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Elas fazem, elas podem: avanços e desafios da liderança feminina em Campina Grande

  • coletivof8noite
  • há 2 horas
  • 8 min de leitura

Maria Ednilda em seu escritório / Foto: João Robson
Maria Ednilda em seu escritório / Foto: João Robson

A presença feminina no mercado de trabalho brasileiro tem avançado de forma consistente nas últimas décadas, especialmente em espaços de liderança. No entanto, esse crescimento ainda convive com desafios estruturais que limitam o acesso das mulheres aos cargos mais altos das empresas. A partir de dados nacionais e do recorte local em Campina Grande, esta reportagem mostra como mulheres têm conquistado posições estratégicas tanto no ambiente corporativo quanto no empreendedorismo, revelando trajetórias, desafios e as transformações em curso na cultura organizacional.

O começo não caberia em planilhas, nem em projeções otimistas de mercado. Cabia, no máximo, na palma da mão: R$ 200,00. Esse valor é pequeno demais para quase tudo, mas suficiente para recomeçar. Foi assim que a empresária Maria Ednilda decidiu transformar a cozinha em sustento, em direção e, mais tarde, em liderança. ”Eu comecei com duzentos reais e fui crescendo, trabalhando todos os dias, sem nunca deixar de acreditar”, conta, com a serenidade de quem já atravessou o improvável.


Ainda jovem, sua rotina passava pelo campo e pelo comércio familiar, aprendizados silenciosos que moldaram sua disciplina e sua forma de enxergar o mundo. A vida, no entanto, impôs uma pausa brusca: dificuldades financeiras, perdas e a necessidade urgente de reconstruir tudo em Campina Grande. Foi nesse ponto de ruptura que a cozinha deixou de ser apenas habilidade e se tornou caminho.

"Eu comecei com duzentos reais e fui crescendo, trabalhando todos os dias, sem nunca deixar de acreditar"

O início não teve glamour. Teve pressa, exaustão e múltiplas funções concentradas em uma única pessoa. Maria fazia de tudo: produzia, vendia, organizava, limpava, abria cedo e fechava tarde. Entre um compromisso e outro, sustentava também o papel de mãe. “Ser mãe, ser comerciante… isso nunca foi empecilho”, afirma não como discurso, mas como resumo de uma rotina vivida no limite.


Com poucos recursos e nenhuma margem para erro, cada venda carregava mais do que dinheiro: carregava continuidade. Aos poucos, os bolos caseiros deram lugar a encomendas maiores, os lanches se transformaram em eventos e o improviso virou estrutura. O crescimento veio com um ritmo de quem constrói, com o que tem, e não com o que falta.


Mas nem tudo era apenas esforço. Havia também desconfiança, uma mulher em um setor competitivo muitas vezes desacreditada, e ainda lidando com um segmento de buffet cercado por estigmas. Maria encontrou, nesse cenário, mais um obstáculo a ser atravessado. “Chegavam a conferir tudo, um por um”, lembra, sobre a vigilância em torno do seu serviço.


O que poderia ser desânimo virou método, rigor, compromisso e consistência. Passaram a ser a base da reputação que consolidaria o seu negócio. Hoje, à frente do reconhecido Buffet Santana, capaz de atender desde pequenas encomendas até eventos para milhares de pessoas, Maria Ednilda traduz uma forma de liderança que não nasceu de cargos formais, mas da prática contínua de resistir, organizar e crescer. Um percurso que começou com pouco e se expande na mesma medida da confiança conquistada.


“O compromisso é o mesmo, não importa se o cliente é para 10 ou 4 mil pessoas.”

É nessa constância, mais do que no tamanho dos eventos, que se sustenta a trajetória de quem fez da necessidade o primeiro passo de uma história que ainda está em construção.




Um caminho individual que revela os desafios de uma sociedade



A trajetória de Ednilda ajuda a revelar uma transformação mais ampla. Nas últimas décadas, a presença feminina no mercado de trabalho brasileiro avançou de forma consistente, inclusive em espaços de liderança. Esse crescimento, no entanto, continua convivendo com obstáculos estruturais que limitam o acesso das mulheres aos cargos mais altos das empresas e dos negócios. Embora sejam maioria no ensino superior e tenham ampliado sua participação no emprego formal, elas ainda enfrentam barreiras relacionadas ao preconceito de gênero, à desigualdade de oportunidades e à ausência de políticas institucionais de equidade.


