Quando o jogo não termina: jovens, apostas e riscos invisíveis
- Coletivo F8

- há 9 horas
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O crescimento das apostas online no Brasil, popularmente conhecidas como “bets”, tem chamado atenção pelo alcance cada vez maior entre jovens. Essas plataformas funcionam como sites ou aplicativos que permitem apostar dinheiro em eventos esportivos ou jogos de cassino virtual, com promessa de retorno financeiro rápido.
Nos últimos anos, impulsionadas pela publicidade massiva nas redes sociais, pela atuação de influenciadores digitais e pela facilidade de acesso via celular e Pix, as bets se tornaram parte do cotidiano de muitos jovens brasileiros. Dados do segundo semestre de 2025 da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em parceria com a Educa Insights, mostram que 52% dos jovens afirmam apostar regularmente, um aumento significativo em relação aos 42,9% registrados no ano anterior. A frequência também chama atenção: muitos apostam de uma a três vezes por semana.
O impacto dessa popularização já começa a aparecer em diferentes áreas da vida desses jovens. Ainda segundo a ABMES, 34% das pessoas entre 18 e 35 anos deixaram de ingressar no ensino superior em 2025 por conta de gastos com apostas online, o que representa quase 1 milhão de estudantes fora das universidades. Entre aqueles que já estavam matriculados, cerca de 14% relataram atraso em mensalidades ou até mesmo o trancamento do curso devido a dívidas relacionadas ao jogo.
Além disso, o problema não se restringe à vida acadêmica. Uma estimativa com base em um levantamento do Ministério da Justiça e da Unifesp, aponta que mais de um milhão de adolescentes brasileiros já realizaram algum tipo de aposta online. Diante desse cenário, especialistas alertam que, embora muitas vezes sejam vistas como entretenimento, as apostas online podem desencadear uma série de problemas, dentre eles, no campo psicológico. A promessa de ganho fácil, aliada à dinâmica rápida dos jogos, pode estimular comportamentos compulsivos e criar uma relação de dependência semelhante à observada em outros tipos de vício.
MECANISMO CEREBRAL
É nesse contexto que surge uma questão central: por que essas plataformas são tão atrativas para os jovens e em que momento o que começa como diversão pode se transformar em um comportamento de risco?
Para entender melhor os mecanismos por trás desse fenômeno e seus impactos na saúde mental, conversamos com a psicóloga Letícia Rodrigues. De acordo com a profissional, o sucesso dessas plataformas entre o público jovem está diretamente ligado ao funcionamento do cérebro humano. Ela explica que as apostas ativam o chamado sistema de recompensa, responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer. “A cada ganho, o cérebro recebe uma recompensa, o que gera uma expectativa constante de repetir aquela sensação”, destaca.

ESCALADA DO HÁBITO
Esse mecanismo faz com que o ato de apostar deixe de ser apenas uma atividade ocasional e passe a ocupar um espaço cada vez maior na rotina do indivíduo. Segundo a especialista, todo esse processo acontece de forma gradual. Inicialmente, o comportamento pode parecer inofensivo, sendo encarado como lazer. No entanto, à medida que o jovem passa a apostar com mais frequência, surge a dificuldade de estabelecer limites.
Letícia também chama atenção para a linha tênue entre o uso recreativo e a compulsão. O principal critério de alerta, segundo ela, é o controle. Enquanto o jogo ainda está sob controle, pode ser considerado recreativo. Mas, quando o impulso se sobrepõe à capacidade de decisão, o comportamento já indica risco.
“Se a pessoa não consegue resistir ao impulso e precisa apostar constantemente, já estamos diante de um sinal de dependência”.

Os impactos vão além do hábito em si. A psicóloga destaca que o vício em apostas pode desencadear problemas sérios de saúde mental, como ansiedade e depressão, além de afetar diretamente a vida social e familiar. “A pessoa fica ansiosa quando não joga, entra em um estado de abstinência. E isso não afeta só ela, mas também quem está ao redor”.
Outro fator que agrava o cenário, segundo Letícia, é a forma como essas plataformas se inserem no cotidiano, especialmente entre populações mais vulneráveis. Para ela, as apostas acabam sendo apresentadas como uma alternativa acessível de lazer e até de solução financeira, o que amplia seu alcance, como se o que é oferecido fosse exatamente aquilo que a pessoa sente falta, o que aumenta ainda mais o desejo.
DESEQUILÍBRIO FINANCEIRO
Além das consequências psicológicas, o avanço das bets também levanta preocupações no campo econômico, especialmente em relação ao impacto no orçamento das famílias. A bacharel em Economia Karla Queiroz destaca que o problema é ainda mais grave entre famílias de baixa renda, que já enfrentam dificuldades para cobrir despesas básicas. “São famílias que já lidam com limitações financeiras e acabam inserindo mais um gasto no orçamento, muitas vezes acreditando na promessa de retorno”, afirma.
Esse comportamento, de acordo com Karla, altera diretamente a dinâmica financeira dessas famílias. Recursos que seriam destinados ao consumo básico passam a ser direcionados para as apostas, o que pode gerar desequilíbrio e até endividamento. Estudos do Banco Central, citados por ela, indicam que parte dos valores recebidos por programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, chegou a ser utilizada em plataformas de apostas.
Ela também ressalta que a ideia de “renda extra”, frequentemente associada às bets, não se sustenta do ponto de vista econômico.

