• Eric Matheus, João Alfredo Motta e Lígia Nogueira

Consequências do negacionismo na luta contra a Covid-19 na Paraíba


Eric Matheus

No dia 18 de março de 2020, a Paraíba confirmou o seu primeiro caso da Covid-19. Ainda não havia decreto estadual falando sobre a definição do que era considerado um "serviço essencial" e as pessoas ainda se programavam para se encontrar em shows, bares e restaurantes. Ou seja, era a vida como sempre foi.


Muitos ainda achavam que “a doença da China” só acometia quem viajava para fora do país. Os desavisados acreditavam possuir uma imunidade especial, ora por serem descrentes do potencial ofensivo do vírus, ora por se sentirem diferentes. Foi quando chegou o dia 30 de março, do mesmo ano, trazendo consigo a notícia que, para os que temiam a doença, soou como o início de uma guerra invisível: "a Paraíba registra sua primeira morte pelo novo Coronavírus”.


Logo, os casos e as mortes, que antes eram de pessoas “estranhas” nos noticiários, foram se tornando mais tangíveis, tanto para aqueles que acreditavam na doença, quanto para os que não. Expressões foram sendo introduzidas no nosso vocabulário, ao exemplo de lockdown. Comerciantes precisaram fechar as portas de seus estabelecimentos, serviços essenciais (o tipo de trabalho que, se paralisar, impacta diretamente no essencial para o outro viver, como: saúde, informação, alimentação, etc.), foram sendo ditados, decretos estipularam toques de recolher, profissionais ligados à área da saúde passaram a ganhar seus devidos reconhecimentos e, enfim, tivemos que “engolir de goela abaixo” que a ciência é sim importante e que a Covid-19 é um mal comum a todos.


Entre mortos e feridos, e dez meses depois, o desenvolvimento da vacina finalmente se mostrou eficaz. Aliás, não só uma, mas várias. E mesmo com todo cenário negativamente histórico, e com o imunizante já aplicável no país, algumas pessoas ainda se recusam a tomá-lo. Isso se dá ao fato de que a CoronaVac, por exemplo, que foi a primeira a chegar no Brasil, foi feita com materiais e pesquisas importadas da China (país que confirmou o primeiro caso do novo Coronavírus no mundo). Ou seja, o negacionismo que antes era por falta de casos confirmados perto de casa, agora é por xenofobia – e, como se não bastasse, ideologia política.


Dados

Um ano se passou e, até o dia em que essa matéria foi escrita, a Paraíba já tem 264.640 casos confirmados da doença entre os 223 municípios paraibanos. O estado registra o número total de 5.949 mortes pela doença e sustenta um padrão de 30 a 50 mortes a cada 24 horas. Temos 3,944 milhões de pessoas no estado paraibano e contamos com 532.477 doses aplicadas da vacina, o que corresponde a 8 por cento de pessoas vacinadas. Depois de um ano, os números de casos confirmados da doença não param de crescer. A Paraíba tem um padrão de mil casos confirmados em um intervalo de 24 horas.


No dia a dia

Literalmente, de uma hora para outra, todos precisaram se adaptar em novas rotinas, como o trabalho em home office ou ensino em formato remoto. A maioria dos estudantes precisaram dar continuidade às aulas, pois não poderiam deixar de se graduar, por exemplo.


“Eu tive que apresentar meu TCC durante a pandemia. Minha maior dificuldade foi manter o foco devido à pressão psicológica que todo mundo tá enfrentando", diz Roberta Renali, estudante paraibana, concluinte do curso de Direito em 2020.

Os profissionais que fazem a cobertura diária da doença, de certo modo, estão em contato com a pandemia mais profundamente todos os dias, como nos conta a repórter do portal G1 Paraíba, Iara Alves:


"Ser repórter durante a pandemia é lidar com o sentimento de passar notícias ruins [diariamente]. Se eu pudesse escolher, eu só daria notícias boas. Mas precisamos retratar a realidade que nos cerca. Eu não encaro a dor de dar notícias ruins, mas eu enfrento o desafio diário de humanizar essas histórias tristes, de mostrar que não são só números, mas que, em vida, as pessoas que morreram por conta da doença representam amor na memória de quem fica. (..) A informação salva vidas", afirma.

A força do negacionismo em 2021, um aparato histórico



Herbert Marcuse, em seu epílogo da obra "O 18 de Brumário de Luis Bonparte", de Karl Marx, citada anteriormente, afirma que “os fatos e personagens da história mundial que ocorrem, por assim dizer, duas vezes, na segunda não ocorrem mais como farsa. A história serve para muitas coisas se, a partir de acontecimentos monstruosos vivenciados, ações forem produzidas no sentido da transformação do mundo e dos homens que aqui habitam. Mas parece, definitivamente, que o passado foi esquecido e que, como tragédia, ele volta, trazendo impressionantes conexões com o presente.


Em 1904, por exemplo, o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião chegava a 1.800. Ainda assim, mesmo com a vacina já produzida, grande parte da população recusava-se a inoculá-la. Uma parte da rejeição se dava ao fato de que, além do líquido possuir pústulas de vacas doentes, corria o boato de que os rostos dos vacinados seriam substituídos por feições bovinas (fonte: Agência Fiocruz de Notícias) – tal qual a transformação em jacaré, em 2021.


Não precisamos fazer explicitamente aproximações com o que vivemos hoje, no século XXI, diante de mais uma pandemia. Está tudo muito claro. As ruas desertas; os hospitais sem recursos suficientes para atender a enorme quantidade de enfermos à procura de ajuda; os pobres, que antes recebiam pão, água e sopa (agora se ganha o chamado “Auxílio Emergencial”); os corpos dos mortos ao lado dos vivos; as valas abertas nos cemitérios para receber os milhares que aguardavam o sepultamento; além do país em crise econômica, muitos brasileiros mortos e uma campanha por vacinação em massa marcada por um embate entre governo e sociedade. Há grande aliança entre o retrato do Brasil de 2021 e do que acontecia em 1904 no Rio de Janeiro, então capital federal.


Herbert Marcuse, em seu epílogo, afirma que “os fatos e personagens da história mundial que ocorrem, por assim dizer, duas vezes, na segunda não ocorrem mais como farsa. Ou melhor: a farsa é mais terrível do que a tragédia à qual ela segue”.


Tal afirmação pode ser explicada entre o paralelo da Revolta da Vacina de 1904 e a pandemia da Covid-19 em 2021: no século XX, a população não tinha a facilidade de informações que existe hoje, nem a experiência de uma vacinação em massa. Sem falar que, pouco antes, o governo havia feito uma campanha violenta contra o mosquito da febre amarela. Invadiram lares, prenderam quem se opunha e fizeram uso de força física. Tudo o que havia no momento da vacina era o trauma da truculência. Então, os medos legítimos e as fakes news da época, plantadas por motivos políticos, eram mais difíceis de ser contestados.


No Brasil atual, entretanto, tem-se um país que já foi referência mundial em vacinação e chega a ser desumano que se embarque em boatos ou coloque ideologia em algo que é simplesmente científico, sem deixar-se comover por centenas de milhares de mortos.

FICHA TÉCNICA

Fotografias: Eric Matheus e João Alfredo Motta

Redação: João Alfredo Motta e Lígia Nogueira

Pós-produção das imagens e Revisão textual: Eric Matheus, João Alfredo Motta e Lígia Nogueira

Monitoria e redes sociais: Manoel Cândido , Josineide Barbosa e Louise Viana

Supervisão Editorial: Rostand Melo



47 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo