• Anne Suênia

Do giz ao smartphone: a rotina de uma professora durante a pandemia



A paraibana de Camalaú, no Cariri do estado, Selma Sales, de 48 anos, é uma das tantas pessoas que tiveram que se reinventar durante a pandemia da Covid-19. Acostumada com o giz na mão, com a voz alta, com o excesso de gestos para prender a atenção dos alunos e o mais importante: com o contato com os pequeninos, a pedagoga agora tem uma rotina completamente diferente.


As aulas acontecem virtualmente, através de uma plataforma do Google. Porém, nem todas podem participar diariamente... o por quê? Nem todas têm acesso a celulares ou computadores. Para garantir que nenhum dos alunos tenha qualquer tipo de prejuízo, as atividades são entregues às mães das crianças, que têm entre seis e sete anos, uma vez na semana.


“Os desafios só aumentaram com a pandemia. A gente teve uma grande mudança. Costumo dizer que nós, professores, saímos do palco e fomos para a parte de trás da cortina. Atrás dessa cortina, que é em casa, através das aulas virtuais, não estão só os alunos, está também toda a família deles que os acompanham neste momento”, relatou.

Educação para a família toda


Mas o que Tia Selma não esconde é que apesar das dificuldades, a dedicação para que a aprendizagem dessas crianças aconteça é ainda maior do que antes. O que fazer para que houvesse uma adaptação - por parte dos alunos e dela, claro - e que não além de cumprir as atividades, os momentos fossem prazerosos? De dedicação essa professora entende. É que ela ficou por dentro de todas as novidades das redes sociais e gravou até “challenge”, que é uma espécie de desafio com músicas, para que os alunos se interessassem.


As aulas agora não são só para os pequenos. São para a família. “O que antes você só dizia ao aluno, agora tem a oportunidade de dizer a uma família. Em alguns momentos das aulas virtuais eu esqueço que estou com toda a família ali e depois recebo os relatos dos pais: eu aprendi isso também!”. Esse é o papel transformador da educação: de chegar onde quase nada chega e de fazer o que poucas outras coisas fazem.



Educação que transforma vidas


A educação também mudou a vida de Selma. Ela é filha de agricultores semianalfabetos e foi através da educação que garantiu um futuro confortável. “Costumo dizer que mesmo semianalfabetos, meus pais são doutores na arte de educar filhos, pois mesmo com seu jeito simples sempre inventaram os filhos a estudarem. Eles faziam a gente ver na educação uma forma de ascensão”, contou.


O desejo de se tornar professora surgiu quando a paraibana ainda era criança. “Eu morava e estudava na Zona Rural e era apaixonada pela escola, pois, desde essa época, a escola era um dos lugares mais atrativos para mim. Primeiro para fugir da labuta na agricultura e também por ser apaixonada por aquele universo”, disse.


O primeiro “espelho” de Selma na educação? Sua primeira professora. “Eu tinha ela como o ser perfeito. Eu sonhava em ser como ela!”, recorda. Além da primeira, a educadora também contou que, durante a sua caminhada educacional sempre foram surgindo professores inspiradores.



Além de sonho, uma necessidade


Selma conta que a educação sempre foi seu sonho, mas também foi uma necessidade e uma oportunidade de mudar de vida. “Comecei ensinando em uma turma 'multisseriada', com alunos do 1º ao 5º ano. Era uma loucura! Mesmo assim, isso foi fazendo com que eu me apaixonasse ainda mais. Todo dia algo novo. Amo isso no meu trabalho!”, disse.


Após o término do ensino médio, a camalauense se casou, saiu da zona rural, foi morar na cidade e continuou lecionando. Nessa época, era comum professores lecionarem sem o ensino superior.


O sonho do curso superior nunca saiu da cabeça de Selma. “Cursei pedagogia com muita luta, mas aprendi muito na graduação. Aproveitei muito do curso, do meu grande sonho. Depois vieram as pós-graduações e ainda não parei. Ainda sonho com muito mais, sempre na educação”, relatou.


A caminhada da professora já dura quase 30 anos. São 30 anos com alunos de todas as idades, com a oportunidade de ensinar a filhos e até a netos de ouros alunos. 30 anos de esforços pouco reconhecidos e remunerados, mas cheios de dedicação e amor. O amor à profissão não é sobre não reconhecer que não há valorização e que há, muitas vezes, precariedade no local de trabalho.


O amor que Selma conta está em todas as vezes que, mesmo depois de tantos anos, ela ainda se emociona quando ensina uma criança a ler e escuta a voz ainda um pouco atrapalhada juntando as sílabas e dizendo seu nome completo. O amor está em todos os dias que, mesmo em casa, Selma se arruma e diz “vou ficar bonita para os meus pequenos”.


O amor está na persistência, na força de vontade de, quem sabe, também ser para alguém, aquela primeira professora que ela sonhava em ser igual. Finalizo essa reportagem dizendo: ela é. A educação mudou a vida de Selma e ela mudou a minha. Mesmo vivendo em um país onde a educação e os educadores são totalmente desvalorizados, mesmo sabendo que não deveriam existir tantas dificuldades para alguns e nenhuma para outros, para quem não nasceu rico e tem sonhos, não há outro caminho senão esse: o da educação.


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FICHA TÉCNICA

Fotos e Reportagem: Anne Suênia

Supervisão editorial: Rostand Melo

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