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"Falam de racismo estrutural, mas não param pra desconstrui-lo"

Pela primeira vez, autodeclarados pretos ou pardos passaram a representar mais da metade dos estudantes do ensino superior da rede pública, um percentual de 50,3%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No âmbito corporativo, por sua vez, o aumento permanece defasado. Nas empresas brasileiras, menos de 30% de cargos de liderança são ocupados por pessoas negras. O percentual é baixo e ainda sofreu queda, foi para 29,5%.


À vista disso, Priscila Silva, poetisa e coordenadora do Centro Acadêmico de História Eduardo Galeano (CAHEG), concordou em expor suas vivências enquanto mulher negra e periférica, a fim importar à ocupação de pessoas pretas na sociedade e a importância das ações sociais como estratégias de levante do movimento preto no Brasil.


Foto: Luanna Andrade

No ambiente em que você cresceu haviam projetos sociais para incentivo a ocupação de pessoas pretas nas universidades?


Não. Na minha família, principalmente, já que meu pai não chegou a terminar os estudos e a minha mãe terminou apenas o segundo ano. Os meus irmãos cresceram pensando em ter de trabalhar logo cedo, então a universidade era uma realidade muito distante [...] Quando eu estava no ensino médio até pensava se iria conseguir entrar na universidade. Não tinha essa questão das cotas, isso é uma coisa mais recente. Era bem mais difícil se ver enquanto estudante negro dentro da universidade.

E na escola, recebeu algum incentivo?


Não. Na época, o debate racial não permeava a gente. Tanto que demorou para me reconhecer como uma pessoa negra, porque não tínhamos debates sobre colorismo e negritude. Era uma realidade tão distante que quando comecei a ter contato, vi o quão grave é você não debater certas questões dentro do ensino médio, já que pode afetar nosso processo enquanto pessoa negra e racializada.

Foto: Julia Nunes

Por que história?


Quando saí do ensino médio, queria ingressar na universidade. Só que meu pai dizia que fazer um curso técnico que era melhor para conseguir emprego. Então, fiz informática no Redentorista, mas não era para mim. Terminei o curso técnico e comecei a fazer filosofia numa federal, mas não cheguei a terminar. [...] Sempre gostei de história. Eu me identificava muito com a matéria no ensino médio. Ai resolvi fazer história na UEPB. Acho que foi a melhor escolha que eu poderia ter feito. A história pulsa mais em mim e gosto do jeito que ela permeia meu contexto.

Você incorpora diversos projetos dentro da universidade e recentemente, tornou-se a presidenta do Centro Acadêmico de História. Como surgiu esse interesse?


Quando eu fazia filosofia, passava o dia trabalhando. Não tinha tanta vivência acadêmica dentro da universidade. Eu só assistia as aulas e ia para casa. Conhecia esse movimento estudantil, mas de longe. Quando cheguei aqui na UEPB, não estava mais trabalhando, então consegui me aproximar mais dessas questões sociais. Dessa forma, surgiu a proposta de ser a presidente geral e tomar a frente do corpo estudantil de história. Eu aceitei e estou lá até hoje.



Foto: Luanna Andrade

Como os estudos sobre África no curso te ajudaram a compreender melhor seu local de fala na sociedade?


Foi muito importante por que pude conhecer um pouco mais sobre meus ancestrais e me conectar com a minha história. Minha professora era negra e eu nunca tive uma professora negra na vida, isso trouxe um novo sentido para mim. Eu me via dentro da sala de aula, mas sentia um pouco de receio. Quando olhei para ela, consegui me ver dentro da sala de aula enquanto professora negra ensinando história da África. Tive alguns conflitos entre os meus colegas, devido a questão da falta de debate sobre negritude. Eu ficava muito irritada quando as pessoas falavam da escravidão como algo muito distante e pensava: "Você tá se entristecendo agora? Se deu conta agora?" [...] Inclusive as poesias que eu escrevo são todas voltadas para essa temática da negritude, da questão africana, das minhas ancestrais e nossos personagens históricos negros que estão fora dos livros.

