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Entre defesas e milagres: Matheus, o goleiro que venceu o câncer e voltou mais forte

  • Foto do escritor: Coletivo F8
    Coletivo F8
  • 11 de jun.
  • 14 min de leitura

Matheus Costa, goleiro da Seleção Brasileira de Futebol de Cegos. Foto: Joana Maria
Matheus Costa, goleiro da Seleção Brasileira de Futebol de Cegos. Foto: Joana Maria

Convocado para a Seleção Brasileira, medalhista paralímpico e protagonista de uma das histórias mais marcantes do esporte paraibano, Matheus Costa construiu sua trajetória entre quedas, recomeços e uma fé inabalável. O goleiro do futebol de cegos abriu o coração, relembrando o início ainda na infância, os desafios da carreira e o sonho de representar o Brasil.


Em 2024, a vida lhe impôs a prova mais dura: o diagnóstico de um câncer que mudou completamente sua rotina e sua forma de enxergar o mundo. Entre internações, sessões de tratamento e o medo que rondava a família, ele escolheu não parar. Voltou a treinar, a sorrir e a acreditar, transformando a dor em força para seguir em frente.


Nesta entrevista, Matheus celebra sua vitória e mostra que, mais do que títulos e medalhas, carrega agora um propósito ainda maior: mostrar que a vida pode recomeçar e que o próximo jogo é sempre a maior motivação.


Comente um pouco sobre o início da sua trajetória no futebol.


Eu jogo futebol desde que eu nasci, praticamente. Mas comecei em escolinhas a partir dos cinco anos de idade, na AABB. Como todo goleiro, a gente começa não sendo tão bom na linha, então o pessoal vai colocando pra defesa. Eu comecei com o sonho de ser atacante, de fazer gol, e fui mudando de posição até chegar no gol. Com seis, sete anos, meus treinadores e meu pai, que também era goleiro, já percebiam que eu não tinha medo de levar bolada. Eu chorava quando sofria gol. E aí o cenário mudou, porque normalmente as crianças têm medo da bola, mas comigo era o contrário.


Joguei meu primeiro Paraibano de futsal com onze anos, e digo a todo mundo que foi quando o meu cordão umbilical foi realmente cortado. Meu pai me deixou na rodoviária em Campina, eu encontrei com um treinador que nem conhecia em João Pessoa, viajei pra Natal e passei uma semana fora, sem meus pais, sem ninguém, com onze anos de idade. Foi minha primeira viagem sozinho.


A partir daí comecei minha trajetória como atleta amador, porque quando a gente é criança tudo é hobby. Passei a jogar futsal a vida toda. Comecei a pagar as escolas onde eu estudava através do futsal, virando bolsista por causa do esporte, não por causa do estudo. Eu brincava que nunca fui bom de estudo, meu forte sempre foi o esporte, mas eu sempre estudei. Mudei mais de escola do que mudei de roupa, porque passava dois anos em uma e ganhava bolsa em outra. Mas terminei a escola como atleta amador, e o sonho de ser profissional acabou ficando ali.


Como foi o seu início no futebol de cegos?


O treinador da Seleção, Fábio Luiz, foi meu treinador quando eu era criança. Ele foi o primeiro goleiro campeão paralímpico e me trouxe um casaco da Paralimpíada de 2004. Eu nunca imaginei que um dia pudesse chegar onde cheguei. Em 2012, joguei uma competição pela APADEV, só pra completar o time, mas já conhecia o futebol de cegos por causa do Fábio. Depois disso, abandonei tudo para estudar e trabalhar. Passei cinco anos assim, pagando faculdade e deixando o sonho de atleta de lado. Em 2017, fiquei desempregado, minha vida virou um caos, saía, bebia muito, até que fui para um encontro da igreja, conheci minha esposa e depois consegui emprego numa multinacional. Eu já estava com 90 quilos, jogava só por hobby. Em 2018, Márcio Sousa, que também tinha sido meu treinador, me chamou para quebrar um galho num Brasileiro em São Paulo. Eu disse que não tinha condição nenhuma, estava acima do peso, mas ele acreditava em mim. A empresa me liberou só três dias. Joguei, fui bem, mas estava morto de cansado. Quando o time classificou, aquela vontade de ser atleta voltou. Pedi mais dois dias, organizei tudo, voltei pro jogo e a gente ganhou do time oito vezes campeão brasileiro. Ficamos em terceiro e eu fui eleito o melhor goleiro do Brasil. Foi aí que tudo mudou.


