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Túlio Paz e o Sebo Lupa: um sonho de várias páginas

  • Foto do escritor: Coletivo F8
    Coletivo F8
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura
Túlio sentado na frente da livraria ao lado de uma placa preta, escrito em giz: "Lupa sebo e livraria" Túlio esta sorrindo.
Túlio Paz sentado na frente da livraria, foto por Israel Barbosa
Já vimos clientes chorarem ao reencontrar aquele livro da infância, ele transporta você de volta àquela casa, àquela vida.

Num mundo de algoritmos e conteúdo descartável, o livro físico permanece como um território de resistência. Mais do que papel e tinta, ele é um objeto de afeto, uma cápsula do tempo, uma herança que carrega nas páginas anotações, dobras e a história silenciosa de quem o leu antes. Guardiões desse universo particular, os sebos e livrarias independentes são hoje faróis culturais, lugares onde a curadoria é humana, o aconselhamento vem com paixão e cada obra na estante é uma porta aberta para uma conexão real.


Em Campina Grande, esse refúgio literário ganha vida na Livraria Lupa, um projeto que nasceu de uma paixão de infância e se transformou em um endereço afetivo na cidade.


À frente desse sonho está Túlio Paz, professor de História por formação e livreiro por vocação. Criado em um ambiente onde os livros eram extensão da mobília, herança natural de uma família de educadores, ele sempre nutriu o desejo de ter um espaço cultural. O plano, porém, parecia distante: primeiro viria a estabilidade da academia.

O destino, no entanto, escreveu o roteiro de outra forma. Em meio à pandemia, um lote de livros de um sebo à venda tornou-se o impulso que faltava. Com coragem e apoio familiar, Túlio mergulhou de cabeça no projeto, transformando uma coleção inicial de 1.200 títulos em um acervo que hoje beira os 9 mil volumes e em um ponto de cultura que já ocupa seu terceiro endereço, sempre crescendo. Em entrevista, Túlio fala sobre os percalços e as alegrias de construir a Lupa, filosofia por trás do negócio e o papel insubstituível do livro físico em tempos digitais.


A Lupa é um sonho antigo. Como foi esse processo de tirar a ideia do papel, especialmente num mercado que todo mundo sabe que é difícil?


Então, a Lupa foi sempre um sonho. Sou professor de história, meus pais professores... eu nasci rodeado de livro, é o meu círculo. Mas na minha cabeça era uma coisa linear: cursar, formar, buscar um emprego na área, me estabilizar e depois me arriscar no mercado livreiro.

Porque é um mercado difícil, né? A inserção do digital, tudo isso, dá medo. Só que a vida deu voltas e em 2020 eu estava em Natal, na UFRN, e ficava numa pousada que tinha um sebo, com um acervo muito interessante. Certo dia, perguntei se ele não queria vender. Ele disse que os livros eram do coração, que não dava. Aí veio a pandemia, a pousada fechou, e ele me ligou: ‘tu ainda tens interesse nos meus títulos?'


Eu não titubeei e falei que sim. Foi meio arriscado, já fui falar com minha esposa depois e na outra semana já estava buscando. A gente não tinha onde deixar, nosso apartamento era pequeno, de recém-casados, mas eu pensei: 'se as coisas não rolarem, pelo menos tenho os livros para iniciar o sebo'. O que eu tirar dali já me ajuda e foi isso. No primeiro mês a gente superou a meta, alugou o apartamento do lado e foi seguindo.


Entrevista com Túlio Paz, Foto: Gabrielle Cavalcanti
Entrevista com Túlio Paz, Foto: Gabrielle Cavalcanti

Depois desse início na pandemia, como você enxerga o movimento agora? Teve uma revitalização ou as coisas complicaram?


O mercado do livro não é fácil de compreender. De um lado, você tem os grandes, como a Amazon, fazendo uma política de descontos agressiva, oferecendo desconto maior do que a editora oferece para o livreiro. Isso é uma política de destruição das livrarias, não por acaso tantas fecharam. Do outro lado, a gente vê um aumento da procura pelo sebo. Por quê? Porque tem um nicho que ainda prefere o ambiente, o livro físico, o usado que é mais em conta e o livro raro, que o marketplace não tem. A gente trabalha com uma economia circular: aceita o livro como crédito, oferece desconto. Isso cria uma fidelidade, uma conexão que a livraria grande não tem.


O sebo ocupa um espaço que eles não ocupam.


E na sua opinião, o que leva uma pessoa, hoje em dia, a buscar um disco de vinil ou um livro físico, com tudo isso de streaming e e-book disponível?


É a questão da posse, da memória. O disco passou pela mesma coisa nos anos 2000, com o MP3, todo mundo substituiu. No streaming, você paga, mas a música não é sua. Pode sair do catálogo. Com o e-book é parecido: você compra um direito de uso, mas não é seu. Você não consegue emprestar, não consegue deixar de herança, não tem a dedicatória, o cheiro, a história que o objeto carrega. Isso acaba se perdendo, e é algo tão importante. O físico é um testemunho.


