Ballroom: Cultura, Resistência e Identidade em Movimento
- coletivof8noite
- 27 de jun.
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QUAL ORIGEM DA BALLROOM?
A cultura ballroom originou-se nas periferias urbanas e comunidades marginalizadas de Nova Iorque, como o bairro Harlem, a partir de vivências da comunidade LGBTQIA+, historicamente marginalizada. A cultura teve início nos anos de 1970, pela Drag Queen, mulher trans negra e ativista cultural, Crystal LaBeija, após se revoltar contra a organização de um concurso do qual participava. A atitude de protesto alegava manipulação contra drag queens e pessoas trans que não se enquadravam em padrões de beleza brancos e europeus, ou seja, queens negras e travestis latinas.
A partir desse episódio, diante o silenciamento de corpos negros e com a repulsa de participar de outros eventos, por sentir que eram desfavorecidas nessas competições, Crystal LaBeija, deu início a um novo legado e junto a Lottie LaBeija, outra drag queen negra, fundaram a "House Of LaBeija" dando início as suas próprias competições, assim, nascendo as famosas balls.

MAS O QUE É A BALLROOM?
A cultura Ballroom é um movimento cultural e social que por meio da dança, da performance e da estética, celebra e expressa sua resistência na sociedade. As "balls" como são chamadas, são competições próprias que reúnem e se dividem em diversas categorias como as estéticas: face, realness, fashion killar, bizarre, body e categorias performáticas, como a hands performance, sendo a Vogue, uma das principais, que se divide em 3 danças: o Old Way, a velha forma, como as pessoas dançavam antigamente onde são priorizadas as linhas e a geometria; o New Way, a nova forma, onde tem muita elasticidade, e por último o Vogue Femme, que seria o vogue dançado pelas travestis no qual deve haver muita feminilidade.
A Ballroom é dividida em casas que são chamadas de houses, onde cada uma possui mothers, fathers, princess, prince, isto é, cada uma tem seus pais e suas filhas, formando assim, uma grande família que se ajuda e na qual se pode confiar. Às mothers e fathers geralmente são pessoas que já estão na cena há bastante tempo e apadrinham as pessoas que estão chegando. Aqueles que não tem uma casa são chamados de 007.
Outros termos utilizados nas balls são o LSS, Roll Call, Legendary, Star e Statements em que as pessoas que fomentam aquela cena são celebradas ao desfilar rapidamente, afirmando seu impacto, trajetória, reconhecimento, união e força da house. Nas categorias, existem os tens e os chops. Ten é quem recebe a nota 10 de toda a mesa de jurados, avançando para as battles, que são as batalhas. Quem recebe chop não atende aos critérios dos jurados e é eliminado.
Para Wellington Camelo, Well 007, participante da cena, o vogue não se trata apenas de uma dança e vai além dos movimentos característicos, como o dip:
“O vogue não é apenas uma dança, é entender que isso é uma arma de resistência e sobrevivência trans, é entender que o dip é continuar um legado de pessoas trans que, infelizmente, já faleceram, mas deixaram um legado adiante.”

ASCENSÃO DA CULTURA EM CAMPINA GRANDE
Em Campina Grande, foi em 2023, mais precisamente com a primeira edição da "Viva Ball", que a cultura Ballroom surge a partir da iniciativa das pessoas da comunidade LGBTQIA+ e principalmente por quem já fomentava a cultura na cidade de João Pessoa (PB).
Jay Dantas é uma das pioneiras do movimento em Campina e atualmente é princess da House of Imperio. Ela relata como foi o processo de organização coletiva na cidade e ainda conta sobre as conquistas como construção que foi se configurando ao longo do tempo:
"Em maio de 2023 eu me mudo de João Pessoa para Campina Grande e fundo um coletivo chamado @cgtemkunt, que é um coletivo de fomento e organização da cultura em Campina Grande. A gente começa a fazer treinos toda semana, treinos de Vogue, de running. A gente começa a fazer oficinas com referências, e em setembro a gente faz a primeira Ball desse coletivo, o "Tem Kunt Kick-Ball." Ainda em maio de 2023, a gente se organiza em um coletivo mesmo para de fato desenvolver a cultura na cidade, para que a cultura Ballroom estivesse presente em diversos lugares da cidade e na vida das pessoas. Para que as pessoas trans e LGBTQIA+ de Campina Grande tivessem uma alternativa a esse tipo de cultura."

