico de 2023, que comemora os 50 anos do curso. É muita responsabilidade, e ocupo o cargo de presidente do NDE (Núcleo Docente Estruturante). Tenho estudado a história do nosso curso e digo sem medo: na UEPB há o melhor curso de jornalismo da Paraíba hoje, com a melhor estrutura física, corpo docente e fluxograma, por mais que ainda precise ser aperfeiçoado. Temos vários problemas, nossos laboratórios podiam ser melhores, precisamos de concurso de efetivos. Mas temos o mais antigo curso de jornalismo do estado e formamos o maior número de jornalistas da Paraíba. Onde você for dentro do estado e no Brasil, encontra-se jornalistas da UEPB trabalhando bem no mercado, é um motivo verdadeiro de emoção.


O que te levou a escrever o livro 'Lições de fotografia para fazer em casa'? Como foi o processo de escrever um livro durante a pandemia?

Eu tinha muito material, muita coisa, e sempre sonhei em escrever um livro, desde criança. Quando tinha 17 anos, ganhei um concurso de poesia, mas nunca achei que daria conta de escrever um livro. Minha dissertação de mestrado foi transformada em livro, mas nunca fui capaz de escrever um livro do zero. Quando a pandemia começou, eu estava travada na minha tese e a fotografia sempre me salvou em momentos de dor e estresse. Então eu tive a sacada de fazer mini tutoriais no Instagram sobre técnicas fotográficas e teoria básica. Revisei meus manuais de fotografia e fui repercutindo os vídeos, até que ganhou destaque em diversos meios de comunicação. Em seguida, descobri que apenas 5% dos livros de fotografia publicados por editoras no Brasil são escritos por mulheres. Então, quando saiu um edital para da UFPB para submissão de livro, decidi transformar meu material do Instagram em um livro pedagógico, com categorias do mais fácil ao mais difícil. Ganhei o edital, o livro se tornou um e-book e hoje é o livro com o maior número de downloads da UFPB. Agora estou orgulhosa do meu livro e na missão de escrever outro, que será baseado na minha tese.


Agda segurando uma lente em frente ao seu olho
Foto: Briza Cunha

Qual conselho daria para alguém que quer ingressar na área do fotojornalismo?

É uma área difícil, mas completamente apaixonante. Não acredite quando outras pessoas chegarem até você dizendo que você não tem jeito ou talento para isso, porque quem tem essa noção é você. Hildebrando Neto me contou uma vez que assim que ele chegou na TV Paraíba, recém-formado, um editor disse para ele “Meu filho, faz outra coisa da vida, você não tem jeito para televisão não”. Temos duas escolhas, acreditar nos outros ou acreditar em nós e eu sempre acho que precisamos ouvir a nossa própria voz e correr atrás. O que vai decidir se você será bem-sucedido no trabalho é o seu empenho e a capacidade de abraçar as oportunidades que aparecem, mais para uns do que para outros, mas aparecem. Não desista!


Confira mais fotografias no slideshow:



 

FICHA TÉCNICA

Produção e fotografia: Luiz Farias, Briza Cunha, Matheus Souza

Monitoria: Ester Bezerra

Supervisão editorial: Ada Guedes e Rostand Melo

Entrevistada: Agda Aquino

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