Os números ajudam a dimensionar esse avanço e seus limites. Em levantamento da Brain & Company, que é uma empresa de consultoria de gestão estratégica, mostra que, entre 2019 e 2024, o número de mulheres CEOs nas 250 maiores empresas do país dobrou, passando de 3% para 6%. No mesmo período, a presença feminina em cargos executivos subiu de 23% para 34%, enquanto nos conselhos de administração passou de 5% para 10%.


Dados nacionais coletados do IBGE indicam que, entre 2002 e 2023, a participação feminina no emprego formal passou de 39,8% para 44,7%, e que as mulheres representam 58,1% dos vínculos em ocupações de nível superior. Ainda assim, nos cargos de direção e gerência, a participação feminina se mantém entre 37% e 40%, sinalizando que o acesso aos espaços de decisão avançou, mas ainda não se traduz em igualdade plena.


Em Campina Grande, essa transformação começa a se tornar mais visível no cotidiano das empresas e dos pequenos negócios. Para a professora doutora Janayna Souto, coordenadora do curso de Administração da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), parte das organizações já compreende que diversidade não é apenas uma pauta social, mas também um diferencial estratégico. “Empresas que têm esse direcionamento conseguem fazer uma leitura mais avançada do mercado”, afirma. Segundo ela, embora ainda exista resistência cultural, o cenário atual é mais promissor do que em décadas anteriores.


Liderança feminina em números



Fonte: IBGE
Fonte: IBGE



Eveline e a liderança que nasce da inquietação


Eveline em seu escritório / Foto: João Pedro Régis
Eveline em seu escritório / Foto: João Pedro Régis

Os dados e a análise ganham outra dimensão quando encontram histórias concretas. Se Maria Ednilda traduz a liderança construída a partir do recomeço, da sobrevivência e da expansão gradual do próprio negócio, a trajetória de Eveline Gonçalves mostra outra face do mesmo movimento: uma mulher que transforma formação, inquietação e leitura de mercado em autonomia empreendedora.


Desde criança, Eveline diz que nunca se imaginou fazendo outra coisa além de trabalhar com comunicação. Formada em Jornalismo pela UEPB e com mestrado em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela percorreu redações de TV entre Campina Grande e Caruaru antes de decidir mudar de direção. Durante esse caminho, percebeu como o mercado de assessoria e comunicação já funcionava de forma mais estruturada em outras cidades e identificou, em Campina, uma lacuna que poderia se transformar em oportunidade. Foi dessa leitura que nasceu a ideia de criar a agência Positive.


A decisão de empreender não surgiu de um salto improvisado. Eveline conta que sempre foi do tipo que corre atrás das oportunidades em vez de esperar que elas apareçam. E foi assim, ao deixar currículos pessoalmente nas emissoras, que ela aceitou desafios no telejornalismo, ao voltar para Campina com o propósito já amadurecido de estruturar a própria agência. Antes de colocá-la de pé, procurou se capacitar e aprofundou os estudos sobre redes sociais. No seu mestrado, em 2019, deu início ao negócio que por um tempo ainda conciliou com a carreira na TV, até perceber que a empresa exigia dedicação integral.


O maior desafio, segundo ela, não se restringia ao empreendedorismo em si. “Ser mulher já é um grande desafio, porque a gente é cobrada muito mais”, resume. Ao longo da vida, precisou lidar com julgamentos sobre aparência, estudo, casamento e escolhas profissionais, como se ainda fosse preciso optar entre construir carreira ou formar família. “Por que não dá para você fazer os dois?”, questiona. Casada desde 2024, ela rejeita essa lógica e afirma que sempre quis sustentar os dois projetos: o pessoal e o profissional.


Foi no início da agência que viveu um dos episódios mais marcantes de deslegitimação da própria autoridade. Durante uma gravação com uma cliente, o marido dela exigiu falar “com o dono da agência”. Quando Eveline respondeu que a dona era ela, ouviu: “Eu não falo com mulheres. Eu só falo com homens.”  Naquele momento, com poucos clientes, tentando consolidar a empresa, acabou pedindo a um colaborador homem que apresentasse o planejamento ao cliente. Hoje, ao revisitar a história, reconhece que gostaria de ter reagido de outra forma. “A dona da empresa sou eu. Mulher. E aí?”, afirma. A cena expõe uma experiência comum a muitas mulheres em posições de liderança: a necessidade constante de provar competência em espaços onde a autoridade masculina ainda costuma ser presumida.