“Não há garantia de ganho. Pelo contrário, o sistema é estruturado para que o jogador perca mais do que ganha”.
Outro ponto destacado é o impacto mais amplo na economia. Ao direcionar dinheiro para plataformas de apostas, muitas vezes sediadas fora do país, há uma redução na circulação de recursos no comércio local. “Esse dinheiro deixa de girar na economia, de gerar consumo e investimento. Isso afeta não só as famílias, mas o próprio desenvolvimento econômico”, pontua.
Mesmo com avanços recentes na regulamentação do setor, a graduada em Economia avalia que as medidas ainda são insuficientes para proteger, especialmente, o público jovem. Ela defende que a chamada “Lei das Bets”, implementada nos últimos anos, trouxe regras como a exigência de idade mínima e limitações na publicidade, mas ainda enfrenta desafios na fiscalização.
Para Karla, o alcance massivo das campanhas, muitas vezes impulsionadas por influenciadores digitais, continua sendo um dos principais problemas. “Essas plataformas conseguem se infiltrar em diversos espaços, inclusive eventos e redes sociais, atingindo justamente o público mais jovem”, afirma.

Diante desse cenário, especialistas apontam que o crescimento das apostas online não deve ser analisado apenas como uma tendência de consumo, mas como uma questão que envolve saúde pública, educação financeira e regulação. Entre promessas de ganhos fáceis e consequências reais, o desafio agora é compreender até que ponto esse fenômeno pode impactar o futuro de uma geração.
Bastidores da publicidade
Outro aspecto relevante que influencia diretamente no aumento das apostas online são as publicidades em massa nas redes sociais. Por meio de influenciadores, essas formas de divulgação de cassinos virtuais têm tomado grandes proporções. Stories, grupos de divulgação, links e promessas de retorno financeiro rápido se tornaram algo cotidiano para os usuários da internet.
Falamos com o influenciador Hian Barbosa para compreender a problemática relacionada às publicidades e o papel que o influenciador exerce nesse meio virtual. Segundo ele, as propostas de divulgação dessas casas de apostas são quase que diárias. É preciso destacar que muitos influenciadores simulam apostas nessas plataformas para induzir a confiança dos seguidores, mas, na prática, trata-se apenas de uma aposta falsa. O influenciador explicou como funcionam os ganhos: “Através do meu link, você deposita 100 reais, eu ganho de 20 a 30% disso; são as comissões. E, dependendo da quantidade de seguidores que você tem, você também recebe uma parcela mensal, além das comissões.”
Promessa ilusória
Mas, qual é a responsabilidade dos influenciadores digitais sobre esse tema? Hian comenta que seus critérios éticos pesaram na decisão de recusar as propostas recebidas.
“A partir do momento que se tem alguém que você acompanha diariamente e tem uma credibilidade muito grande nessa pessoa, quando ela fala: ‘ó, eu estou fazendo isso e está dando certo para mim’, você vai pensar: ‘se deu certo para ele, vai dar certo para mim também’. E não é assim que funciona.”
Somado a isso, as apostas online são apresentadas como uma forma de diversão, principalmente para pessoas em situação de vulnerabilidade social, que não possuem acesso a um lazer de qualidade. Trata-se também da parcela da sociedade que mais consome internet como forma de escapar da realidade afetada pela desigualdade social. Muitos influenciadores que divulgam essas apostas ostentam uma vida cheia de luxos e exageros. Com a promessa de que, se seus seguidores seguirem o mesmo caminho, irão alcançar aquele objetivo enganoso.

