Cérebro em rotina de ruído: A geração do brain rot
- Coletivo F8

- 21 de mar. de 2020
- 5 min de leitura

“Brain rot”: um termo provocativo que saiu das redes sociais e ganhou destaque global ao ser eleito “palavra do ano” de 2024 pela Universidade de Oxford. Em tradução livre, significa “deterioração cerebral” e descreve os impactos negativos do consumo excessivo de conteúdos digitais fragmentados e superficiais, como vídeos curtos, memes e notificações constantes.
O que começou como uma gíria popular entre usuários da internet, principalmente os mais jovens, ganhou força como uma tentativa de dar nome a sintomas reais e cada vez mais comuns, esse fenômeno contemporâneo preocupa especialistas, pais e educadores, pelo fato de terem a perda de concentração, o cansaço mental e a desmotivação diante de tarefas mais longas e profundas.
Por que isso está acontecendo? O que está em jogo quando o cérebro se adapta a uma rotina marcada pela estimulação constante? Nesta reportagem, mergulhamos nos bastidores desse novo tipo de desgaste cognitivo, ouvindo especialistas, educadores e os próprios jovens para compreender os riscos, os sinais e, sobretudo, os caminhos possíveis para reconquistar o foco, a criatividade e o prazer pelo conhecimento.
Sintomas e impactos na saúde mental: o que dizem os especialistas?
Embora o termo “brain rot” não seja reconhecido oficialmente pela medicina, os efeitos que ele descreve vêm sendo estudados com seriedade por profissionais da psicologia e da neurociência.
Segundo a neuropsicóloga Aline Elana, o consumo contínuo de conteúdos digitais rápidos pode causar sobrecarga cognitiva, especialmente em cérebros em desenvolvimento, como os de adolescentes e jovens adultos.

Ela explica que o cérebro humano tem uma capacidade limitada de atenção e que a estimulação constante oferecida pelas redes sociais interfere diretamente nessa capacidade. Entre os principais impactos observados estão a dificuldade de manter o foco em atividades prolongadas, a desmotivação para tarefas que exigem esforço mental e a redução da atenção sustentada. Isso se deve, em parte, à desregulação dopaminérgica causada pela busca por recompensas imediatas, típicas do ambiente digital.
Além disso, há uma crescente associação entre o uso excessivo de mídias rápidas e sintomas de ansiedade, impulsividade e quadros semelhantes ao TDAH. A super estimulação digital afeta o desenvolvimento do córtex pré-frontal (região do cérebro ligada ao planejamento, ao autocontrole e à regulação emocional), tornando os jovens mais vulneráveis a esses efeitos. Aline também aponta que esse cenário impacta diretamente a capacidade de lidar com o tédio e com atividades que exigem paciência, como ler, estudar ou criar algo novo. Aos poucos, o cérebro passa a evitar situações que envolvam gratificação tardia, o que pode comprometer o aprendizado, o desempenho acadêmico e até as relações interpessoais.
Conforme a especialista, o alerta é claro: os sintomas associados ao “brain rot” apontam para mudanças reais no funcionamento do cérebro. Por isso, ela defende a necessidade urgente de repensar hábitos, promover uma educação digital mais consciente e criar espaços que favoreçam experiências cognitivas profundas e saudáveis.
Vozes da sala e da rede
Em meio às transformações velozes do mundo digital, há vozes que ecoam dos corredores escolares e das telas iluminadas dos smartphones. Professores e jovens, em sua pluralidade de experiências, têm percebido e vivenciado os impactos de uma era marcada pelo excesso de estímulos e pela constante busca por dopamina.
O professor Brenno Luiz, biólogo formado pela UEPB e docente no Colégio Panorama, observa mudanças claras no comportamento dos estudantes: “Na capacidade de atenção, sim, tem essa certeza. Devido ao uso de telas, celulares e notebooks, que facilitam, mas nos tornam dependentes.”
Ele alerta que o cérebro, sobrecarregado por memes, vídeos e informações em excesso, passa a registrar menos, dificultando manter o foco.
Embora reconheça o potencial pedagógico das ferramentas digitais, Brenno ressalta a necessidade de equilíbrio: “Hoje, você quer buscar o resumo, a resposta e utiliza a IA para isso, mas acaba não parando para ler e estudar. Isso acaba gerando um grande problema.”
Ana Beatriz, estudante de Fonoaudiologia, de 18 anos, traz o relato de quem sente no corpo e na mente os efeitos dessa sobrecarga digital: “Sensação de cansaço mental, que, por conta do excesso de informações que recebemos a cada minuto, nossa mente se cansa facilmente e causa muitas vezes a perda de memória precoce e atenção.” Mesmo com um tempo médio de uso diário relativamente moderado, cerca de 1h51min, ela afirma:
“Minha produtividade e disposição caíram muito. Isso desregulou meu sono, minha concentração piorou e perdi o interesse em atividades que antes eram interessantes para mim.”