Matheus veste camisa da Associação Paraibana de Cegos (APACE). Foto: Kássia Queiroz
Matheus veste camisa da Associação Paraibana de Cegos (APACE). Foto: Kássia Queiroz

Como foi a sensação de ser chamado para a Seleção Brasileira e, depois, viver a experiência das Paralimpíadas?


No fim de 2018, recebi o convite para treinar com a Seleção Brasileira, não queria ir, pois a ajuda que eu receberia da seleção era muito baixa para quem tinha contas para pagar, mas minha família insistiu, disseram que dariam um jeito nas contas. Larguei o emprego e arrisquei tudo.

Só de ser convocado para a primeira fase de treinos já valeu a pena, porque vestir a camisa da Seleção sempre foi um sonho de criança.

Depois veio a convocação para Tóquio, em 2021, em 2020 a pandemia quase interrompeu tudo. Eu fiquei isolado, treinando em casa, sem contato com ninguém, porque se pegasse Covid não poderia competir. Minha família assistiu à convocação ao vivo. Eu já sabia que estava dentro, mas ver a emoção deles não tem preço. Dinheiro nenhum paga o que vivi em Tóquio. Representar o Brasil em uma Paralimpíada é algo que não se explica.


Quais foram os sentimentos ao ganhar a medalha de ouro em Tóquio?


Tóquio aconteceu no meio da pandemia, tudo muito tenso, muito difícil. Quando a gente fez o gol contra a Argentina na final, a gente já tinha muita certeza da conquista e isso não é soberba, nem falta de humildade, é saber tudo o que a gente fez e o que enfrentou pra chegar ali. Foi uma competição pesada, fizemos uma grande primeira fase, uma semifinal debaixo de chuva, no “pé d’água”, e aí, Deus botou a bola pra dentro do gol e a gente foi pra final. Minha família se reuniu toda, às cinco da manhã, na casa da minha mãe, pra assistir à final ao vivo. Foi surreal. Pra mim, Tóquio foi um espetáculo.


Receber a medalha no peito e cantar o hino nacional é algo que eu vou levar pra vida inteira. Tanto que eu tatuei a medalha de Tóquio, porque ela marcou a minha vida, a vida da minha família e a vida de todo mundo que estava com a gente.

Sabemos que a medalha de bronze também tem um valor muito grande. Deve ter sido emocionante ganhar bronze em Paris, correto?!


Com certeza. Paris foi muito difícil. Eu fui para a Olimpíada com uma forma física abaixo do que era esperado. Tive a oportunidade de levar minha esposa pra Paris, para que ela pudesse acompanhar toda a competição. Fomos para a semifinal contra a Argentina, numa decisão de pênaltis com o jogo muito acirrado. Como atleta de alto rendimento, a gente sabe que precisa virar a chave rápido. Não existe tempo pra luto nem pra dor da derrota, porque no outro dia já tem outra competição, uma final pra jogar. Choramos quando perdemos pra Argentina, ficamos tristes, mas ao acordar no outro dia a certeza era uma só: a medalha de bronze tinha que ser nossa. Eu sempre digo que a medalha de bronze tem a mesma importância de qualquer outra medalha, inclusive a de Tóquio, porque também é uma conquista. Pode ser que, para muitos, a gente não seja tão valorizado por essa medalha, mas nós sabemos o que ela representa. E não foi só Paris, o ano de 2024 inteiro tem uma simbologia muito marcante na minha carreira como atleta e na minha vida pessoal, principalmente.


