Fazer Cinema Paraibano, Democrático e Inclusivo: um ideal de Haniel Lucena
- Coletivo F8

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De Campina Grande à UFRB, e dos grandes sets de "Cangaço Novo" ao cinema itinerante, o cineasta celebra a redescoberta de suas raízes e luta para democratizar a sétima arte, enxergando na cultura uma força motriz de transformação social
Por: Mayrla Silva
Haniel Lucena, natural de Campina Grande (PB), carrega consigo a energia de um Nordeste que se move e se reinventa na sétima arte. Sua identificação com o audiovisual começou cedo, com o fascínio pelas fitas VHS e pelos rituais das antigas locadoras. As sessões de cinema em casa junto da família, o levaram a indagar, ainda na infância: "como é que se faz isso?". A curiosidade pueril foi o embrião de uma carreira que vem se desenvolvendo de maneira sólida, mas que seguiu um roteiro inesperado.
Embora sonhasse em estudar cinema em Recife, Pernambuco, atraído pelas políticas públicas do estado, Lucena viu seus planos mudarem radicalmente. Sem parentes na região, ele migrou para o Recôncavo da Bahia, tornando-se o segundo paraibano a se graduar em cinema pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira.
"Foi uma vivência muito interessante por ser uma experiência muito diferente de todas que eu tinha passado na minha vida. É uma outra cultura que mesmo sendo tão próxima da gente ainda é tão distante,"
Relata sobre a intensidade do período.
Lá, descobriu sua vocação para o roteiro, área que, ironicamente, lhe causava receio antes de sua formação. Essa aptidão o levou a grandes produções, como a série “Cangaço Novo", na qual estagiou ainda durante a graduação, conciliando a jornada diária de 12 horas das gravações em Campina Grande com o ensino híbrido da faculdade no período da Pandemia. Lucena trabalhou em filmes e séries com profissionais de diversos estados, muitas vezes em produções sudestinas, mas, é no presente que ele encontra sua maior satisfação:
“estou conseguindo realizar um movimento de fazer filmes com as pessoas daqui e isso está sendo bem interessante para mim."

A visão artística de Haniel Lucena é profundamente moldada por sua origem e por uma vasta cultura visual. Ele bebe na fonte do teatro, cita o Teatro de Brecht por brincar com a relação entre espectador e obra, e se diz fascinado pelo Expressionismo Alemão e a montagem russa de Eisenstein. Mas sua maior referência brasileira é o movimento Manguebeat, de Recife, que descreve como um marco cultural pulsante, juntamente com o trabalho de cineastas como Cláudio Assis e Kleber Mendonça.
Em seus trabalhos, ele busca explorar um recorte historiográfico marcante: o tema da terra.
“Gosto muito de trabalhar com a ideia de terra, de posse, conflitos através da terra".
A motivação para focar nesse tema é a persistência do coronelismo e a exploração de mão de obra no interior do Agreste paraibano. Seu curta "Desconserto", que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor Estreante, na Mostra Sesc Kinoforum, é um exemplo sensível desse olhar, ao narrar o trauma familiar causado por um conflito agrário real.
Haniel não se limita ao set como assistente de direção ou roteirista, sua atuação se expande para o campo da educação, onde se vê como um agente cultural com a missão de multiplicar o saber. Enxerga nas oficinas e no cinema itinerante a chave para combater a desigualdade de acesso ao cinema, especialmente em regiões do interior, onde assistir a um filme exige um grande deslocamento.
"A gente precisa levar o cinema para as pessoas"
Afirma.
Ao analisar a indústria, menciona questões e desafios urgentes. O primeiro é o fomento financeiro contínuo através de políticas públicas, para que os talentos paraibanos, ancorados por quem fez escola como Zezita Matos e Buda Lira, não precisem migrar em busca de oportunidades. Só assim é possível manter a economia criativa local circulando. O segundo é um compromisso ético: garantir a equidade de gênero e raça nas produções, reservando vagas e posições de liderança para mulheres e minorias, atuando na inclusão em lugares até então ocupados majoritariamente por homens brancos.
Para fortalecer esse compromisso, Haniel lança a produtora Carcará Filmes e através dela foca em materializar seu ideal de um "ecossistema de produção horizontal", pautado na equidade e no fomento do cinema como ferramenta de transformação. Seu olhar para o futuro é otimista e vê o audiovisual paraibano em uma "curva crescente", e almeja conquistar visibilidade em festivais como Gramado e Brasília.
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Apesar da experiência predominante com drama e ficção, após trabalhar numa produção infantojuvenil, passou a nutrir o desejo de se aventurar em novos gêneros, especialmente, o terror psicológico.
"O terror vai muito além do que essa ferramenta [do jumpscare], vai muito além disso, né?"
Comenta, ao compartilhar seu interesse em construir atmosferas e efeitos que gerem reflexão no espectador.
Seu sonho, contudo, é palpável e local: ser o assistente de direção em um longa-metragem cem por cento daqui, trabalhando com um diretor ou diretora da Paraíba. Esse desejo espelha a mensagem que ele deixa para as novas gerações:
"Não desista do seu sonho, seja curioso e saiba que o erro faz parte do nosso trabalho. Respeite o tempo natural das coisas. A ideia é nos fortalecer enquanto grupo, nos entender enquanto indivíduos, procurar meios de produção mais acessíveis e até mesmo gratuitos através de leis de incentivo. É preciso ser um grande curioso, apreciador da vida e das possibilidades. Se possibilite experimentar e errar, só assim é possível acertar."
EXPEDIENTE
fotografia: Allê Leão, Letícia Silva, Liz Barros, Mayrla Silva e Yasmin Thamires.
Entrevista: Letícia Silva.
Redação: Mayrla Silva.
Produção: Mayrla Silva, Liz Barros, Allê Leão.
Revisão: Yasmin Thamires.
Supervisão editorial: Rostand Melo e Ada Guedes.










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