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  • Ana Kamylle

Gonzalo: um argentino na vanguarda contra a repressão e a guerra


Professor Gonzalo Rojas, homem branco, careca, usando óculos de grau e camisa social cinza. Gonzalo está no hall das placas na UFCG, olhando para o lado esquerdo da foto e sorrindo
Foto: Ana Kamylle

Entre livros, estudos e mudanças, o professor Gonzalo Rojas brilhou em sua trajetória, com um olhar crítico e uma mente revolucionária, sempre à frente de seu tempo, ele se destacou em sua vida acadêmica, com visão política bem definida e estudos direcionados a essa área. Gonzalo, concluiu seus estudos em Buenos Aires e atualmente atua como professor de Ciências Políticas na Universidade Federal de Campina Grande - UFCG.



Professor Gonzalo Rojas, homem branco, careca, usando óculos de grau e camisa social cinza. Ele está  ao lado do hall das placas, com o sol em seu rosto, olhando para o lado direito da foto e sorrindo
Foto: Rafaella Arruda

Nascido em 1969 na cidade de Rosário, teve uma infância marcada por mudanças. Em 1975, sua família se mudou para Buenos Aires devido ao trabalho de seu pai, um arquiteto. Foi na capital argentina que ele começou sua jornada escolar. Com apenas seis anos de idade, testemunhou em 24 de março de 1976: o golpe militar na Argentina. Embora as nuances da situação passassem despercebidas para uma criança, o momento foi profundamente marcante.


Assistiu a tudo isto numa televisão em preto e branco, experiência extremamente memorável para ele. Afinal, Gonzalo estava em Buenos Aires naquele mesmo dia, no epicentro de uma das mudanças mais drásticas da história da América Latina. A junta militar derrubava Isabela Perón e instaurava uma repressão brutal aos direitos humanos e liberdades individuais. Durante esse período sombrio, o país de 25 milhões de habitantes testemunhou o desaparecimento de mais de 30 mil pessoas.


“Para uma criança não era uma coisa tão diferente, eu me lembro de assistir tudo na TV em 1976. Era uma criança, mas me lembro de tudo. A TV era em preto e branco, porém me recordo bem. Lembro também de uma visita do prefeito da Ditadura de Buenos Aires, que visitou minha escola na época. Mas, veja, para uma criança não tinha tanta diferença, como tinha para meus familiares e os demais"

Mais tarde, na década de 1980, Gonzalo acompanharia o julgamento dos militares através das páginas do jornal "El Diario Del Juicio", publicação criada especificamente para a cobertura das audiências dos julgamentos dos integrantes das juntas militares da ditatura argentina. Ao todo, foram publicadas 36 edições do jornal, no período de maio de 1985 a janeira de 1986. Algumas dessas edições históricas são preservadas até por Gonzalo, como documentos históricos que comprovam os horrores da ditadura e servem de alerta para que os povos da América Latina não permitam que regimes totalitários voltem ao poder na região.


Mão de Gonzalo passando a capa do jornal argentino da época "El Diario del Juicio". A capa traz fotos de militares argentinos sendo julgados com a manchete "A ACUSAÇÃO"
Gonzalo folheia edições de "El Diario del Juicio", publicação criada para divulgar os julgamentos dos militares após a queda da ditadura argentina. Foto: Ana Kamylle

Ele recorda que a verdadeira face da ditadura argentina começou a afetá-lo profundamente durante o segundo ano do ensino médio. A repressão nesse período era verdadeiramente insuportável e isso teve um impacto significativo em sua vida. Na Argentina, era comum as pessoas terem cabelos compridos, mas no colégio, essa prática era estritamente proibida, resultando na negação de acesso à instituição de ensino. O simples ato de manter esse estilo de cabelo acarretava faltas, e com apenas cinco faltas, um aluno poderia ser reprovado. No entanto, ele reconhece que, comparado com as atrocidades que ocorriam na Argentina, suas experiências eram triviais.


“Se você tinha o cabelo dois dedos abaixo do pescoço, eles já te davam falta, com 5 faltas, você tinha que fazer provas no final do ano, para não ser reprovado. Mas o que acontecia com a gente não era nada se comparado ao que acontecia ao resto da Argentina. Era bobagem, mas tinha a ver com as liberdades democráticas, e tinha a ver com a raiva que chegava contra a ditadura, era um ambiente repressivo que já não se suportava mais. E a juventude se mostrava bem anti repressiva.”

Foram esses episódios que levaram ele e seus colegas a desenvolver um profundo senso de resistência contra a repressão, abraçando fervorosamente a causa dos direitos humanos.