Falando agora, então, sobre o seu diagnóstico de câncer no ano passado. Você comentou em outra entrevista que o “chão sumiu” naquele momento de descoberta, dia 31 de outubro. Fala um pouquinho sobre como foi esse momento do diagnóstico, sua reação e da sua família.

Na última semana de outubro, comecei a notar meus batimentos muito altos, 120, 130, até dormindo. Pra um atleta, era pra estar 55, 60. Chamei um amigo cardiologista, ele me examinou e disse: “tu tá com umas arritmias pesadas, é bom investigar”. Eu ia me apresentar na Seleção na segunda, mas pedi pra não ir. Fiz eletro, não deu nada. No teste ergométrico, com seis minutos eu já não aguentava, faltou ar, os batimentos foram pra 150. No outro dia fiz o eco e apareceu um derrame grande no pericárdio. A médica pediu raio-x e tomografia. No raio-x deu uma mancha enorme no tórax. O radiologista olhou e falou: “o negócio tá feio aqui”. Mandei pra minha irmã, a pneumologista pediu pra eu ir urgente. Fiz a tomo e o laudo saiu rápido, falando em “lesão grave de mediastino” com 16 centímetros. Meu amigo médico me ligou desesperado dizendo que podia ser linfoma. Eu nem associei linfoma com câncer, minha esposa entendeu. Entrei sozinho no consultório e a médica foi direta: “esse é o tamanho do seu tumor”.

Quando ela falou “tumor” eu travei, e quando ela começou a chorar eu pensei: “é sério demais”. Ela disse que eu ia fazer quimioterapia, que o cabelo ia cair, mas falou: “não é uma sentença de morte”.

Eu me agarrei nisso. Saí pálido, abracei minha esposa e disse: “Nally, tô com câncer”. Chamei meus irmãos pra casa da minha mãe e quando cheguei lá, minha mãe já estava abatida. Mostrei o exame e disse: “Doutora Dagjane disse que esse é o tamanho do meu tumor” (Dagjane Frazão, Cirurgiã Torácica). Minha mãe gritou, minha irmã ajoelhou chorando. Eu disse que ia tratar e ficar bem. Escolhi levar tudo do meu jeito, rindo, brincando, vivendo um dia de cada vez. O mais difícil foi dar a notícia naquele dia.


Durante o tratamento contra o câncer, em algum momento você pensou em desistir do esporte?


Fui internado no dia 1º de novembro, minha primeira noite foi muito difícil. No dia seguinte eu entendi que era real: eu estava com câncer. Naquele momento, entreguei a minha vida totalmente nas mãos de Deus.

Eu não pedi para ser curado, eu só dizia: “seja feita a sua vontade”. Se fosse para morrer, eu seria grato pelos 30 anos de vida que tive e se fosse para viver, eu acreditava que havia um propósito.

Eu não me importava em parar de jogar, só queria viver e ser forte pela minha família. E hoje eu tenho certeza de que o esporte salvou a minha vida. Pelo meu condicionamento físico, o câncer não me matou. Se eu não fosse atleta, eu teria morrido, se eu tivesse continuado jogando sem descobrir o câncer, eu provavelmente teria morrido dentro de quadra. Foram muitos livramentos. Passei 22 dias no hospital brincando, mantendo o bom humor e ao sair, o médico me disse: “volte a treinar imediatamente, isso vai salvar sua vida” e foi o que eu fiz.



Conquistas que marcaram sua história. Medalha de ouro em Tóquio (2020) e medalha de bronze em Paris (2024). Foto: Júlia Pereira
Conquistas que marcaram sua história. Medalha de ouro em Tóquio (2020) e medalha de bronze em Paris (2024). Foto: Júlia Pereira

Os treinos que você realizava nesse período aconteciam na academia?


