Além do apito: rotina intensa empurra jogadores ao colapso físico
- Coletivo F8

- 10 de jun.
- 7 min de leitura

Ele dribla, faz o gol, comemora e a torcida inteira vibra. No país do futebol, muita
gente já idealizou viver momentos assim. O futebol ocupa um lugar na cultura nacional que
lhe confere a benesse de ser mais que um esporte: é uma paixão e sonho de muita gente
que já se imaginou nos gramados. O que elas não sabem é que por trás dos vários golaços,
vitórias e fama, há um medo constante de lesão e comprometimento da carreira.
Substituição, por favor!
Esse é um problema que todo atleta esta sujeito a enfrentar, seja em nível nacional
como internacional. Segundo dados apurados pelo Globo Esporte (ge), apenas na Série A
do futebol brasileiro mais de 8 mil lesões ocorreram entre os anos de 2016 a 2025. Na
Europa, a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) registrou mais de 13 mil
contusões em jogadores de clubes de elite nos últimos 15 anos.
Contudo, não são apenas números, não apenas profissionais que sentem dor ou
mancam no meio da partida. São profissionais do atletismo que têm que ficar meses em um
departamento médico ou em processo regenerativo. Eles treinam pesado, dedicam um vida
à construção de uma carreira que pode, em algum momento virar uma tradução de
músculos doloridos, corpos no limite e fraturas. E, claro, medo constante de uma interrupção
precoce.
Fora dos holofotes, o problema é ainda maior!

A aflição rente à contusão não se restringe às grandes lendas do esporte. Indo muito
além da agonia sentida por Ronaldo Fenômeno antes da Copa do Mundo de 2002,
jogadores que estão longes dos holofotes da mídia também passam por isso. Na pressa de
estar sempre pronto para o próximo jogo, todos os atletas correm contra o relógio para estar
apto para entrar em campo, mesmo quando o corpo pede pausa. Já calçou a chuteira?
É nesse intervalo curto entre os jogos – sem direito a acréscimos –, que vivem
jogadores como Miguel Vinícius. Com passagem nos anos de 2025/2026 pelo Clube
Campinense, o desportista relata experiências que teve que conviver com a dor e a
profissão.
“O corpo dá sinais de cansaço, mas como atleta a gente tenta superar isso na base da concentração e do comprometimento com o grupo. ” lembra.

Tendo que cumprir com o calendário apertado que quase sempre assola o futebol
brasileiro, a preparação quase sempre é exaustiva. Em meio a treinos, jogos, viagens,
preparação e pouco descanso, o ciclo se repete, causando cansaço mental e físico.
Em casos assim, ninguém fica no banco de reservas. Todos entram em campo.
“Quando a sequência de jogos é muito pesada, fica mais difícil manter o nível. E não é só o físico, o mental também pesa. Existe sempre a responsabilidade de dar o melhor em campo, mas nem sempre o corpo responde ao que a mente pede. É aí que a frustração aparece. Ainda assim, a gente busca estar preparado para contornar essa situação.”
Quando perguntado se houve algum momento marcante em sua carreira que o
esforço foi excessivo, o atleta relembra o início da temporada de 2026. Cinco jogos.
Quatorze dias. Um desafio sem igual.
“Durante esses cinco primeiros jogos tivemos viagens longas e pouco tempo de recuperação entre uma partida e outra. Então, precisa cuidar muito bem do corpo, com alimentação, descanso… senão acaba sentindo bastante nas outras partidas” afirma.

Com uma sequência assim, danos ao corpo não são raros e Miguel é prova-viva
disso. Em diversos momentos de sua trajetória futebolística, o desportista sentiu dores e não
pôde parar. Tendo o compromisso de ajudar o clube, a paixão pelo esporte falou mais alto,
com o jogador resolvendo entrar nos gramados.
“No futebol [atuar lesionado] isso é algo comum. Às vezes é um jogo importante, o time precisa e você quer ajudar. ”
Fora do campo, o corpo cobra a conta
Indo além das quatro linhas, a ciência insiste na estratégia que a logística do futebol
não segue: a sobrecarga do atleta é um fator enorme para a queda do desempenho do
atleta e da sua integridade. No esporte, entretanto, esse problema ainda não foi jogado para
escanteio.
É o que explica Josenaldo Lopes, professor de Educação Física da Universidade
Estadual da Paraíba. Para ele, não há segredo: é necessário um conjunto de estratégias
para a recuperação do atleta, desde o descanso até as atividades de recuperação das
equipes.

