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O semeador da moda: Semente por semente, o algodão

  • coletivof8noite
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura
Foto: Manuel Duarte
Foto: Manuel Duarte

O nascimento de uma linha de roupas, provinda de um conjunto de tecidos, costurados a dedo para tomarem diferentes e diversas formas. A tecelagem fio à fio, todo um conjunto de mãos que semeiam o algodão, do branco ao colorido, para que cada semente plantada floresça em novas roupagens.


É seguindo por uma estrada de terra, em meio às áreas rurais de Remígio, uma pequena cidade do interior paraibano, que se pode encontrar o “Assentamento Queimadas”. Local onde é cultivado o algodão semeador daquilo que vem a ser uma grande nota no compasso da agroecologia, algo inovador que se vinculou à moda paraibana e se expandiu ao renome nacional e destaque internacional. Alcançando seus títulos com um estilo de mercado e mercadoria próprio, o algodão agroecológico, orgânico e, por incrível que pareça, naturalmente colorido.


Antes das passarelas e desfiles, existe um processo que exige pessoas em seu encalço e uma dedicação que trás com cada uma delas uma cultura de cuidado e constância. Antes do algodão se tornar a roupagem de um novo cidadão, ele passa pelas mãos do cultivo. Suzana Aguiar, diretora do RBA, Rede Borborema de Agroecologia, afirma com entusiasmo a certeza de saber que o grande diferencial de seu algodão produzido no “Assentamento Queimadas”, em relação ao convencional, é o manejo e a ligação que as famílias têm com a terra.


A vivência de um povo é perpassada de geração em geração, seus ensinamentos são compartilhados entre as famílias da comunidade, como se sua história fosse semeada junto do seu algodão, seria como ver florescer um filho criado por vários pais, mães e irmãos, e seus resultados se alçarem em direção ao colorido das novas peças que são estampadas em lojas e prateleiras.


“A gente chama toda a família e faz esse momento da semeadura do algodão. Então ele é feito todo manual, semente por semente. [...] Não é só o algodão, é a energia de cada pessoa que foi semeada, a história de cada família que foi semeada ali.” - Suzana Aguiar
Alexandre Almeida e Suzana Aguiar.  Foto: Manuel Duarte
Alexandre Almeida e Suzana Aguiar. Foto: Manuel Duarte

Em passos vagarosos, a produção permite entender a complexidade por trás de uma cultura que semeia uma nova forma de moda, mas também seu próprio sustento, é ao lado desse mesmo algodão onde seus alimentos do dia a dia são plantados e cultivados, isso mostra que, ao passo que em sua refeição chega à mesa, o algodão chega à tecelagem e se torna a renda das várias casas que vivem torno de seu cultivo.


“Porque a agricultura familiar é de tudo. Você planta um milho, planta um feijão, mas o algodão é a fonte de renda. Só que do algodão, você não se alimenta. [...] A gente precisa da sobrevivência, de comprar uma roupa. Acho que o algodão é a fonte principal da rede do desenvolvimento da nossa família.” - Alexandre Almeida

Desde os meses de plantio, abril e maio, o algodão é preparado para não perder sua riqueza e diversidade natural. Em torno de 140 dias de ciclo produtivo, um cuidado específico, que culmina em uma boa qualidade de sua pluma, é a escolha pela não utilização de agrotóxicos e agroquímicos, uma prática de cultivo pioneira no assentamento, feita por José Sinésio da Silva, pai de um dos atuais agricultores daquele lugar, o já mencionado Alexandre Almeida, a quem lhe ensinou o ofício e que já transmite ao filho o passo a passo que aprendeu.


O trato do solo; O plantio; Os primeiros brotos florais; A maçã; O capulho; E, por fim, a colheita; em um processo que recebe apenas água da chuva, onde a terra cultivada e o cuidado das mãos de agricultores fazem desse ciclo uma parte fundamental de suas vidas, de sua subsistência e, acima disso, de sua existência. Isso tudo conta mais do que os ensinamentos de seus ancestrais, conta também seus cuidados com o presente e o futuro.


“A gente entrou no mapa. Porque a gente era invisível. Nós temos uma identificação hoje. O algodão é uma identificação. Ele é o nosso cartão de visita. Ele fez com que a gente existisse [para o mundo].” - Suzana Aguiar

Em meio a um mundo que parece cada vez mais imediato, maquinizado e alheio aos seus próprios passos, o “Assentamento Queimadas” retoma uma tradição e a põe em termos modernos, conciliando-o com aquilo que mais o rodeia dia após dia: o meio ambiente. É por meio de um mercado exigente com relação à origem do algodão e sua certificação, com quem o produziu, com quem respeitou a cultura de seu cultivo, e consequentemente, o tempo da natureza, que se tem início o processo semeador da moda.