Percepção de mudança
Yuri, estudante de Direito, de 18 anos, comenta que começou a apostar online pela praticidade e rapidez com que obtinha seus resultados: “Aquela sensação de conseguir sempre vem, e a gente tenta apenas pra ver se dá certo, e quando uma aposta dá certo enche a gente de alegria, não é nem pelo dinheiro mas por vencer”.
O jovem descreve as mudanças que sentiu em seu psicológico e o que fez decidir parar: “A coisa mais negativa é a mudança, que as apostas, fazem na nossa cabeça, isso me fez perceber que eu poderia me afundar muito com essa ‘brincadeira’, eu me via no controle da situação para parar, mas pelo meio que eu vivia, sempre voltava a apostar e a arriscar.”
Experiências distintas
A experiência de quem consegue parar, entretanto, costuma ser uma exceção dentro de um contexto mais amplo. Entre parar e continuar, o que se observa não é um contraste simples, mas sim diferentes formas de lidar com a mesma realidade. Essa dualidade de perspectivas evidencia que esse fenômeno vai além de experiências isoladas.
É nesse cenário que se insere a história do jovem de 19 anos, Samuel Aires, que segue jogando mesmo reconhecendo os riscos envolvidos. O rapaz teve seu primeiro contato com as “bets” por meio de publicidades nas redes sociais. “A propaganda era excelente e me induziu a criar uma conta na casa, depositar um valor e apostar. Aí eu fiz o bilhete (nome dado quando se monta uma aposta entre times) e acabei ganhando um valor bem acima do que eu havia apostado. A partir disso, vi que era interessante e comecei a apostar desde esse dia”, relata Samuel.
Ao ser questionado sobre como lida com a questão das perdas, ele disse que já foi algo que o abalou fortemente, e chegou a pensar que sua felicidade dependia disso. Hoje, no entanto, o jovem relata que, com orientações e conselhos de familiares, desenvolveu uma maturidade e aprendeu a diferenciar as coisas, evitando apostar valores altos e reconhecendo a importância de cuidar do seu psicológico.
No caso de Samuel, o apoio familiar e o trabalho com a própria mentalidade foram essenciais para mudar sua relação com as apostas. Ao reconhecer os riscos e estabelecer limites, ele demonstra que é possível construir uma relação mais consciente com esse universo. Ainda assim, seu relato também revela que esse processo não acontece de forma imediata e que essa realidade não se apresenta de forma homogênea para todos.

Marco legal
Do ponto de vista legislativo, tem-se a Lei nº 14.790/2023 que regulamenta as apostas de quota fixa e proíbe o acesso de menores de 18 anos. Essa medida visa estabelecer limites para o público considerado mais vulnerável. Contudo, ainda é possível perceber a facilidade com que menores de idade conseguem acessar plataformas como essas. Essa realidade evidencia desafios no cumprimento e na efetividade dessa regulamentação e levanta questionamentos sobre a capacidade de fiscalização e controle em um ambiente digital cada vez mais acessível.
Diante desse cenário, o advogado Cláudio Gregório destaca que a efetividade da lei ainda enfrenta desafios. Para o mesmo, não há, necessariamente, uma falha técnica no texto legal, uma vez que ela é explícita ao proibir o acesso de menores. O problema se faz presente na execução, pois enquanto as empresas autorizadas precisam seguir regras rigorosas, os sites localizados no exterior conseguem contornar a regulamentação, estando assim, ao alcance dos indivíduos menores de 18 anos.
Desafios na fiscalização
Ao abordar as punições ele ressalta que as sanções devem ser proporcionais ao risco social gerado. “Defendo a aplicação rigorosa da cassação da licença de operação para empresas que apresentem falhas sistêmicas no bloqueio de menores. A ‘pena de morte’ administrativa para a plataforma é o único mecanismo que realmente força o setor privado a investir no estado da arte da segurança digital.”, pontuou Cláudio.
Embora a existência de normas seja fundamental, garantir a segurança desse público exige também fiscalização digital, acompanhamento familiar e preparo emocional. Trata-se de uma responsabilidade que ultrapassa o campo jurídico e demanda uma atuação conjunta da sociedade. Para o advogado, “a proteção do menor não é apenas um artigo de lei, é um mandamento constitucional de prioridade absoluta que deve sobrepor-se a qualquer interesse de arrecadação fiscal”.
EXPEDIENTE:
Fotografia: Júlia Pereira, Kássia Queiroz e Maria Clara Tavares
Produção: Júlia Pereira, Kássia Queiroz e Maria Clara Tavares
Entrevista: Júlia Pereira, Kássia Queiroz e Maria Clara Tavares
Redação: Júlia Pereira, Kássia Queiroz e Maria Clara Tavares
Supervisão editorial: Rostand Melo e Ada Guedes













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