Foto: Luana Rocha

O que você acha sobre o problema estrutural, no qual não permite que pessoas pretas ocupem seus locais de fala?

Acho muito triste. A sociedade vive a banalizar pessoas negras, não permitindo que ocupem todos os espaços e principalmente, os de poder. Você chega em locais, vê pessoas e a maioria delas são brancas e está tudo bem. Se você chegar em uma audiência, se espanta em ver um juiz negro ou um advogado negro, mas se tiver uma pessoa negra dos serviços gerais, está tudo bem. É muito complicado. A sociedade já coloca a gente nesse lugar de submissão, exclusão, segregação e quando se tem pessoas negras ocupando esse espaço de poder, elas são questionadas e subjugadas. As pessoas não querem dar o espaço que elas merecem, a voz que elas merecem. Falo pelo fato de que sou uma mulher negra, ocupando um espaço de poder dentro de um centro acadêmico. Ás vezes as pessoas querem passar por cima de mim, querem fingir que eu não existo e a minha voz não é forte, não é potente. Como se nós não pudéssemos falar nada pela gente que o pessoal já fala: “Não, não é assim”. [...] É um problema muito sério e a sociedade não pensa ou analisa porque está tudo muito naturalizado. As pessoas falam de racismo estrutural, mas ninguém para pra ler e desconstruir esse racismo. Quando a gente começa a fazer o debate, as pessoas falam: “Não, eu concordo”, mas o "concordar" fica só na teoria. Quando convidam uma pessoa para fazer tal coisa, não chamam uma pessoa negra. Chamam só para ter a representatividade, mas para ocupar aquele espaço, realmente, não.

Priscila, você também participa do projeto Pedregal que trabalha com crianças. Já se viu em alguma delas?


Já. Quando eu comecei a trabalhar com as crianças da comunidade — principalmente, as meninas negras — essa questão do autocuidado e estética, percebi a importância do cuidado e da conversa com as nossas crianças. Foi uma coisa que eu não tive e para mim, até hoje é muito difícil lidar com a autoestima e a questão do padrão de estética europeu, né? Que a gente tem que ter um padrão, ser magra, ter o nariz afilado e esconder nossos traços negroides, nosso cabelo... As crianças já crescem com isso enraizado e ela não entendem, principalmente, quando a criança é negra. O preterimento que a gente sofre fica escancarado. Se a gente não trabalha isso, as nossas crianças vão ser jovens e adultos adoecidos com a própria imagem de que elas não são bonitas e inteligentes o suficiente, porque a sociedade vai moldando isso nelas. Quando eu falo disso, lembro muito daquela música de Baco: "Autoestima". Ele diz que demorou vinte e cinco anos para se achar bonito, porque um homem negro dentro da sociedade nunca vai ser a primeira opção, imagina quando é criança. Os meninos na comunidade do Pedregal, na maioria são retintos. Eles não têm acesso à universidade e a escola, porque têm que trabalhar logo cedo. [...] No meu tempo, o pessoal não debatia e agora que a gente pode debater, as pessoas continuam negligenciando essas crianças. Foi o que me cativou a estar no projeto. O que eu não pude ter, eu consegui para elas. Que elas não cresçam tão adoecidas como a gente cresceu.

Foto: Andressa Medeiros


Você assina suas poesias com o pseudônimo 'Preta Intensa'. Qual a origem desse nome?


Quando eu comecei a recitar todo mundo tinha um vulgo, ai eu pensei: “Qual vai ser o meu vulgo?” Eu não sabia nem o que era vulgo. [RISOS] Mas eu sou muito intensa — sou geminiana — e na época, estava me descobrindo enquanto mulher negra, então queria deixar claro que eu era uma mulher negra, muito intensa e a sociedade que lutasse. O jeito que me expresso nas minhas poesias tornam o vulgo literal, pois representam minha intensidade, minha força. Principalmente, quando eu chego na poesia e digo que sou preterida, sofro racismo e passo pela solidão da mulher preta, ele me representa em todos os aspectos.

E quais são suas inspirações para escrita das poesias?


