História que muda vidas: a jornada acadêmica e humana de Jean Felix


Paraibano, natural de Areia, Jean Félix viveu na zona rural do município, no seio de uma família da qual foi o único a concluir os estudos e ingressar no ensino superior. Tão logo adentrou na universidade, sua identificação com a área acadêmica se fez evidente. Hoje professor, Jean vê na história muito mais do que um campo do saber, mas uma ferramenta de formação de cidadãos críticos, conscientes, fortes e autônomos. Autonomia que busca despertar em seus alunos e em quem cruza seu caminho.
De Areia, com vivência na Europa e os pés firmes na construção de sua jornada, Jean conta sua história evidenciando como a vida acadêmica e profissional o moldaram a se tornar uma pessoa focada e disciplinada. Sinônimo de inspiração para aqueles que lhe conhecem, como alunos e amigos, ele faz da sala de aula um espaço para contribuição de fortalecimento de identidades.
Nesta entrevista, ele conta um pouco sobre sua trajetória, de como saiu de uma família de iletrados e foi buscar seus sonhos na Espanha por meio da educação, e como nos dias atuais vem ensinando tudo o que aprendeu aos seus alunos, sempre com amor e certeza de que fez a escolha certa pra sua vida ao optar pela docência.
Quem é Jean e ao que se dedica hoje?
Me vejo mais como um ser demasiadamente humano, mas dentro dos papeis sociais que atuo, cidadão areiense, vindo da zona rural. Basicamente sou a primeira pessoa da minha família a ter iniciado os estudos a nível superior, a dominar outro idioma, ter saído do país, e seguir trajetória acadêmica. Me formei em história, tenho o curso técnico em administração e atualmente faço mestrado em história, pelo Programa de Pós-Graduação, da Universidade Federal de Campina Grande - UFCG. Basicamente esses são os atravessamentos que me constituem como pessoa e um agente social ativo, um cidadão.
Amante da filosofia e apaixonado pela psicologia. Sua decisão de cursar história foi, em certa medida, aristotélica: um caminho do meio, prático, que conciliava suas inclinações intelectuais. Foi inspirado por seu professor de história, Clênio, do Colégio Carlota Barreira. Ele o via entrar na sala de aula munido apenas de uma caneta piloto e da própria mente, o que o deixava profundamente impressionado. Naquele momento, surgiu sua principal referência e inspiração para seguir o caminho da história.
Lembra-se de como o professor romantizava o processo de estudo da disciplina. Em certa ocasião, ele disse:
“em algum lugar, nesse exato momento, há um estudante de história ouvindo Belchior dentro de um quarto, talvez até tomando um vinho. É isso que eu quero viver.”
Além disso, havia a questão central do ser humano como objeto de estudo. A história, como define Marc Bloch, dedica-se a compreender as ações humanas ao longo do tempo — um aspecto que dialoga diretamente com seu interesse pela filosofia e pela psicologia.
O estudo muda vidas e você deve ser uma prova disso. Como o estudo e a busca por ser um historiador mudou sua vida?
Quando o indivíduo se forma historiador, além dele compreender as várias configurações humanas, tanto do ponto de vista coletivo, quanto do ponto de vista subjetivo, ele compreende muito a si mesmo e consegue mudar as regras do jogo. Me amparo em um filósofo alemão chamado Hans Jonas e em um psicólogo chamado Viktor Frankl, juntando as duas perspectivas, que a gente compreende como ética da responsabilidade, onde o bem é justamente aquilo que me potencializa e o que me despotencializa é compreendido enquanto mal. A história moldou a minha vida nesse sentido, subjetivo, mental e até psíquico, me dando a possibilidade de ressignificar a minha própria trajetória enquanto agente social. A minha família é constituída por analfabetos, a priori, e saio desse seio, dessa cultura a qual muitos acabam se prendendo a ela dadas as condições materiais de existência do próprio Brasil, onde a gente tem uma desigualdade social absurda. A história vem me dando a possibilidade de romper e até mesmo fazer um processo de transição de classe, pois eu saio de uma classe mais subalterna e vou caminhando para uma classe média baixa chegando até mesmo à classe média, que é o horizonte de expectativa de quem trabalha na educação, tendo em vista a questão da média salarial de um professor concursado da universidade. Acho a história promove uma ascensão, tanto subjetiva pessoal, quanto econômica e material, quando a gente se insere nos circuitos de poder ou nos circuitos de trabalho, seja atuando na educação de nível médio concursado ou na educação de nível superior.
Qual foi a melhor experiência que a vida acadêmica te proporcionou?
Acredito que foi o processo de intercâmbio que fiz em 2020 quando consegui ser aprovado em um processo seletivo de um programa chamado PROMIM, programa de mobilidade nacional e internacional que existia e era ativo na UEPB (Universidade Estadual da Paraíba), isso via CORE (coordenação de relações internacionais). Tive a possibilidade de uma estadia na Espanha e posteriormente a Itália. Isso ficou e ficará marcado para sempre, como diria Belchior, para fazer menção: “nas paredes da minha memória”, não um quadro que dói, mas que me alegra e me impulsiona a continuar. Foi um marco na minha trajetória na graduação.
