Uma cidade sobre duas rodas: a saga dos mototaxistas de CG

Não é difícil flagrar a atividade dos mototaxistas clandestinos. Foto: Marvin Santiago.

 

Sobre duas rodas, eles rodam toda a cidade. Cadastrados são cerca de 1000, mas há um número incalculavelmente maior de clandestinos. A Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP) estima 3,5 mil. De vez em quando, blitze apreendem as motos irregulares. Enchem caminhão.

 

Ágil, preço acessível e disponível a um aceno ou um assovio, é a alternativa de locomoção para os apressados, e alternativa de sobrevivência para aquele que perdeu o emprego – não está fácil conseguir outra colocação, e assim aumenta em proporção geométrica a população de máquinas clandestinas.

 

A Associação que representa a categoria pede a abertura de mais cadastros, a STTP replica que depende de lei específica para cadastrar um aumento da frota. Enquanto a lei não chega, convivem oficiais e clandestinos.

 

 

 

Postados em ruas multifacetadas, coloridas, compõem a paisagem urbana, com suas motocicletas e capacetes brancos, numerados, cortados pelo xadrez amarelo e preto. Têm praça própria, e, sob a sombra de uma árvore, enquanto aguardam o cliente, viajam na internet do celular. São oficiais. São cadastrados.

 

Mais além, com menos organização, outro grupo também compõe o quadro, em frente a uma parede de pedra. Nada nestes é padronizado: mesclam-se em cores veículo e capacete. Só se sabe serem mototaxistas pelos dois capacetes sobre a moto, um deles acomodado sob a redinha que o prende ao veículo.

 

Num torvelinho urbano, pedestres experimentam diferentes ritmos no caminhar, mas são unânimes ao se deslocar para pontos mais distantes: querem velocidade. Não querem a lentidão do ônibus, que quase nunca aparece no momento em que dele se precisa. Também não desejam o táxi, porque caro e porque não escoa com muita facilidade nos muitos engarrafamentos do cotidiano. Para estes, a moto apareceu como uma mão na roda.

 

“É o transporte ideal”, diz o dono do corpanzil, que acerta o preço da corrida, acomoda o capacete (quantas cabeças terão ali se enfiado antes?), passa a perna rechonchuda e se acomoda na garupa. A moto parte, cortando caminhos, estreitando-se nos becos dos carros, passando-lhes perigosamente à frente...

 

Encontram outras motos, outras corridas, outros passageiros. Pousam feito abelhas em enxame, diante do vermelho, e antes que este se faça verde, já disparam, apressados. Cruzam a cidade. Conhecem caminhos desconhecidos. Sobem calçadas, desviam-se de postes e gentes: “que fino!”

 

Tomara que cheguem bem ao destino, motoqueiro e passageiro. Na maioria das vezes chegam. Só não quando a fatídica combinação do desequilíbrio com a ausência de mais duas rodas arrastam o veículo faiscante pelo asfalto e projetam seus ocupantes ao solo, geralmente estropiados, quebrados, estatelados no chão, cercados de gente, à espera do SAMU. Maioria esmagadora de atendimento nas emergências traumáticas são de vítimas de acidentes de moto.

 

E o dia segue. As viagens se sucedem. Mototaxistas deslizam pelo asfalto, em direção da cidade ainda clara pelo sol. O dia não terminou. Precisam ganhar o leite dos meninos. Perigo há, não há como negar; mas, ora, viver é perigoso. E “cobra que não anda não engole sapo”. Prestando atenção nos carros fronteiriços ao seu caminho, livrando-se dos choques, jogando a mão para o alto, numa reclamação mímica enfática ao motorista descuidado, o mototaxista segue sua vida, seu destino, seu dia, no caminho de casa.

 

Só para na padaria, para comprar o pão do jantar.

 

FICHA TÉCNICA:

Fotografia e reportagem: Edson Tavares, Marvin Santiago, Wesley Farias, Iuri Amorim, Isaac Falcão e Rafael Avelino.

Supervisão editorial: Rostand Melo

 

 

 

 

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