Artur Lira: o jornalismo como vocação, responsabilidade e missão social
- Coletivo F8

- há 46 minutos
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Jornalista por vocação e propósito, Artur Lira se identificou com a comunicação ainda na adolescência. Foi no ensino médio que, ao participar de uma pequena emissora de rádio escolar, percebeu sua desenvoltura e satisfação ao transmitir informação para as pessoas.
Formado em Jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba, construiu sua trajetória movido pela curiosidade, pela disposição para aprender e, sobretudo, pela crença no papel social da profissão. Para ele, o jornalismo vai além do trabalho diário: é missão, responsabilidade e, muitas vezes, um verdadeiro sacerdócio a serviço da sociedade.
Ao longo de mais de uma década de atuação, Artur passou por diferentes plataformas: do rádio ao impresso, do digital à televisão. Acumulando assim experiências que moldaram sua visão crítica e ética sobre a profissão. Repórter de rua, habituado a longas jornadas, madrugadas e deslocamentos, ele defende um jornalismo humano, criterioso e comprometido com a verdade.
Em meio aos desafios impostos pelas redes sociais, pela era da pós-verdade, desinformação e pelo avanço da tecnologia, Artur reafirma o jornalista como peça essencial na mediação da informação, atividade capaz de apurar, contextualizar e dar sentido aos fatos em um mundo cada vez mais acelerado e conectado.
Confira a entrevista completa com o Artur Lira, repórter da TV Paraíba, afiliada da Rede Globo em Campina Grande.

Quem é o jornalista Artur Lira? Como você se descreve hoje?
Como um menino que sonhou com a profissão quando ainda estava na escola. Lembro que no ensino médio, lá na escola Premen, no bairro do Catolé, eles criaram uma rádio para o intervalo e ofereceram para os alunos. Nessa época, eu gostava muito de ouvir rádio e fazia, por brincadeira, nos intervalos, aqueles 15 minutos, uma playlist de músicas, já com o cuidado de tentar passar as informações da diretoria e orientações da escola. Isso me despertou um interesse. Tive dúvidas se faria jornalismo ou geografia.
Uma vizinha minha disse: “faça o curso para a profissão que você acredita que, quando acordar para trabalhar, vai se sentir mais empolgado”. Como eu gostava muito de rádio, eu me vi fazendo isso.
Me formei em jornalismo e hoje vejo a profissão como uma vocação, às vezes até como um sacerdócio. O que mais me encanta é a missão social que o jornalismo tem, de ser esse canal de relevância para a sociedade, levando informações que impactam e transformam vidas.
Se você pudesse resumir sua trajetória em etapas, por exemplo, fases de Artur Lira, como dividiria?
Comecei a ter experiências de estágio praticamente no primeiro semestre. Fui chamado para fazer parte de um projeto de um portal chamado PBJAR. Eu estava no início do curso, era tudo muito desafiador, mas fui para o portal. Depois, fui convidado para fazer parte de uma equipe da assessoria da CDL de Campina Grande, onde passei poucos meses. No segundo ano de curso, eu queria muito trabalhar na Campina FM, fiz a seleção, fiquei em segundo lugar, mas surgiu uma vaga na afiliada Serra Branca FM e eu disse que queria, mesmo sem saber onde ficava. Com 18 anos, saí da casa dos meus pais e fui morar em Serra Branca por causa de um estágio. Financeiramente não era fácil, eu praticamente pagava para trabalhar, mas sabia que ali estava tendo, muito cedo, uma oportunidade. Eu participava de todo o processo de produção, edição e apresentadova. Foi desgastante morar longe da família, ir e voltar para assistir às aulas da universidade, mas essa foi a primeira fase em que a vida me colocou à prova. Depois fiz uma seleção para o Jornal da Paraíba, esse foi o segundo grande momento, passei dois anos de estágio no jornal impresso, foi a minha grande escola, aprendi a ir a fundo nos fatos, a conduzir uma reportagem e tive a oportunidade de emplacar várias manchetes. Quando terminei essa etapa, fui para o JP On-line e fiz parte da primeira turma do portal Jornal da Paraíba. O terceiro momento foi quando fui contratado para o G1 e, do G1, para a televisão. Eu considero esses três momentos: Serra Branca FM, o início; Jornal da Paraíba, minha grande escola; e a TV Paraíba. Também tive uma passagem rápida pela assessoria do Treze, um clube do coração.