“Mas acho que é o sonho de todo agricultor… vender o fio, vender o tecido, vender a roupa.” - Alexandre Almeida

Foto: Manuel Duarte
Foto: Manuel Duarte

O Artesanato nas passarelas da Borborema


Senhoras e senhores, sejam bem-vindos à esta coleção. É com muito orgulho que apresentamos uma linha de vestuário com grande diversidade de criações artesanais que vão desde produções para mercadorias diversas, até a principal fonte de utilização do algodão de Remígio, seja branco ou colorido, às vezes os dois, em uma linha tênue à Alta Costura, que desfila pelas luzes e passarelas do Planalto Borborema e encanta Brasil a fora.


A Craft Core se transforma em grande ornamento dessa produção, um movimento que surgiu em contradição à produção de massa e imediata, o trabalho manual aqui grita por meio das técnicas de confecção artesanal de chaveiros, bolsas, artigos de mesa e banho, roupas, e até mesmo bonecas de pano, que se tornaram parte dessa linha tecida e semeada por meio do algodão agroecológico e orgânico.


“O que mais me atrai nos produtos de algodão orgânico é justamente os benefícios que ele traz relacionados à sustentabilidade, para a saúde humana, para o meio ambiente… O conforto dos produtos feitos por fibras de algodão natural. [...] E tudo isso está dentro do conceito de sustentabilidade.” - Nair Castro, Chefe-Geral da Embrapa Algodão e consumidora desses produtos

Uma linha de produção que se distribui em diversas marcas, entre elas, a da pioneira em sua arte conciliadora do ancestral ao moderno: Flávia Aranha. Um nome que carrega um título e estilo de renome pelas suas roupagens focadas em moda sustentável, artesanal e atemporal.


Conversando diretamente com o algodão cultivado no Assentamento Queimadas - onde recolhe matéria-prima - em termos de características de criação da artista, que abrange totalmente o uso único de algodão produzido com manejo sustentável e tingimento natural, com exigências até mesmo no processo artesanal e humano.


O resultado em ambas as estéticas - ancestral e moderna - é exuberante em termos criativos. Os detalhes dessas escolhas resultam em uma modelagem com cores e texturas que transmitem os tons de uma cultura que se mantém viva e pulsante, uma compreensão mútua que é percebida em cada respiro de seus cidadãos, assim como, em cada pequeno bordado feito á mão em suas roupas e artigos, como se nelas tivessem sido costuradas linha por linha a identidade que se movimenta naquela região.


São peças de uma moda brasileira que permanecerão junto de sua cultura, um Slow Fashion como uma nova tendência, que vai de encontro com a moda sustentável e visa diminuir o impacto da produção massiva de roupas no meio ambiente, a fast fashion.


Por último, apesar de ainda ser considerado um mercado de luxo, essa sustentabilidade é perpassada também através dos comerciantes, como é o caso de Seracilda Silva e Diago Marenilson, que juntos mantém uma loja de roupas em Remígio, a SD Moda Sustentável. Lá eles vendem os mais diversos artigos provindos do algodão agroecológico, e que por meio de vídeos comunicativos, participação em eventos e durante a venda de peças com amostras e imagens, tentam, em termos de moda sustentável, explicar como o funcionamento dessa produção exerce seu grande valor sob cada parte do seu ciclo produtivo.


“Eu tenho vários produtos que consumo: roupas, vestidos, blusas, calças, jaquetas, tudo de algodão naturalmente colorido. Por quê? Porque além de valorizar o trabalho dessas empresas com um produto, com uma fibra têxtil natural e que é naturalmente colorida, nós estamos também valorizando um trabalho de pesquisa", argumenta Nair Castro da Embrapa.

Desde os cidadãos e suas roupagens, ao meio ambiente cultivado com sustentabilidade, aos agricultores e seu sustento familiar, o algodão e sua moda cultivam no presente, semente por semente, um futuro melhor.


Confira imagens do desfile de moda sustentável realizado no X Festival de Cultura Agroecológica de Remígio em outubro de 2025:


Expediente

Fotografia, reportagem e revisão final: Evelyn Gomes, Manuel Duarte e Nilo Segundo

Produção: Manuel Duarte

Texto: Evelyn Gomes

Orientação e supervisão: Débora Marx

Supervisão editorial (Coletivo F8): Rostand Melo

Obs: Produção realizada durante as atividades da disciplina "Jornalismo de Moda".

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