Geralmente, eu tenho inspiração quando estou triste. [RISOS] É porque eu sempre digo que a poesia me salvou, a arte me salvou. A arte chegou num momento em que estava passando por vários processos. Eu tenho ansiedade. Descobri antes da pandemia e não sabia como lidar com ela. A poesia foi uma maneira que encontrei de colocar esses sentimentos pra fora. Eu falo muito sobre a questão do racismo e de quando comecei a me descobrir. Quando eu comecei a olhar os lugares e ouvir o que as pessoas falavam. A poesia foi meu jeito de dizer: “Não, não aceito mais isso”. Era o jeito de me ocupar no mundo e resistir. Era meu jeito de lutar. Então, eu falo muito sobre mulher negra, África, solidão, preterimento e a perda dos meus entes queridos.

Foto: Luanna Andrade

E o que seria a poesia SLAM?


A poesia SLAM é um grito de resistência. O SLAM está dentro do movimento Hip Hop, o movimento das ruas nos Estados Unidos. É um movimento da rua, no qual a maioria das pessoas são negras que batalham rimas, fazem grafite e free style. Então, o SLAM é a poesia distante da realidade erudita que você conhece, aquela poesia rimada em que, geralmente, o conteúdo é o amor. O SLAM é um jeito de desabafar e mostrar a realidade. Você vai usar suas palavras, você vai usar seu cotidiano. Não precisa usar aquela norma culta. [...] É uma poesia de resistência. É uma forma de arte muito da rua mesmo. Muita gente se espanta quando começa a ouvir o SLAM, porque é muita verdade dentro da poesia e as vezes, as pessoas não estão acostumadas com toda essa resistência.

Foto: Luanna Andrade

Qual o impacto dessa poesia na sociedade?


Desde que eu comecei a fazer SLAM, vejo como ele impacta a vida das pessoas. Quando eu recito e as meninas se identificam. Quando eu estou em batalhas e escuto outras realidades. Isso mexe muito comigo. Os meninos que batalhavam no Pedregal falam que levam muito baculejo e revista da polícia...que são preteridos e não tem acesso à universidade, mas que têm esse sonho de estar dentro dela. Não tem como você não se emocionar. Você se vê na outra pessoa e você vê que sua dor se junta com a dela. É muito intenso. Quando ouço que uma menina que sofreu abuso e esteve em um relacionamento abusivo ou um menino que foi muito preterido e tem o sonho de ser rapper ou rimador, mas isso é distante pra ele, eu vejo e sinto ao meu redor como as pessoas ficam impactadas. [...] O SLAM é como dizer: "Olha, o que você tá passando, eu já passei de uma maneira diferente, mas eu te entendo. Vamos juntar as dores da gente. Vamos juntar as lutas. " É um momento de compartilhar. Você está sofrendo com algo e vai colocar para fora.


Antes de finalizarmos a entrevista, Priscila compartilhou uma de suas composições favoritas. À seguir:


“Quantas vezes você se sentiu excluída por causa da sua cor

Isso feriu seu ego, machucou sua alma assim lhe trazendo dor


Quantas vezes se achou incapaz sem ao menos saber porquê

E se colocou pra baixo, sem nada ter feito pra merecer



Quantas vezes uma falta de resposta já te trouxe inquietude

Silêncio sim é uma resposta pra quem entende sua magnitude

Sociedade é racista, sim!

E todos fingem que não veem

Não somos gosto, nem beleza

Isso tá longe de acontecer

Porque na cabeça de vocês, a gente parece ser tudo igual

Mas lá no fundo nós sabemos que tudo isso se resume apenas a uma questão racial


Hoje tudo é naturalizado

Para uns é vitimismo, pra mim é autocuidado

Minha vontade as vezes é jogar a toalha e deixar tudo pra lá

Mas aí eu paro e penso: E quem por mim vai lutar?”

Preta Intensa

 

Ficha Técnica

Fonte: Priscila Silva

Entrevista: Julia Nunes e Luana Rocha

Fotografia: Julia Nunes, Diego Vieira, Andressa Medeiros, Luanna Andrade e Luana Rocha

Supervisão Editorial: Rostand Melo

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