Durante o período em que eu estava em tratamento, eu fazia musculação e corrida. Eu perdi muita capacidade respiratória, porque o tumor era no tórax, então aos pouquinhos eu ia voltando, mas sempre com mais fraqueza. Saí muito debilitado do hospital, saí com 65 quilos, pouquíssimo peso pra mim. Massa muscular era quase zero e eu mandava foto no grupo da família com aquele suporte que seguram o soro, porque ninguém sabia quem estava mais magro. Eu levava tudo na esportiva, algo que era muito pesado pra minha família, mas eu pensava: “de alguma forma alguém tem que ser forte”.


Qual a importância do SUS durante seu tratamento, já que você mencionou outras vezes que não teve custos?

Quando Dagjane disse que eu ia me tratar no Hospital HELP eu não sabia como ia ser. A gente sabia que era um hospital novo, que tinha uma ala particular, mas não fazia ideia de que existia atendimento pelo SUS. Eu dei entrada no Pedro I, passei uma hora lá e fui encaminhado para o HELP. Dagjane foi o anjo da guarda que me pegou no colo. Eu fiz 22 dias de internação, biópsias, exames, tudo pelo SUS. Não tive custo nenhum, em hospital de primeira linha, super bem tratado. Eu sou a prova viva de que o SUS funciona, pra quem não acredita. Eu lembro bem do que o rapaz da ambulância me disse quando me levou pro HELP: “vocês vão ver o que é um SUS que funciona de verdade”, e realmente. Fiz doze sessões de quimioterapia, vinte sessões de radioterapia. Quem não acredita que o SUS funciona é porque nunca precisou, eu precisei. Tem falhas? Tem! Mas, sem ele, o negócio não andava no Brasil. Minha vida foi salva pelo SUS, é um tratamento muito caro e hoje Campina Grande tem a FAP, tem o HELP, a Paraíba tem o Laureano. Às vezes a gente só enxerga o SUS pelo lado precário, mas não vê quantas vidas são salvas. Não é perfeito, mas se não existisse, como seria? A gente teria condição de pagar tudo particular? Não tem.


Você fez quantas cirurgias?


Como meu câncer é no sangue, eu não faço cirurgia pra retirar tumor. Eu faço quimioterapia pra matar e a radioterapia pra consolidar, reduzindo o tamanho. Fiz três biópsias: duas no mediastino e uma no pulmão, que foi quando descobrimos que os nódulos eram metástases. De procedimentos, eu coloquei e tirei o catéter, porque não dava pra colocar direto no peito por risco de trombose, pelo tamanho do tumor. Então, no geral, devo ter feito uns seis, sete procedimentos. Fora os exames, tomografia e ultrassom, tudo feito lá dentro do HELP, tudo custo zero.


Depois do tratamento, como foi voltar às quadras? O que foi mais difícil: o físico, o mental ou o emocional?


O meu mental estava muito tranquilo, o mais difícil foi o físico e o emocional. Durante a quimioterapia, eu ganhei muito peso por causa da medicação e voltar à forma física foi uma luta. Mas como eu nunca parei de treinar, isso me ajudou muito. O momento mais marcante foi o meu retorno em Campina Grande, no dia 19 de julho, contra o meu ex-clube. Minha família inteira estava na arquibancada, eles nunca tinham me visto jogar futebol de cegos. Segurar o choro durante o jogo foi muito difícil. Eu estava muito ansioso, não dormi na noite anterior, parecia a primeira vez que eu ia jogar bola. Quando o juiz apitou, eu me concentrei. Quando o jogo acabou, aí sim, eu desabei. Chorei tudo o que não tinha chorado durante o tratamento.


Como sua experiência com a doença mudou sua visão de vida, dentro e fora das quadras?