Quando questionado se a história seria uma matéria de estudo desvalorizada Jean respondeu:
"Concordo. De certo modo, a história só é importante pra quem decide os rumos políticos e administrativos, seja de um império ou de um país em um jantar de sexta à noite. Um dado histórico: Luís XIV contratou um historiador para ser seu biógrafo de carteirinha, porque ele sabia a importância da história. Basicamente a nossa classe política vem diminuindo a carga horária da história ao longo dos anos. A prática do ensino de história por muito tempo teve seu enredo orientativo, de uma história pelo passado e para o passado, onde criou-se essa cultura de rejeição da história, como se ela fosse uma ciência menor, não necessária, não útil para vida. Mas a história é exatamente o que nos constitui enquanto sujeito social, enquanto sociedade, enquanto civilização. Outro exemplo: se a gente apagasse toda a história da Itália, o que você iria fazer na Itália? Você não visitaria a Itália. Há uma valorização de áreas como matemática, português, ensinos que buscam formar técnicos. A gente vive na era da tecnologia e quem deve operar essa tecnologia? Os técnicos! E técnicos só precisam saber de números e palavras, não precisa saber de história, ele só precisa apertar botões. Já a história nos permite um pensamento crítico, nos permite a construção de uma identidade, e uma pessoa sem identidade, ela pode ser movida, pode ser modificada a bel prazer de quem tem o seu controle. A descredibilização da história, enquanto área do saber, é um projeto político administrativo. Lembro de alunos que diziam, o senhor não é professor de história, o senhor é professor da vida, mas o que é a vida, senão um mosaico de histórias."
O que você diria para aquelas pessoas que estão pensando em ingressar na área da história?
Eu diria que seria um grande desafio, mas uma vida sem desafio não é tão digna de ser vivida, uma vida de facilidades não constrói uma mente forte, e fazer história no Brasil, é sim um desafio por que não há um investimento, como há lá fora, nos países de primeiro mundo. Mas, de certo modo, quando se inicia o estudo da história a gente aprende a se apaixonar pelo nosso lugar, pela nossa própria biografia, e a gente acaba se encantando com a maravilhosa aventura que é a vida, então eu credito que o historiador é o tecelão dos tempos. A possibilidade de estudar história desde a pré-escrita ou pré-história é de um poder inimaginável, porque compreende o que foi o ontem, o que é o hoje, e até mesmo consegue imaginar como e o que será o amanhã. É desafiador, mas bastante gratificante do ponto de vista atual, mental e material, apesar de tudo vale a pena investir nessa ciência tão importante que é a história.
Para Jean, o professor não atua apenas como transmissor de conhecimento, mas também como uma presença humana significativa na formação dos alunos.
Parte-se da ideia de que o professor, em certa medida, acaba assumindo um papel próximo ao de um psicólogo, considerando o longo período de convivência com os estudantes ao longo da educação básica e superior. Esse contato contínuo cria um espaço em que o aluno não busca apenas conhecimento, mas também escuta, validação e orientação.
É tanto que naquela música, “pais e filhos”, de Legião Urbana, Renato Russo pergunta: “o que você vai ser quando crescer, se não pai?”.
O que é o seu método Full Time? Como funciona?
Começou com uma brincadeira, sobretudo, entre mim e Diego. O termo full time em inglês significa "o tempo todo em alerta". É um termo de efeito, que carrega uma carga energética muito potente. Quando falamos em sala “Ó, a gente é full time”, buscamos transmitir para os nossos alunos que eles são capazes. É como se eu dissesse: “nós somos capazes, somos fortes, nós vamos conseguir". E o que seria isso? Seria um estilo de vida pautado naquilo que eu fui bebendo no Friedrich Nietzsche, para quem a vida é uma potência em busca de potência. Também segundo a leitura de Clovis de Barros Filho. Então, pensando nisso, de um aumento da nossa potência enquanto arte de viver, o estilo de vida full time vem justamente buscando a questão de hábitos que nos conectam com nossa potência. A gente veio trazendo para os alunos também toda uma reflexão ética pautada em filósofos como Nietzsche, Espinosa, Séneca, que pensam numa vida digna de ser vivida ou na arte do bem viver. Ser full time é escolher a vida digna de ser vivida, de acordo com aquilo que você sonha, com aquilo que você busca, e de acordo com a conexão do seu eu consigo mesmo. Muitas vezes a gente vive numa sociedade de máscaras, artificial, e esquece a vida humana, e como eu disse no começo da conversa, eu me classifico como um ser demasiadamente humano. E ser humano é ser indivíduo resolutivo, é ser esse indivíduo que busca a sua potência de viver. Então, o full time tem em si, esse viés de inspiração, de motivação, mas sobretudo, representa um estilo de vida que busca possibilitar que um jovem se conecte com a sua essência, para a constituição e estruturação daquilo que a gente chama e que é importantíssimo pra vida, que é a identidade.
Uma vez saí com dois colegas para uma cachoeira, era final de tarde e eu dizia que o sonho da minha vida, era ser porta, ser ponte, meu sonho era ver pessoas chegarem a mim e me mostrarem seu horizonte de expectativa, e que eu pudesse, de alguma forma, facilitar a travessia até esse horizonte de realização.
Em síntese, a trajetória de Jean Felix revela que ensinar vai muito além da transmissão de conteúdos: trata-se de construir pontes entre culturas, experiências e pessoas. Sua vivência de intercâmbio na Espanha ampliou não apenas seu repertório acadêmico, mas também sua sensibilidade diante das diferenças, enriquecendo sua prática pedagógica. Em sala de aula, essa bagagem se traduz em uma relação profundamente humana com seus alunos, marcada pelo diálogo, pela empatia e pelo respeito às individualidades. Assim, sua história evidencia que a educação ganha sentido quando o conhecimento caminha junto com o afeto, formando não apenas estudantes mais críticos, mas também sujeitos mais conscientes e humanos.
Jean Felix, livro O Capital - Marcello Francisco
Expediente
FOTOGRAFIA: Erik Luan, Marcello Francisco, Sabrina Oliveira
TEXTO: Marcello Francisco e Erik Luan
PRODUÇÃO: Marcello Francisco
ENTREVISTA: Erik Luan
SUPERVISÃO EDITORIAL: Rostand Melo e Ada Kesea




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