• Shayelle Araújo

Além dos olhos: enxergar na fotografia o que não conseguimos entender



Enxergamos com os olhos desatentos quase toda matéria que passa pela nossa vida, às vezes enxergamos muito, mas também enxergamos pouco. Por que nós atribuímos o fato de enxergar somente aquilo que nos é visível aos olhos?


Além da matéria visível aos olhos, existe o dom de enxergar aquilo que há de mais perene ou profano da existência dos seres: os sentimentos. A construção de aprender a enxergar os sentimentos não se adquire com a análise fotográfica, se aprende em vida. Quando nós passamos pelo processo de entender e enxergar os sentimentos com a vida, a fotografia nos ensina a aperfeiçoar o nosso olhar sob os sentidos e sobre aquilo que às vezes não é possível explicar com palavras.


A riqueza dos olhares, a nobreza dos sentimentos e o que não pode ser dito, apenas sentido.


O fotojornalista Victor Moriyama navega nesse mar que é capturar aquilo que poucos olhares desatentos podem enxergar: Victor dedica a maior parte do seu trabalho para registrar o cotidiano dos brasileiros que vivem em estado de vulnerabilidade social. Ele se dedica a capturar a essência dos própios cidadãos e do cotidiano deles, especialmente fazendo o registro dos projetos sociais e instituições que beneficiam essas pessoas no momento delicado da pandemia do COVID-19.


Victor também dedica seu trabalho para registrar imagens da floresta Amazônica para a imprensa brasileira e para a imprensa internacional. O seu trabalho é composto por fotografias humanistas, com o comprometimento em registrar e documentar os processos de violências que prevalecem nas relações sociais e ambientais no nosso país. Seus últimos trabalhos foram realizados no The New York Times, Bloomberg, Le Monde e no El País como colunista ativo.


Fotografias: Victor Moriyama em São Paulo em 25/05/2021 para o The New York Times.

O ensaio realizado por Victor para o The New York Times reflete o espelho da maior ferida de nossa sociedade brasileira: a desigualdade social. Dentro dessa selva de pedra, nós podemos enxergar que mais do que nunca, a fome está presente entre nós. Os personagens que estão sendo expostos nos retratos expõem com clareza a dura realidade de quem vive nas ruas, de quem não tem alimentação nem moradia. Pessoas que vivem sem amparo nenhum e mais do que todos nós, expostos á fome, ao perigo e ao contágio do vírus.


Na imagem que apresentamos na abertura deste post, observamos vários moradores de rua que, enfileirados, esperam desinquietos pela alimentação do dia, talvez a primeira delas. Jovens e senhores que estão na frente de um grande muro cinza, que se destacam não só pela sua vulnerabilidade em comum, sobretudo pelo tom das suas peles.


Victor é muito categórico na mensagem em que ele deseja passar com as suas fotografias. Um plano corretamente exposto, nós permite sentir a força e a estranheza que o tom de cinza carrega em sua composição.


A segunda fotografia nos conta muito sobre a insegurança alimentar: pessoas que dormem e dividem espaço com restos de comidas e elaboram uma forma de se aquecer do frio rigoroso da cidade de São Paulo. Pessoas nas ruas, em suas barracas dividem entre si o espaço onde convivem, a comida que comem e até mesmo, compartilham entre si as suas inseguranças e o seu amor pelos animais: um cachorro que ao lado, observa todos os movimentos com a sua tigela de comida completa.


Existe uma sensibilidade um pouco maior ao retratar as questões das causas sociais, quando se refere à desigualdade, é muito difícil prosseguir uma leitura ou visualizar um ensaio fotográfico sem se comover ou se chocar com a informação preparada. O pilar do trabalho do autor é justamente registrar as situações de violência ou vulnerabilidade em que as pessoas se encontram, esse seria ou não um ponto negativo? Tendo em vista que encontramos diversos temas que possuem grande impacto para comunicação, dentro da esfera social, é válido expor a realidade?




Existem diversos tipos de consumidores de notícia, e entre eles estão as pessoas que não se atraem por fatos que mostrem a realidade como ela é. Também existem os consumidores que já estão adaptados a enxergar a realidade sem temer pelo o que é visto ao vivo ou o que é visto pelas câmeras.


Expor as pessoas em situação de desigualdade é andar na linha tênue entre ser transparente com o real e ter a frieza de encarar a realidade. Acredito que seja importante para os consumidores nutram o sentimento de conscientização e humanização entre a sociedade, sentimentos que as fotografias de rua nos trazem. Acredito que nesse terreno, a fotografia pode cumprir o seu papel de apresentação do que é real, da nossa realidade como ela é.


Além de freelancer, Victor é colunista de alguns veículos de imprensa. E por sua vez, todas as suas obras possuem um direcionamento pessoal e trabalhista. As obras que possuem um conteúdo mais sensível geralmente tem um segmento humanista, todas elas são regulamentadas por seus direitos autorais, seja para imprensa brasileira ou para uso pessoal, as obras do autor possuem a finalidade informativas, jornalísticas e humanitárias. As suas fotografias, se utilizada por terceiros, devem ser descritas de forma clara o nome do autor, sendo proibida a comercialização das imagens sem a autorização prévia do autor, qualquer tentativa de plágio da obra original ou qualquer alteração na composição da fotografia que possa comprometê-la.


Confira mais imagens no slideshow:

FICHA TÉCNICA:

Texto e análise fotográfica: Shayelle Araújo

Fotografias: Victor Moriyama

Monitoria e redes sociais: Andresa Costa, Oma Roxana e Louise Viana.

Supervisão editorial: Rostand Melo.


*Observatório de fotojornalismo:

O Coletivo F8 optou por produzir análises sobre produções de fotojornalismo realizadas e publicadas entre 2020 e 2021 como alternativa de manter a produção acadêmica dos estudantes de fotojornalismo da UEPB, respeitando os protocolos de distanciamento social. São analisadas fotografias publicadas em revistas, jornais ou portais de notícias e que abordam temas diversos, mas que foram produzidos no contexto da pandemia. A reprodução das imagens está fundamentada no art.46 da Lei Federal nº 9.610/1998, considerando que não constitui ofensa aos direitos autorais a citação de qualquer obra para fins de estudo ou crítica.