Se a gente passa por um momento como esse e não vira a chave, é porque não entendeu muito bem o sentido da vida. Eu sempre fui muito grato a Deus, tenho tatuado “em tudo dai graças”, nunca fui de reclamar, sempre acreditei que tudo tem um propósito. Eu acho que Deus me preparou durante muito tempo para essa doença. Eu lidei bem porque tinha muita fé. Quando isso acontece, a gente começa a valorizar mais as pessoas ao nosso redor. O ano passado foi meu primeiro ano de casado e eu vivi atropelado pela Olimpíada. Às vezes deixava minha esposa, minha família, minha casa de lado, pensando só em metas, em resultados, em futuro. Isso mudou muito a minha família, minha mãe, por exemplo, fez a primeira Eucaristia com 60 anos. Ela sempre teve fé, mas nunca tinha ido à igreja, hoje não perde um domingo. Ela percebeu que minha vida dependia daquilo. Claro que a medicina foi essencial, mas sem Deus, eu não teria suportado tudo da forma que suportei. Minha mãe queria apagar o dia 31 de outubro do calendário, por ser o dia da dor. Mas eu disse: “não, esse é o dia do meu segundo aniversário. Foi o dia em que eu tive a chance de descobrir o que eu tinha”, tem gente que não tem essa oportunidade. É uma frase clichê, mas é real: quanto mais a gente agradece, mais coisas boas acontecem. Eu mudei, sim, mas acho que quem mais mudou foi quem estava ao meu redor.



O peso do ouro. A força da trajetória. Foto: Maria Clara Tavares
O peso do ouro. A força da trajetória. Foto: Maria Clara Tavares

Qual foi a sua partida mais importante?

Depois de tudo o que aconteceu, com certeza foi o meu retorno à quadra em 19 de julho, acredito que essa partida bateu a medalha de ouro porque a medalha que eu ganhei foi muito maior.

Esse dia vai estar mais do que marcado na minha carreira, porque vai ser de fato o meu retorno às quadras.


Na partida de futebol de cegos, o goleiro é o único que enxerga. Como você analisa a sua importância na comunicação e na liderança durante os jogos?

Somos três olhares dos cegos no jogo. A gente orienta a defesa, o treinador orienta o meio lá de fora e o chamador, atrás do gol, orienta o ataque. É um trabalho de muita confiança: eles confiam na gente e a gente confia no que eles vão fazer. Dentro da quadra, a gente tem um papel de liderança, porque somos os únicos sem deficiência ali. Somos nós que podemos agir, dar um passo, fazer uma defesa ou até falhar. O treinador e o chamador não podem intervir dentro do jogo. Então tudo gira nessa confiança entre a gente, o treinador e o chamador. Se eu falar “vai pra esquerda e bate num trem”, o atleta que confia em mim vai bater, porque acredita no que eu digo. Isso não nasce do nada, é treino, respeito e tratar todo mundo igual. Eu brinco, provoco, não pego leve e nem trato ninguém diferente. Dentro da quadra é cego contra cego, ninguém é mais ou menos.


Quais são seus próximos objetivos?


Meu principal objetivo é voltar para a Seleção Brasileira. Não quero estar lá por ter passado por um câncer, mas pelo meu mérito como jogador. Quero reconquistar meu espaço pelo meu potencial. Vou trabalhar até estar pronto. Também sonho em disputar a Paralimpíada de Los Angeles em 2028 e trazer a medalha de ouro de volta para o Brasil. Ainda vou fazer exames finais para confirmar se estou 100% curado. Se estiver, sigo com exames de rotina. Se ainda houver algo, vou enfrentar o que for preciso, não tenho medo. Também tenho um sonho muito grande: ser pai. Por enquanto, ainda não posso, mas, se Deus quiser, no próximo ano vamos poder tentar.


Qual a sua maior motivação?

É o próximo jogo. Tem um filme que eu gosto de assistir: “Arremessando Alto”. Ele fala que nunca é sobre a cesta que você errou, é sempre pela próxima que você vai arremessar. Então, nunca é sobre o jogo que passou, é sempre pelo próximo. Minha motivação está sempre no próximo dia, no próximo treino, no próximo jogo. Acho que a motivação para nós, atletas de alto rendimento, não pode ser aquilo que eu vivemos. A minha motivação, é a próxima medalha. É sempre sobre o próximo jogo.