Existe alguma reportagem ou cobertura que você considera um marco na sua carreira?
Tem várias. Em 2023, eu fiz uma matéria dos 40 anos do Maior São João do Mundo, uma reportagem bem longa, um resgate do que era Campina Grande antes desse nome. Entrevistei pessoas fundamentais, fui atrás de arquivos da TV, é uma matéria que eu tenho muito orgulho, quase um documentário, com esse cuidado de preservar a história para o futuro. Mas, a que mais me marcou foi uma matéria que eu tive que fazer com muita agilidade e pouquíssimos recursos, sobre uma pessoa presa injustamente no Rio de Janeiro. Era um rapaz que trabalhava como vigilante, tinha parte da família na Paraíba e um irmão envolvido com tráfico de drogas. Esse irmão usou os documentos dele quando foi preso, sujou o nome dele na justiça e, numa Semana Santa, ele foi parado pela PRF e constava um mandado de prisão, mesmo sem ele ter feito nada. A família entrou em contato com a gente, desesperada, porque uma pessoa inocente estava presa. Recebi a informação à tarde, passei a noite toda lendo o processo, pedindo ajuda a amigos advogados e no outro dia fui para o campo. Foi muito mais o ser humano ali do que o repórter, eu liguei para Ministério Público, Polícia e até para um juiz que tinha assinado o mandado. Um juiz extremamente sensível entendeu a situação. Em 24 horas, eu consegui levantar o máximo de informações e, antes mesmo da reportagem sair, já tinha um alvará de soltura. Naquele dia, não foi o que eu consegui fazer, foi a força do jornalismo. O jornalismo que apura, que entende o erro, que mostra a injustiça e faz com que ela seja corrigida.
Na sua avaliação, quais os maiores desafios do jornalismo atualmente, diante das redes sociais e da falta de regulamentação profissional?
Um momento triste foi quando o Jornal da Paraíba fechou, porque era um exemplo de jornal impresso, foi um impacto. Hoje, um desafio é que desde 2009 não tem mais a obrigatoriedade do diploma e, com a chegada das redes sociais qualquer pessoa acorda, pega um celular, um microfone e sai dizendo que é repórter. Não é sobre a iniciativa da pessoa, porque muitas estão procurando um meio de sobreviver, e esse lado humano eu consigo enxergar. O que me preocupa, como jornalista, é como esse processo é feito, como a informação é apurada e compartilhada. Tem gente que usa essa ferramenta para fazer comunicação, mas tem gente que usa para extorquir, ameaçar e espalhar fake news em troca de dinheiro. Isso é perigoso para a sociedade e muito ruim para a categoria. Esse, para mim, é o grande desafio hoje: lidar com essa concorrência descontrolada, sem origem clara, sem finalidade definida, muitas vezes escondida atrás do discurso de liberdade de expressão. Esse momento que a gente está vivendo, em que ninguém sabe quem é jornalista, quem é blogueiro, influenciador digital. Pessoas se vestem dessa capa de imprensa, mas não faz jornalismo.
Não é sobre liberdade de expressão, é sobre apropriação de uma profissão regulamentada, com deveres, obrigações e um código de ética a ser seguido.

Já enfrentou desafios nesse sentido? Ao exercer o jornalismo em espaços públicos e ao defender seus direitos profissionais?
Houve um caso específico, em que fomos procurados pela família de pessoas que participaram de um mutirão oftalmológico. Algumas pessoas vinham de um tratamento exitoso e, de repente, começaram a ter problemas, deixando de enxergar e sentindo muita dor. A informação chegou pra gente depois do JPB 1 e a gente foi pra rua apurar e questionar a Secretaria Estadual, que disse que isso não estava acontecendo e classificou como notícia falsa. Diante disso, a decisão foi colocar a família para falar. Quando o caso veio à tona na imprensa, o poder público se aproximou do problema. No dia seguinte, ao dar continuidade à reportagem, fomos impedidos de entrar num hospital público, mesmo estando em um estacionamento aberto ao público. Eu disse que não ia sair, porque sabia que era meu direito, mesmo diante de fiscais e vigilante armado. Minha linha de jornalismo não é atacar a instituição, é me preocupar com a população. Foi um momento em que eu transbordei no ar, porque é muito ruim fazer um trabalho criterioso e ser acusado de fazer fake news. Eu não briguei, não pulei muro, não usei violência e meu trabalho foi impedido. Eu quis deixar registrado que fui impedido de trabalhar em um ambiente público.
O que mais pesa no dia a dia? A pressão do tempo, a falta de infraestrutura ou os obstáculos externos?
Cada vez mais a gente tem usado muita tecnologia para facilitar, inclusive, o sinal ao vivo. O desafio é o mesmo de sempre: apurar o máximo de informações no menor espaço de tempo, informações verdadeiras. Um desafio é o fato de a informação já está sendo fotografada, filmada e colocada na rede social e as vezes são informações corretas, mas as vezes é o disse-me-disse. O jornalista tem que correr para apurar, levar isso para a TV no menor espaço de tempo. Às vezes a testemunha está em live e a informação já está no ar, enquanto o jornalista ainda está saindo da redação para ir ao local.