“Normalmente essa sobrecarga vem em consequência da quantidade de treino, do número de partidas, de minutos dentro do jogo. Contudo, hoje você tem uma equipe de fisiologista, preparador físico, vários profissionais que buscam justamente suprir essas consequências da sobrecarga”.
O futebol é um esporte de contato. São 90 minutos de pura adrenalina e disposição
em um gramado de aproximadamente 100 metros. É um espetáculo, capaz de reunir
incontáveis pessoas para presenciar o show. Contudo, quando o tempo é demorado demais
– e nem estou falando de quando o time que o torcedor ama está perdendo –, a disposição
é de menos.
Para o discente, várias são as razões que agravam a situação do atleta. Dentre os
motivos, é apontado pelo professor o limitado número de substituições em desporto como o
praticado por Miguel. Em esportes em que a troca de jogadores é ilimitada, o futebol ainda
peca pela falta de mudança.
"No futsal, por exemplo, você tem um rodízio de atletas justamente para evitar essas lesões por consequência do efeito da sobrecarga. O futebol são apenas 5”

Os jogadores chegam ao campo e a bola rola naquele lindo gramado. Ou não. Na
realidade dos esportes, muitas vezes o adversário não é o adversário, mas a estrutura. O
educador concorda.
“A gente vê o seguinte: gramados irregulares, buracos. Muitas vezes, até esses pequenos buraquinhos, quando não são bem cuidados, fazem com que o jogador prenda o pé ali e, de repente, sofra uma lesão provocada por uma irregularidade do terreno, uma falha, um buraco. Vários são os fatores nesse sentido estrutural” pontua. Ainda falta dar um cartão vermelho para a irresponsabilidade

Em um esporte jogado com o pé, não é de se estranhar que as contusões mais
recorrentes ocorram na parte inferior do corpo. Entre travadas com o adversário, mudança
repentina de direção e chutes, o jogador vai pouco a pouco sendo desgastado. Josenaldo
pede atenção.
“A literatura aponta que as lesões mais comuns no futebol são as de tornozelo e joelho. Partindo das mais simples, aparecem inflamações como tendinite, capsulite e tenossinovite, além de lesões de menisco e do ligamento cruzado anterior (LCA). Também há lesões nas partes internas e externas do joelho. Essas ocorrências estão diretamente ligadas à dinâmica do jogo: corrida, chute, divididas, encontros de pé com pé e mudanças de direção. Por isso, é muito comum, na literatura, a incidência dessas lesões, especialmente no LCA”.

O futebol começa a buscar soluções fora das quatro linhas
Vendo que está ficando atrás do placar, o futebol tem mudado sua estratégia. Hoje
a tecnologia tem sido um grande aliado na melhor recuperação do atleta. Segundo o
professor, “se não tiver ciência, não cresce”. E acredita que, ainda que a situação nacional não seja a ideal, há um otimismo por constantes melhorias. “A cada dia está melhorando”, aponta. Que golaço!
O atleta que defendeu as cores preta e vermelha de Campina Grande também
reconhece a importância do trabalho da preparação física que o clube dispõe.
“O trabalho deles é muito importante. O departamento médico sempre acompanha a gente de perto, fazendo avaliações e controlando a carga no treino. Isso faz muita diferença para evitar lesões. ”
O juiz apita. Fim de jogo. Os jogadores desamarram suas chuteiras e vão para casa.
Há um novo compromisso pela frente, mas antes são necessários alguns preparos. Pelo
menos é o que afirma Fabrício Dias, fisioterapeuta em Remígio-PB. O primeiro passo, claro,
é o repouso, sendo
“O tempo médio de recuperação após uma partida intensa algo entre 48 a 72 horas. Levando em consideração que nas primeiras 24 horas, o foco é reduzir dor e inflamação. Depois ocorre a regeneração muscular” afirma.

Na parte clínica, o profissional dá instruções de como agir e recorda a importância
de um capacitado na área.
“O preparo do atleta começa com uma avaliação inicial, a base de tudo, e passa por uma preparação física equilibrada. Treino preventivo — essencial na fisioterapia —, além de aquecimento e ativação, recuperação e descanso, controle de carga e educação do atleta. Afinal, um bom preparo não é apenas treinar forte, mas treinar com inteligência, com o fisioterapeuta atuando na prevenção de lesões, correção de falhas e garantindo que o atleta atinja o máximo desempenho com segurança.”
Entre quedas e recomeços, o futebol insiste em transformar dor em continuidade
O futebol por vezes é um tanto quanto desafiador e traiçoeiro. Histórias como a de
Miguel são frequentes. Muitas vezes, inclusive, histórias sequer são reiniciadas sendo
interrompidas de forma precoce. O que um dia foi sonho, torna-se uma triste realidade. O
que seria um golaço, vira gol contra.
Mas ainda assim o esporte vem sendo cada dia mais consolado pela ciência. A cada
dia que passa, mais tecnologia e estudos vêm sendo desenvolvidos em prol de uma melhor
saúde dos desportistas. Como afirma Josenaldo, “tudo é com ciência”.

Mas ainda que caia, o jogador se levanta. Domina o problema no peito, conduz a
bola, e toca pro lado sem olhar pra ele. Afinal, ainda que dramas façam parte da realidade
do esporte bretão, a beleza e emoção que o futebol traz para o brasileiro é única. E o
roteiro ainda é o mesmo: ele dribla, faz o gol, comemora e a torcida inteira vibra. Apenas
agora se sabe que o importante não é levantar taças como Cafú, muitas vezes significa cair
como Ronaldo Fenômeno.
EXPEDIENTE
Fotografia: Felipe Henrique, Sabrina de Oliveira
Pauta: Anayde Vitória e Zeno Diniz
Produção: Anayde Vitória, Felipe Henrique e Zeno Diniz
Reportagem: Felipe Henrique, Sabrina de Oliveira e Zeno Diniz
Supervisão Editorial: Rostand Melo e Ada Guedes




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