• Eduardo Go

A fotografia remota na pandemia: uma pausa para reflexão

Atualizado: Nov 19


O contexto alarmante que notificou diversos países sobre a existência de um novo de tipo de coronavírus (SARS-CoV-2), causador da COVID-19, transformou o cotidiano das pessoas. Diante disso, esta doença tomou proporções pandêmicas por se tratar de uma doença transmitida de pessoa a pessoa, com expressivo número de casos e de óbitos notificados globalmente.


Diversas medidas foram tomadas para reduzir os riscos de disseminação do vírus, mas foi o distanciamento social que mais transformou o cotidiano, dos grandes centros aos pequenos agrupamentos urbanos. Esta medida impactou, inclusive, setores culturais e criativos da economia, que foram afetadas, também, pela morosidade na aplicação de ações políticas capazes de reduzir os prejuízos experimentados pelas categorias profissionais destes setores.


FOTOGRAFIA COMO CAMPO TÉCNICO CONSAGRADO


Mesmo antes da pandemia, a fotografia já era uma área criativa que se consagrou no campo técnico e artístico graças às transformações inerentes de sua área. O fazer fotojornalístico se reconfigurou ao longo dos séculos e chegou à contemporaneidade imerso em uma atividade jornalística que, segundo Peixoto (2020, p. 92), se percebe “novos formatos de produção, distribuição/circulação, consumo e financiamento” e que permitem ao campo renovar “os atuais modelos vigentes de desenvolvimento da atividade jornalística”.


Uma característica que também marca a atividade fotográfica no decorrer do tempo é a proximidade física entre o fotógrafo e o indivíduo fotografado, ou seja, sujeitos compartilhando da distância espacial contígua para se ter a experiência da captura de imagens. Esta modalidade foi afetada durante a pandemia, abrindo espaço para a utilização da fotografia remota.

Diante dos caminhos que a fotografia tem seguido neste momento, é importante trazer apontamentos acerca de múltiplas dimensões envolvidas neste fazer fotográfico. Um exemplo importante para tal entendimento se faz na observação do trabalho do fotógrafo Sergio Zalis, que se utiliza da fotografia remota no atual contexto pandêmico, mostrando a adaptação técnica inerente a esta área criativa.



O OLHAR DE ZALIS

Sergio Zalis é um fotógrafo formado na Holanda pela Escola Nacional de Belas Artes – Riiksakademie van Beeldende Kunsten – academia centenária que ensinou artistas como Piet Mondrian e Karel Appel. Por mais de três décadas Zalis intersecciona a fotografia e o jornalismo em seu olhar. Tem em sua biografia a marca de ser um dos precursores do Jornalismo de Celebridades no Brasil, retratando figuras como Marina Ruy Barbosa, Daniela Mercury e Laura Cardoso. Durante os primeiros meses de pandemia no Brasil, Sergio Zalis dedicou seu tempo ao projeto de fotografia remota, conhecido nas redes como #projetopausa.


"Durante minha quarentena no Rio fotografei remotamente amigos espalhados pelo mundo por meio de um iPhone. Fiz as fotos usando FaceTime/LivePhotos", comenta Zalis em seu perfil no Instagram.

Este projeto reuniu, por um mês, registros fotográficos – em sua extensa maioria celebridades – que transmitiu as experiências de confinamento dos personagens fotografados durante uma das fases mais intensas do distanciamento social no país. As imagens foram publicadas no perfil de Zalis no Instagram e na mídia em geral e, em sua maioria, podendo ser identificadas como fotonotícias, fotos de leitura unitária ou retratos. Elas ilustraram matérias em diversos veículos de imprensa. O #projetopausa encerrou com a imagem da sua filha Laura, médica residente na Santa Casa de Salvador, Bahia.



Um olhar para refletir


Trabalhos como o de Zalis promovem a reflexão sobre aspectos técnicos da fotografia, mas são os aspectos éticos que podem gerar algum dilema entre o fotógrafo e o fotografado. Assim como qualquer trabalho artístico ou criativo que requer da participação de mais de um indivíduo em sua composição, a fotografia remota – em especial a que é realizada com o suporte do indivíduo fotografado – não foge de questionamentos éticos que percorrem tais discussões.


É neste contexto que o fotógrafo e o fotografado podem se perguntar acerca de fatores como a autoria e/ou titularidade da obra, afinal, a propriedade intelectual de uma obra é o direito que fundamenta o trabalho do fotógrafo. Lembra-se, também, que questões como estas repercutem no uso da imagem do registro fotográfico pelas partes e nos benefícios obtidos em caso de comercialização do trabalho, sendo fundamental a sua menção em qualquer estudo da área.