Por que o jornalismo profissional é diferente do conteúdo feito nas redes sociais?
Na internet, todo mundo fala o que quer, inventa como quer, e nem sempre alguém responde por isso. O jornalista é quem vai chegar e ser cirúrgico na informação. Eu nunca produzi fake news porque como jornalista, com DRT, se eu produzir uma notícia falsa, eu respondo judicialmente.
O jornalista tem responsabilidade, tem medo de processo, trabalha com evidências. Não é porque a pessoa tem um celular e uma câmera na mão que vai saber informar. Para informar, você vai precisar de técnica, de senso crítico e ética.
Que conselho você daria para quem quer seguir a carreira no jornalismo hoje?
Jornalismo não é o aparecer no Instagram ou na TV. É preciso entender qual é a missão do jornalista, qual é a função, qual é o papel. Se você se identifica com isso, é arregaçar as mangas e ir.
Hoje existe um lado bom dessa praticidade: você pode fazer o seu portal, a sua página e começar a fazer reportagem sem depender de um emprego. Antigamente, era preciso computador, gráfica e jornal impresso; hoje a larga escala está na palma da mão. Então, o conselho é: mergulhe na sua profissão, mas não esqueça a ética e a essência da profissão.

E o que diria para nós estudantes que sonham em ser repórteres de rua, mas tem medo dos obstáculos?
É um equilíbrio entre coragem e prudência. Você vai ter que ter coragem para enfrentar, mas, em outros momentos, vai precisar ser prudente pela sua segurança. Eu sempre atento para isso, onde dá para avançar, é a hora da coragem, mas onde é preciso se proteger, busco ter prudência.
Quais são seus projetos ou sonhos dentro do jornalismo?
Não tenho hora nem lugar para ser jornalista. Quando tem reportagem no sertão, eu vou; se é necessário entrar às três da manhã, eu estou lá; se preciso virar uma madrugada, eu vou.
Mas eu penso muito no meu projeto pessoal de família. Ainda não tenho filhos, meu plano para os próximos anos é ter filhos e eu vejo que essa intensidade do jornalismo não casa muito com o tipo de pai que eu quero ser. Meu plano a médio prazo é conseguir, dentro da profissão, funções ou atividades que tenham um melhor controle do tempo, com uma vida mais organizada. Hoje aproveito essa possibilidade de ir a qualquer hora e a qualquer lugar, porque eu amo isso. Semana passada, por exemplo, saí daqui às três horas da manhã para fazer uma entrada ao vivo para o Bom Dia Brasil, viajando feliz. Mas sei que, no futuro, quando eu for pai, minha cabeça vai estar em outro lugar. O jornalismo é a profissão que eu pretendo ter para a vida, mas mais pra frente ela vai ter que se encaixar um pouco com a minha vida pessoal.

Então, você tem interesse em outras áreas?
Tenho e já estou migrando um pouco para a área de tecnologia, tenho um trabalho de assessoria na área. Estou me programando para fazer mestrado e doutorado na área de tecnologia e inovação, mas ainda assim no âmbito do jornalismo. Também penso em juntar esse lado humano do jornalista que conheci de perto com a psicologia. Tenho feito terapia há quatro anos e me apaixonei pela logoterapia. Comecei a fazer terapia na pandemia, por causa da situação que eu estava enfrentando como jornalista. Passou a pandemia, aquele momento tenso se resolveu, e eu continuei usando esse processo para resolver outras coisas na minha vida. Eu continuo esse processo como um guia na minha vida e isso está me fazendo despertar interesse por fazer psicologia.
Na sua opinião, qual será o papel do jornalista diante do avanço da tecnologia e da inteligência artificial?
Eu acho que tudo seguirá mudando. Diziam que o jornal impresso ia acabar, em alguns lugares acabou e em outros continua. Diziam que o rádio ia acabar e o rádio continua forte. O podcast é como uma rádio filmada, e diziam que a internet ia acabar com a televisão, mas a televisão continua tendo força todos os dias. Essas mudanças sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. Mesmo assim, o jornalista vai continuar sendo a luz quando o assunto é informação. Com o uso da inteligência artificial, o grande desafio não vai ser apenas produzir texto ou entrar no ar, mas se tornar um especialista em informação, saber se aquilo é verdade ou mentira. Com tanta tecnologia, com vídeos, fotos e textos cada vez mais perfeitos, alguém vai precisar dizer o que é verdadeiro ou falso e eu acredito que vai ser o jornalista, como sempre foi.

Então para finalizar que mensagem você gostaria de deixar para mós, jornalistas?
Para o estudante, o conselho que eu sempre dou é: não ache que a oportunidade vai bater na sua sala de aula e lhe pegar pela mão. Se o estudante não for atrás, não for proativo, ele vai ser envolvido por uma multidão que nunca pisou numa universidade, mas teve a coragem de pegar um celular e um microfone e ir lá fazer. Tem que ir atrás, porque até quem não é estudante está indo e aproveitando o que hoje é permitido. Isso não é uma coisa boa, tá? Isso não é uma virtude, isso é uma realidade. Chegue, vá lá e faça com ética e conhecimento. Estudante não tem que ficar esperando, vá lá e procure seu lugar também.
Expediente
Reportagem e fotografia: Maria Eduarda Melo Nogueira Rodrigues e Maria Eduarda Cardoso
Edição: Maria Eduarda Melo Nogueira Rodrigues
Produção: Maria Eduarda Melo Nogueira Rodrigues e Ramadhezza e Maria Eduarda Cardoso
Supervisão Editorial: Rostand Melo e Ada Guedes


















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