Gonzalo foleando o jornal "El Diario del Juicio" na sala de aula
Foto: Rafaella Arruda

“Tem um seriado, sobre Fito Paz, um importante músico argentino que mostra bem esse cansaço da juventude contra o exército e contra a polícia, entende?”

O professor destaca que o ápice da repressão ocorreu durante a Guerra das Malvinas em 1982. Quando se encontra em um país em guerra, é impossível fazer críticas abertamente a esse conflito. No entanto, havia um profundo descontentamento tanto entre a sociedade em geral quanto entre os jovens. Foi este descontentamento que criou a possibilidade de julgar os militares na Argentina.


“Quando seu país está em guerra, você não pode ser contra a guerra, caso seja, você não estará apenas sendo contra a guerra, mas contra o seu país, porém, essa obrigação uniu a sociedade e a juventude contra a ideia nacionalista e fez com que fosse possível julgar os militares depois


As mãos de Gonzalo estão sobre uma pasta que guarda edições antigas do jornal "El Diario del Juicio". A pasta é acinzentada com o nome do jornal em letras vermelhas abaixo do centro
Foto: Ana Kamylle

Movimento estudantil


Com o caos instaurado, os centros estudantis, embora clandestinos, ressurgiram, sendo uma presença palpável no cotidiano escolar. Eles produziam suas próprias publicações e jornais. Foi nesse momento que Gonzalo se engajou ativamente nesses centros estudantis, comprometendo-se profundamente com a luta pela liberdade e pelos direitos humanos, que se tornaram as principais bandeiras dos estudantes.


Nesse contexto, o movimento pelos Direitos Humanos ganhou força, com manifestações ocorrendo em todo o país, criticando a ditadura, que já estava em uma posição defensiva. Ele recorda que o movimento estudantil tinha suas próprias agendas, altamente politizadas, incluindo a luta por maior investimento nas escolas e a oposição às obrigatoriedades de uniformes e cabelos curtos.


Aprofundando um pouco nas organizações estudantis, Gonzalo conta que elas eram mais ou menos clandestinas, mas que ao longo do tempo o centro acadêmico começou a publicar uma revista. Ele conta que no ano de 1984 iniciou-se uma votação para escolha de delegados por cada turma. Gonzalo explica que foi no ensino médio que ele começou a se engajar nos movimentos estudantis e se envolver com organizações políticas contra a ditadura.



Gonzalo andando pelo hall das placas na UFCG
Foto: Ana Kamylle

"Quando entrei no movimento estudantil, comecei a me questionar, a fazer perguntas sobre o que realmente estava acontecendo. Foi o instante em que comecei a refletir sobre o quão errada estava aquela situação. E as coisas mais simples se tornaram uma forma de protesto contra a ditadura, como usar o cabelo comprido"

Havia uma união de diferentes correntes de pensamento, todos juntos contra a junta militar. Curiosamente, Gonzalo, atualmente um trotskista ferrenho, na época do colégio se considerava um liberal, embora reconhecesse que algo estava fundamentalmente errado com o sistema e ainda não possuísse a base teórica para compreender completamente esta dissonância.



Gonzalo andando pelo hall das placas na UFCG
Foto: Rafaella Arruda

“A história está sempre em aberto, porque existe luta de classes, mesmo na academia. Eu tenho confiança que a classe trabalhadora, com sua forma de organização, terá o processo revolucionário e vai mudar a história não só Argentina ou no Brasil, mas no mundo inteiro. Hoje acho que estou mais convencido, do que quando eu tinha 15 anos, da necessidade histórica de superar o capitalismo.”

Gonzalo enfatiza que o processo de se tornar um teórico marxista foi gradual e demorado. Desde os tempos da ditadura, ele já sentia que algo estava profundamente equivocado no sistema capitalista, que a verdadeira liberdade não poderia ser alcançada sob esse sistema.


No entanto, essa compreensão só se solidificou quando ele ingressou na faculdade de Ciências Políticas, uma escolha influenciada pelas experiências e lições aprendidas durante os tempos turbulentos em seu país. Com essa sólida base, Gonzalo mergulhou cada vez mais nos estudos, vindo posteriormente ao Brasil para cursar o doutorado na USP.


Após essa etapa, estabeleceu-se em Campina Grande, onde se tornou professor na UFCG. Até os dias atuais, persiste em sua luta para conscientizar as pessoas, incentivando-as a não apoiar sistemas repressivos como aqueles que testemunhou e enfrentou na Argentina.


Confira mais fotos no slideshow:


 

FICHA TÉCNICA:

Supervisão editorial: Ada Guedes e Rostand Melo

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