Como quer ser lembrado no esporte paralímpico daqui uns anos?

Quero ser lembrado, não como o Mateus que teve câncer, mas como o Mateus que ralou e lutou muito como atleta para chegar onde chegou.

Meu sonho é que lá na frente, meus filhos possam ver e pensar: “olha, o pai passou por tudo isso”. Claro que o câncer representa muito para uma pessoa que o teve e continua atleta. Por isso optei por mostrar nas redes sociais que eu estava doente, para as pessoas verem que existe vida além disso. Mas no paralímpico, existem tantas pessoas que têm várias outras limitações, deficiências e problemas. Quero ser lembrado como um cara que conquistou, perdeu e ganhou. Meu projeto é voltar. Depois das Olimpíadas de Los Angeles, eu penso se encerro ou continuo. Mas, a lembrança que eu quero dar para as pessoas é que fui alguém que realmente batalhou muito para estar onde está.


Se você pudesse deixar uma mensagem para jovens atletas que estão começando na modalidade, qual seria?

Treine, treine muito. E tenha muita fé, acima de tudo. Acreditar que Deus tem um propósito. E treinar, treinar, cansar e treinar de novo. Porque a gente só consegue um padrão de excelência quando trabalha repetidas vezes aquilo para dar certo. O atleta em alto nível ralou muito, repetiu muitas vezes, errou muitas vezes, caiu muitas vezes. Então, acho que treinar é o principal para todo mundo.


Fora das quadras, quem é o Matheus do dia a dia?

Sou um cara simples, gosto de assistir jogo, às vezes vejo um no celular e outro na TV ao mesmo tempo, minha esposa até brinca com isso. Gosto de estar com amigos, em barzinhos, com a família. Amo café no fim da tarde e também gosto de uma cerveja. Gosto de dormir e aproveitar os dias de descanso. Sou muito leve, gosto de brincar, sorrir. Amo a vida que eu tenho, dentro e fora das quadras.


Além do seu esporte, você pratica algum outro?

Não posso praticar mais, por ser atleta eu não posso me arriscar. Mas amo esportes, de xadrez a jiu-jitsu. Amo vôlei, tênis, beach tênis.


Em relação a outros esportes, como ficou a questão da corrida após o tratamento?

Eu amava correr, cheguei a fazer meia maratona, mas meu treinador precisou tirar as corridas dos meus treinos. Faço parte do time da assessoria de Thales (Rannier), do Pelotão Azul, que me abraçou quando precisei perder peso. É um esporte que amo fazer, mas sou proibido de fazer. Hoje, minha irmã e meus tios são maratonistas. Trouxe todos para a corrida e para mim esse legado já valeu a pena. 


Qual o seu maior sonho?

Ser pai. A gente não sabe como vai ser daqui para frente. Estão congelados no laboratório. Eu tive que congelar, porque o tratamento ia causar infertilidade pro resto da vida. Eu digo que eles tão lá, apurando, porque vão dar trabalho, estão lá quietinhos, apurando. Aí minha esposa diz que quem vai tomar conta sou eu.


Você se sente realizado?

Eu acho que vou me sentir totalmente realizado quando for pai. Aí vou sentir que completei uma fase da minha vida.

Obs.: A entrevista foi realizada no dia 19 de setembro de 2025. Depois dessa data, Matheus recebeu a notícia de que havia sido convocado novamente para a Seleção Brasileira e também realizou seus exames finais, que confirmaram que ele está 100% curado do câncer. 


EXPEDIENTE

Fotografia, produção e redação: Joana Maria, Júlia Pereira, Kássia Queiroz e Maria Clara Tavares

Pauta e entrevista Entrevista: Kássia Queiroz

Supervisão Editorial: Rostand Melo e Ada Guedes

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