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A ginga da consciência: a trajetória de Mestre Cabeça na Capoeira

  • Foto do escritor: Coletivo F8
    Coletivo F8
  • 3 de jul.
  • 4 min de leitura
Foto: Leticia Lima

Filho da Rainha da Borborema, nascido sob solo Paraibano no dia 22 de agosto de 1977 e carregado de resistência, Klebson Guedes da Silva, mais conhecido como Mestre Cabeça, teve seu primeiro contato com a capoeira aos 19 anos no Colégio Estadual da Prata.


O garoto que apreciava futebol de salão, chegando a ser campeão várias vezes, pelas escolas em que estudou e competiu, teve que escolher entre prosseguir com o futebol ou caminhar com a capoeira.

“E eu escolhi a capoeira. Hoje entendo por quê. Ela mudou minha vida em tudo: saúde, comportamento, visão de mundo”.

O que chegou na sua vida por acaso, se tornaria então sua profissão e sua paixão. Teve como primeiro professor, Flávio Moreira, mas acabou se entrosando com todos os capoeiristas do bairro. Aquele rapaz que entrou na capoeira para brincar se tornou Mestre, com sua própria academia e com alunos em vários Estados.

A alcunha Cabeça surgiu de uma história simples e engraçada.

“Não tem nada a ver com cabeça grande, como muita gente pensa. Quando comecei, já tinha um rapaz chamado Cabeça. Diziam que eu parecia com ele e o apelido pegou. Depois descobrimos que o apelido dele nem era esse, mas o meu ficou.

Foto: Julya Pires


CAPOEIRA E RESISTÊNCIA


A capoeira foi proibida no Brasil em 18 de outubro de 1890 devido a sua associação com a resistência negra e a criminalidade. O esporte, que também é dança e expressão cultural, passou a ser vista como ameaça pelas autoridades e elite. Apesar de toda repreensão e preconceito, a capoeira resistiu e hoje ela é reconhecida como patrimônio cultural, refletindo na luta para identidade da cultura afro-brasileira.


Mesmo diante do reconhecimento legítimo, Mestre Cabeça vivenciou as dificuldades de representar a capoeira em Campina Grande. Relata que houve períodos em que não havia professor de capoeira na cidade, momento em que seu grupo de amigos passou a treinar e ensinar uns aos outros.


“Quando percebi, já estava dando aula, viajando, conhecendo outros lugares”.

Em 2007, quando voltou de Pernambuco, começou a atuar mais forte em projetos sociais e no Capoeira nas Escolas, que existe até hoje. Foi passando por associações, espaços emprestados, até que em 2016 sua mãe cedeu um espaço da casa da família para que ele montasse sua própria academia. Mas para ele, os maiores obstáculos de ser Capoeirista e Mestre ainda é o preconceito e a falta de visibilidade.


 “O preconceito ainda existe, principalmente religioso. Já tive que parar a aula para explicar para os pais que capoeira não é ‘macumba’. Já perdi aluno por isso, mas também já consegui convencer muita gente mostrando o verdadeiro significado da capoeira. Outro problema é a visibilidade. Se não está na TV, parece que não existe. Existe lei que garante o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mas, na prática, poucas aplicam. Muitas preferem outras modalidades porque não conhecem a capoeira ou temem preconceito por parte dos pais das crianças.”

Para Klebson, dar aula para crianças é um enorme desafio, pois precisam sempre de estímulo para se concentrarem.


“Se você não tiver musicalidade, não segura a atenção delas. Eu aprendi isso viajando, observando outros mestres.”

Dentre os recursos para ensinar a arte, a música é sua aliada mais forte. Mas o mestre destaca o quanto a capoeira é rica, multifacetada e plural.


“A criança aprende cantando, jogando, brincando. A capoeira entra como algo natural. Além disso, eu trabalho história, cultura, respeito. Capoeira não é só movimento, é formação.”
Foto: Leticia Lima

O GRUPO CORDÃO DE OURO


Klebson entrou para o grupo Cordão de Ouro da Associação de Capoeira que foi fundada pelo mestre Suassuna em 1977, no ano de 1999 quando o grupo Ginga Brasil encerrou as atividades naquele período.


Para ele, ser mestre é fruto de dedicação, um processo de amadurecimento.

“Passei por todas as graduações: aluno, instrutor, professor, contramestre. Em 2018 veio a graduação de mestre. Foi um momento muito forte para mim, porque ser mestre não é só título, é responsabilidade.”
Foto: Julya Pires

Klebson valoriza o que sua família representa na capoeira. A arte também se tornou parte da vida de cada um que convive com ele. Sua mãe, Maria José de Sousa Silva, ganhou até o apelido de “mainha” no meio dos capoeiristas, e o espaço onde ministra suas aulas carrega o nome de seu pai, José Milson Guedes da Silva. Foi em 2016 que sua mãe cedeu o local e ali se tornou sua própria academia.


“Esse espaço virou o CT Zé Milson, em homenagem ao meu pai. Ele construiu aquela casa praticamente sozinho, sem ser pedreiro. Dar o nome dele ao centro foi uma forma de reconhecer tudo o que ele fez por mim e pela família.”

Foto: Anna Luiza Silva

Admirado pelos alunos e reconhecido entre seus pares, Mestre Cabeça, carrega consigo a força da capoeira e a resistência que a mantém viva em Campina Grande e pelo Brasil. Hoje é o homem e profissional que um dia o menino Klebson Guedes da Silva visualizou e, com treinamento, persistência e responsabilidade, construiu.





Expediente

Redação: Anna Luiza Silva

Produção: Leticia Lima, João Bosco

Supervisão Editorial: Ada Guedes, Rostand Melo

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Gika
03 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sensacional!

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