O impacto do fenômeno brain rot não se limita ao campo individual. Em contextos escolares, a sobrecarga digital se manifesta em sala de aula, como apontam observações da professora Edileuza Vieira, formada em Pedagogia e leciona na Escola Municipal Rui Barbosa, localizada na zona rural de Pocinhos–PB, com 222 alunos matriculados, atende do Maternal ao Fundamental II. Ela nota uma crescente dificuldade dos alunos em manter o foco por longos períodos e um menor interesse por conteúdos que não sejam imediatamente estimulantes. A instituição restringiu o uso de celulares, seguindo a Lei n.º 15.100/2025, sancionada em janeiro de 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que gerou melhorias na concentração e na interação social dos estudantes. No entanto, o desafio permanece: equilibrar o controle com o uso pedagógico eficaz das tecnologias.
Bruna Renata, 26, estudante de Pedagogia e trabalhadora de call center, descreve a sensação de estar presa a uma rotina digital que suga o tempo e a energia: “É uma sensação de escravização mesmo. [...] quanto mais consumo nas redes, muitas das vezes quero consumir mais, e isso prejudica toda uma rotina.” Adrielly, 24, também operadora de telemarketing, compartilha uma percepção semelhante: “É como se o cérebro estivesse constantemente exposto a informações irrelevantes, dificultando se concentrar em coisas importantes.”
Dados recentes do relatório Digital 2024 Global Overview Report, instituição especializada em angariar fontes de dados para entender o comportamento humano com a internet, apontam que os brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia na internet, sendo mais de 3 horas apenas nas redes sociais. Esse excesso de exposição, segundo especialistas, pode contribuir significativamente para sintomas como ansiedade, insônia, déficit de atenção e queda na produtividade.
Como enfrentar o problema e recuperar a atenção?
Diante desse cenário, especialistas apontam caminhos para reverter os efeitos do “brain rot”. A neuropsicóloga Aline Elana defende a prática da "higiene digital", que inclui reduzir o tempo de tela de forma gradual, criar barreiras ao uso automático das redes e substituir o consumo passivo por atividades que exigem foco e promovam atenção plena, como leitura, escrita, esportes, jogos de raciocínio e tempo ao ar livre.
A psicóloga Geyslanne Lígia acrescenta que práticas como "mindfulness", meditação e hobbies criativos são ferramentas poderosas para restaurar o foco e a saúde emocional.
“Precisamos estabelecer limites claros para o uso digital e reservar tempo para o mundo real. A conexão offline também é uma forma de reconectar a mente”, defende.
Ela recomenda técnicas como o time-blocking dividir o dia em blocos de tempo com atividades definidas, inclusive para o descanso e lazer consciente. Outro ponto essencial é o sono: dormir bem é crucial para consolidar a memória e manter o equilíbrio emocional, e o uso de telas à noite compromete esse processo. Em casos mais graves, quando há sintomas como apatia, ansiedade elevada ou perda de funcionalidade, ambas recomendam acompanhamento psicológico.
“Mais do que cortar o digital, é preciso reaprender a usá-lo com propósito, transformando a tecnologia de inimiga da atenção em aliada do bem-estar”, resume Geyslanne"
Diante disso, emerge uma constatação inquietante: o fenômeno brain rot não é apenas um modismo ou exagero midiático, é uma realidade que está atravessando a formação das novas gerações. O desafio posto é reaprender a conviver com a tecnologia de maneira crítica, consciente e saudável, onde o digital não substitui a vida, mas serve a ela.
EXPEDIENTE
Fotografia: Davi Santos, Pedro Alves e José Alexandre Reportagem: Davi Santos, Pedro Alves, José Alexandre e Vitória Luísa Edição e Redação: Davi Santos Supervisão editorial: Rostand Melo e Ada Guedes































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