Parede da Lupa com um recorte de jornal, Foto por Gabrielle Cavalcanti
Parede da Lupa com um recorte de jornal, Foto por Gabrielle Cavalcanti

Você observa o interesse infantil por livros dentro do sebo? Como é que esse pessoal se comporta?


As crianças são parceiras da Lupa. Porque toda vez que passa uma criança na calçada, ela quer entrar na loja e fica puxando os pais. Aqui na área tem escolas infantis, então eles passam muito aqui na calçada e ficam puxando os pais. Tem criança que entra aqui só pra falar com a gente, dá 'oi', vai atrás de gibi, de mangá. Tem histórias infantis, tanto novas como usadas. O livro infantil novo é muito caro, na faixa de R$ 60 reais pra cima, R$ 70, e o livro usado, desses de R$ 70, acaba saindo por R$ 20, R$ 25. Então, ajuda a circular melhor e como a gente aceita os livros como crédito, então eles acabam consumindo mais livros, porque sai mais barato. Eles acabam circulando mais a biblioteca, ficando uma biblioteca mais viva, com mais novidades. E a gente facilita isso, que é um propósito também da gente, de estar circulando o conhecimento.


Há alguma curadoria, um espaço especial voltado para os pequenos no sebo? O espaço a gente vê que tem, mas e a seleção?


Então, a seleção quem faz sou eu mesmo. Como eu te disse, tenho os três pequenos e a gente acaba consumindo muito livro infantil, acaba conhecendo muito desse universo. A minha esposa também me ajuda, dá a indicação: 'Olha, Túlio, esse livro é muito legal, compra lá para a Lupa'. Aí a gente vai atrás e na medida do possível a gente tem feito esse filtro nesse universo pra incentivar.


Entrevista com Túlio Paz, Foto: Gabrielle Cavalcanti
Entrevista com Túlio Paz, Foto: Gabrielle Cavalcanti


Já teve alguma experiência marcante com alguma criança aqui na Lupa?


Tem uma história com uma ex-vendedora aqui, a Tainá, que é muito simpática. Tinha uma criança que adorava muito ela. No dia em que ela deixou de vir pra cá, porque voltou para o curso, ele ficou emburrado, botou a cara pra baixo, sentou ali na varandinha da entrada e começou a chorar com saudade da vendedora. Porque a gente tem um propósito mesmo de criar conexão com todo mundo que vem pra cá, independente. Com as crianças, é um propósito, uma missão, é a mentalidade da Lupa, porque a gente acha que livro tem em todo lugar, na internet. Mas essa troca, esse contato, não. E nos dias atuais a gente tá precisando incentivar mais esse encontro. Entre os próprios clientes que vêm aqui, que discutem, que pensam o livro. Entre os clientes e a gente. Então, é isso.


Com a geração mais nova, que cresceu nesse digital, você sente que ela está aderindo a esse 'físico'?


Olha, os dados mostram que o número de leitores no Brasil tá reuzindo. É grave. A gente tá num período de imediato, pensamento acelerado, que gera ansiedade.

O livro é o contrário: é você lendo aos poucos, curtindo a passagem, a virada da narrativa. É uma forma de reeducação mental.

Mesmo com menos gente lendo, quem busca o sebo hoje busca um lugar de curadoria, onde o livreiro entende. Não é uma mercadoria sem significado, as pessoas buscam significado.


Túlio, qual foi o momento em que você percebeu que a Lupa tinha virado, de fato, esse 'lugar de memória' que você idealizou?


Mesmo com a redução da leitura, a procura aumentou. O que eu noto é que a busca é por esses lugares com curadoria. Eu considero a Lupa, e qualquer sebo que preste, um lugar de memória. O livro, para mim, é um lugar de memória. Faz com que as pessoas se conectem, deem sentido à sua própria história. Propiciar esse encontro, dentro da economia circular, pra economizar recurso e incentivar isso... para mim, é motivo de muita alegria. Ver que isso ressoa, que as pessoas voltam... é a confirmação.


Para finalizar, uma mensagem para quem nunca frequentou a Lupa e poderia se sentir despertado para isso.


Estamos de braços abertos para você experimentar este lugar de memória. Já vimos clientes chorarem ao reencontrar aquele livro da infância, ele transporta você de volta àquela casa, àquela vida. Alguns se aventuram a reler e criam memórias novas, outros guardam aquele exemplar como um patrimônio afetivo intocável. Aqui, a experiência pode vir também com a trilha sonora dos vinis que tocavam para dormir. É sobre se transportar e compartilhar isso. O livro é a tecnologia que nunca sai de moda, tudo avança, fica ultrapassado, mas ele persiste.

Visitar a Lupa é isso: é a conexão íntima com suas histórias e o encontro com outras pessoas que vivem histórias parecidas. Muitas amizades nasceram aqui!

Confira mais imagens no slideshow:

Expediente

Redação: Gabrielle Cavalcanti e Gustavo Sales

Orientadores: Rostand Melo e Ada Guedes

1 comentário

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Gabriella Torres
há 12 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que matéria excelente e bem feita! Eu sou uma cliente fiel da Lupa e adorei conhecer mais sobre ela e sobre o seu dono Túlio 👏

Parabéns a todos os envolvidos, eu amei ❤️

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