Não cabe debruçar-se aqui no estabelecimento taxativo do que é certo ou errado no contexto da fotografia remota, por considerar que a própria natureza dos dilemas éticos parte das oscilações de certeza ou de dúvida sobre o seu objeto analisado, que tomará a consistência de um ou de outro a partir de apontamentos históricos, contextos socioculturais ou, ainda, de normativas jurídicas vigentes. Cabe, no entanto, apontar caminhos, sugerir reflexões que embasarão aprofundamentos ainda maiores.



Perguntas movem a fotografia


Pergunta-se, afinal, qual seria a forma consciente para identificar a fotografia remota, distinguindo-a de gêneros fotojornalísticos ou de outras formas de registro fotográfico. Na tentativa de esclarecer esta questão de forma objetiva, pode-se recorrer a nove perguntas basilares: Quem fez? O quê? A quem? Quando? Por quê? Para quê? Onde? Como? Com que desdobramentos?.


É possível apontar, na fotografia, aspectos que a tornam singular em relação aos outros formatos. Estes questionamentos foram utilizados, segundo Felipe Pena em seu livro Teorias do Jornalismo, pelo professor e jornalista João de Deus, que buscou expandir a objetividade na construção do lide da notícia.


Felipe Pena compreende que a objetividade “é definida em oposição à subjetividade, o que é um grande erro, pois ela surge não para negá-la, mas sim para reconhecer a sua inevitabilidade”.

Considera-se que o jornalista, bem como o fotojornalista e o resultado de seu trabalho, possuem alta carga de subjetividade e requerem de métodos objetivos para percebê-los em seus desdobramentos. Na tentativa de não esgotar as reflexões vistas até o momento, deixemos de lados algumas das perguntas mencionadas para focarmos em apenas uma (quem?). Atento à objetividade, se propõe um rápido apontamento diz respeito às questões de quem é o autor e quem é o titular da obra.



A legislação brasileira, em especial a que trata do direitos autorais, protege a ideia materializada em uma obra. A fotografia remota possui o esforço técnico e intelectual do fotógrafo, cabendo a este a autoria da obra. Considera-se, no entanto, a possibilidade na fotografia remota de fazer com que o fotografado seja compreendido como co-autor, havendo participação criativa/ intelectual no desenvolvimento da obra.


Quanto à titularidade, é visto que profissionais como Zalis que utilizam de seu esforço intelectual para produzir a fotografia remota e que podem transferir a titularidade dos direitos de sua obra – na perspectiva patrimonial – aos veículos que prestam serviços ou, ainda a terceiros, não cabendo ao fotografado não co-autor a participação nesta dinâmica.


De toda forma, assim como as outras perguntas basilares para a compreensão objetiva da fotografia remota, e já apresentadas aqui, o (quem?) é, de longe, o questionamento que sai da esfera técnica da fotografia e insere na esfera autoral, mas que ainda não se mostrou como força motriz para a geração de dilemas éticos na área. A legislação nacional mostra-se bem fundamentada, enquanto o trabalho fotográfico realizado remoto demanda muito mais desafios técnicos do que éticos.


A fotografia, portanto, não é um campo que se esgota em uma única discussão, mesmo quando a proposta é refletir objetivamente sobre esta. Contudo, cabe ao olhar crítico de quem estuda tal linguagem, entender a trama de reflexões em torno dos novos formatos do fotografar. A importância disso está em apreciar um trabalho fotográfico feito remotamente, compreendendo seu contexto de criação e tomando obras como a de Zalis para estudo, o que culminará de modo ativo na reflexão crítica de um campo imagético movido pelas perguntas, como é a própria fotografia.


FICHA TÉCNICA

Análise e texto: Eduardo Gomes

Fotografias: Acervo Sergio Zalis (Instagram)

Monitoria: Andresa Costa

Supervisão Editorial: Rostand Melo


*Observatório de fotojornalismo:

O Coletivo F8 optou por produzir análises sobre produções de fotojornalismo realizadas e publicadas em 2020 como alternativa de manter a produção acadêmica dos estudantes de fotojornalismo da UEPB, respeitando os protocolos de distanciamento social. São analisadas fotografias publicadas em revistas, jornais ou portais de notícias e que abordam temas diversos, mas que foram produzidos no contexto da pandemia.

Supervisão Editorial: 

Rostand Melo (DRT-PB 2717)

coletivof8.foto@gmail.com

Projeto de extensão - cota 2019/2020

Edital nº 02/2019 - PROEX/UEPB 

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