• renanmedeiros2

A fotografia como linguagem enaltecedora da beleza negra


FOTO: Marcos Custódio

Tudo é questão de impressão e sensibilidade. Os fotógrafos Marcos Custódio e Tiago Sant'Anna vão nos mostrar um pouco como sair bem na foto e destacar os seus aspectos mais importantes.


Em entrevista ao blog negrxs50+, Marcos conta que o desejo de fotografar sempre esteve dentro de si desde a infância. Em certo momento, essa vontade ficou cada vez mais forte. Decidiu comprar um celular, Moto G, equipamento simples, mas que o ajudou a fazer sua primeira fotografia. Desde então, ele pegou o gosto pela fotografia e nunca mais parou. Começou a estudar para se especializar na pele negra.


“Me incomodava não ver pessoas negras em destaque nas revistas”, disse.

E é exatamente isso, as pessoas negras ainda aparecem pouquíssimas vezes em capas de revistas, salvo exceções, alguns famosos. É importante trabalhar a linguagem fotográfica em outras realidades culturais. A fotografia tem grande impacto nesse processo de exaltação, sendo que, por meio dela, é possível captar elementos característicos. Isso se aplica a cultura negra, tudo faz parte: corte de cabelo, moda, tonalidade da pele, figurino, ambiente e a beleza da pele negra. Custódio mostra isso claramente em suas fotos, dando destaque nas composições para exacerbar todos esses aspectos.


Cada pessoa tem um perfil específico e planejado por ele para produzir o material fotográfico. Em contrapartida, os materiais de impressão e revelação são caros, tendo isso em mente, o fotógrafo oferece também os pacotes digitais e sempre tenta se adequar a realidade do cliente. O ensaio é produzido com espontaneidade, os clientes ficam a vontade para posar e quando é preciso, ele os dirige também.


Segue fotos de alguns ensaios produzidos por ele:



Fica evidente, nas fotos, toda a atenção dada pelo fotógrafo na composição para captar os traços característicos da pele negra. A configuração da câmera, a iluminação, o modo como o modelo é fotografado, visando preservar os destaques e registrar de forma correta o que ele quer passar.


“A fotografia para mim é o registro do que meus olhos veem. No meu começo com a fotografia tive problema de lidar com a competitividade e, por falta de experiência, quase desisti. Então comecei a estudar por conta própria e usar estratégias para ingressar no mercado. Nesse momento de pandemia, optei por não pegar muitos trabalhos, e otimizei meu tempo para me especializar mais em vídeo e fotografia", conta.




Até uma criança de pele mais clara, se tiver o cabelo crespo, já passa por algumas situações chatas de constrangimento e até mesmo de violência. Por isso, ter um enfoque maior na fotografia da pele negra é tão importante para desmarginalizar, ou seja, quebrar aos poucos esse preconceitos. Percebemos, através dessas fotos acima, que o fotógrafo busca evidenciar aspectos conceituais das pessoas negras, como os cabelos black power e rastafári.


Outro fotógrafo que trabalha com esse tema é Tiago Sant’Anna. Também em entrevista ao blog negrxs50+, conta que começou no ramo da fotografia fazendo festas noturnas em Madureira, bairro da zona norte do RJ. Se interessou mais ainda ao ver os fotógrafos e ficava impressionado com as fotos produzidas.


Seu primeiro equipamento foi uma câmera simples. Logo depois, passou a alternar entre as festas e a produção de alguns ensaios. Sant'Anna faz toda a composição da foto com perfeição: o conceito, as cores, o figurino, exceto a parte da maquiagem.


FOTO: Tiago Sant'Anna

Tiago diz que não é especialista na pele negra, mas como a alta demanda desse público foi aumentando, o seu trabalho ficou marcado com esse tema, e que está aberto para fotografar todas as pessoas.


“A fotografia pra mim é liberdade. É se ver através dos olhos de outra pessoa. É ter outra perspectiva. A fotografia tem poder suficiente pra transformar sua mente e a sua vida“, diz.


Os figurinos são bem trabalhados e confeccionados com o maior afinco. O tema e o plano de fundo se casam, os reflexos na pele são uniformes devido a iluminação natural, destacando mais ainda a tonalidade. A maquiagem também não fica atrás, o batom marrom escuro, as pinturas ao longo do corpo e os acessórios. Tudo isso para acentuar a beleza negra.


Tiago tem vários pacotes de fotos super em conta para seus clientes, do mais básico ao mais trabalhado. "Tenho pacotes variados para ensaios fotográficos. O mais acessível, não necessita de figurino, já o pacote ART, permite que meus clientes escolham acessórios simples que façam referência ao tema escolhido. Essa é uma forma do cliente não pagar muito, e tem um ensaio com produção, mais limitada. Já para quem gosta de produção, há o pacote Fantasy. Eu confecciono figurinos completos de acordo com o tema escolhido. Sem dúvida, o Fantasy é o ensaio mais produzido e o mais caro, porém todo o meu trabalho é bem acessível.” diz.


Diante de toda essa análise, fica evidente que nos meios de comunicação, hoje em dia, a representatividade negra deixa muito a desejar. Não há espaços, por mais que a população negra seja maioria no Brasil, segundos dados recentes do IBGE, 2019. Os negros que o instituto conceitua como a soma dos que se assumem como pretos (19,2 milhões) e pardos (89,7 milhões) são a maioria da população, e mesmo assim ainda existe o preconceito enraizado.


A fotografia entra nesse meio como um espaço de fácil acesso para culminar, mais ainda, a cultura negra, contando com profissionais e produções de trabalhos focados para o tema.

FICHA TÉCNICA:

Fotografias Analisadas: Marcos Custódio e Tiago Sant'Anna

Reportagem: Renan Rodrigues

Monitoria: Manoel Cândido

Supervisão Editorial: Rostand Melo


#CulturaNegra #Observatório #EnsaiosFotográficos #Reportagem #jormalismo #UEPB #Coletivof8 #manoelcandido


*Observatório de fotojornalismo:

O Coletivo F8 optou por produzir análises sobre produções de fotojornalismo realizadas e publicadas entre 2020 e 2021 como alternativa de manter a produção acadêmica dos estudantes de fotojornalismo da UEPB, respeitando os protocolos de distanciamento social. São analisadas fotografias publicadas em revistas, jornais ou portais de notícias e que abordam temas diversos, mas que foram produzidos no contexto da pandemia.

27 visualizações0 comentário