A Ballroom não é apenas mais uma cultura ou só mais um tipo de dança, é um ambiente que possibilita com que as pessoas, principalmente a juventude LGBTQIAPN+, se reconheçam, se permita, e ousem se projetar como queiram, através da produção têxtil, estética, categorias de danças e visuais, artes que contemplam o coletivo, fazendo se reconhecer enquanto artista, profissional e enquanto comunidade.
Ayana Victoria, da House Of Império, dividiu um pouco do sentimento enquanto integrante da cena: "pra mim, é muito mais que só um baile, é onde me encontrei, encontrei minha família e minhas irmãs. Sem elas eu não sei o que seria de mim, a império me ensinou tudo, é minha ballroom e a ballroom é meu império. É onde posso me expressar e ser eu mesma, como mulher, travesti, preta, dançarina, bonita. É onde sou aplaudida, onde corpos trans são o destaque. Ballroom vai muito além de baile, batalhas e troféus, é família e comunidade."

DIFICULDADES ENFRENTADAS PELA CENA NA CIDADE
Mesmo alcançando visibilidade e estrutura, a Ballroom em Campina Grande, ainda enfrenta algumas dificuldades. Um dos seus principais desafios é a falta de espaços fixos para os ensaios e bailes, por vezes os eventos acontecem de forma improvisada ou dependem da disponibilidade de locais abertos, o que dificulta a continuidade dos ensaios e projetos.
Outro ponto a se destacar é a falta de recursos para as integrantes da comunidade. Mesmo ocorrendo uma grande produção artística, rica em detalhes, onde exige muita dedicação, grande parte dos integrantes envolvidos não conseguem se sustentar apenas com as apresentações da Ballroom, isso mostra como a cultura ainda precisa de seu reconhecimento e de investimentos de pessoas que apoiem essas iniciativas.

Apesar das dificuldades, a cultura segue crescendo por meio do que a própria comunidade chama de “hackear os espaços”, ou seja, usar lugares que antes não eram pensados para a ballroom. Dessa forma, começou a se inserir em eventos importantes da cidade, como festivais e outros pontos culturais, além de conquistar espaço institucional, como a participação no Conselho Municipal de Políticas Culturais de Campina Grande. Essa inserção também foi fortalecida pela divulgação nas redes sociais e pelos encontros da comunidade.
A IMPORTÂNCIA DA MODA NO MOVIMENTO

Peça chave do ato político e de resistência, as roupas usadas não são apenas um acessório, são uma armadura. É através das vestimentas que conseguem entregar suas identidades que a sociedade lhes negou por tanto tempo. As “houses” transformaram o ato de se vestir em uma linguagem de poder, pertencimento e sobrevivência, “Dentro da ballroom temos a possibilidade de viver uma "realness" (realidade) que muitas das vezes não podemos viver no dia a dia, posso ser a maior distopia, ou até mesmo uma simples realidade do dia a dia, a moda e estética não tem limites, você apenas é, sem medo”, Afirma Jordana Araujo, integrante da casa da baixa costura.
O Ballrom é mestre da customização, criando looks com materiais baratos, muita costura manual e criatividade, usando as coisas que atravessam o dia a dia para confeccionar uma peça, pois não é apenas uma roupa, é uma expressão do que se sente e do que representa.
Confira mais fotos no slideshow:
EXPEDIENTE
Fotografia: Derik Lima, Emilly Lima e Karoline Rodrigues
Entrevistas: Derik Lima, Emilly Lima e Karoline Rodrigues
Reportagem e texto: Derik Lima, Emilly Lima e Karoline Rodrigues
Monitoria: Letícia Falcão
Supervisão editorial: Rostand Melo e Ada Guedes
























Perfeito!!
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