Entrevista com Eveline em seu escritório / Foto: João Pedro Régis
Entrevista com Eveline em seu escritório / Foto: João Pedro Régis


O começo da Positive também foi marcado por um esforço quase artesanal. Eveline lembra que, nos primeiros tempos, vendia os serviços da agência de porta em porta, explicando um modelo de negócio que ainda despertava desconfiança. Houve quem dissesse que ninguém pagaria por assessoria de comunicação ou pela gestão de presença digital. Ela ouviu, mas decidiu arriscar.


Com o tempo, a agência consolidou um modelo próprio, baseado em proximidade com os clientes, respostas rápidas e acompanhamento constante dos processos. Ao falar da rotina de liderança, Eveline recorre a uma imagem que sintetiza bem o cotidiano de muitas mulheres em cargos de decisão.

"É como se você estivesse o tempo inteiro equilibrando pratos"

Para suportar a exigência de comandar uma empresa sem anular a vida fora dela, defende terapia, definição de prioridades e a compreensão de que ninguém dá conta de tudo ao mesmo tempo. Em 2024, por exemplo, decidiu que aquele seria o ano do casamento, e não o momento de ampliar a agência. Ainda assim, o negócio cresceu. Para ela, liderar também significa reconhecer o tempo de cada projeto, inclusive o da própria vida.



Avanços ainda tímidos

As trajetórias de Ednilda e Eveline ajudam a traduzir, em escala humana, o que especialistas observam no mercado: o avanço da liderança feminina é real, mas ainda é afetado por barreiras históricas. Para Fabíola Vieira, analista técnica do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o crescimento da presença das mulheres no empreendedorismo convive com desafios estruturais, dificuldade de acesso ao crédito, sobrecarga de responsabilidades e desconfiança recorrente sobre a capacidade feminina de liderar.


Segundo a especialista do SEBRAE, 34% dos pequenos negócios na Paraíba já são liderados por mulheres, dado que confirma a expansão da atuação feminina no mercado local.


Fabíola observa que, muitas vezes, a mulher precisa comprovar competência de forma mais intensa do que os homens para ocupar os mesmos espaços. “Quando é um homem, a liderança é vista como natural. Quando é uma mulher, ela precisa justificar por que está ali”, afirma. A avaliação ajuda a conectar os relatos das personagens a um padrão social mais amplo, em que o reconhecimento da autoridade feminina ainda depende, com frequência, de validações adicionais. Como exemplo simbólico dessa desigualdade histórica, a especialista menciona o caso do Banco do Brasil, que só passou a ser presidido por uma mulher em janeiro de 2023, quando Tarciana Medeiros assumiu o cargo. O dado evidencia o quanto a ocupação feminina dos postos mais altos ainda é recente, mesmo em instituições consolidadas.


Ainda assim, tanto Fabíola quanto a pesquisadora Janayna convergem em um ponto: a presença das mulheres na liderança tende a crescer, impulsionada pela qualificação, pela busca por autonomia e por mudanças graduais na cultura organizacional.




Caminho aberto, mas ainda longo

Entre números, diagnósticos e experiências concretas, o que se desenha em Campina Grande é um cenário de transformação ainda incompleto, mas visível. Em diferentes setores, mulheres vêm ampliando sua presença em espaços de comando e reposicionando o significado da liderança a partir de experiências marcadas por competência, reinvenção e resistência.


No caso de Ednilda, a liderança foi construída a partir de um recomeço com apenas 200 reais e muita persistência diária em fazer o negócio sobreviver até se tornar referência. Eveline veio da decisão de ocupar um mercado em mudança para sustentar a própria autoridade diante de tentativas de deslegitimação. Histórias diferentes, unidas por um mesmo propósito: mulheres que ainda têm acesso limitado aos espaços de tomada de decisão. Mas ajudam a redefinir o que significa liderar. O caminho ainda é longo, mas, em Campina Grande, ele já está sendo aberto por elas.


EXPEDIENTE

Reportagem: João Pedro Régis

Supervisão editorial (Reportagem): Ada Guedes e Raul Ramalho

Supervisão editorial (Coletivo F8): Rostand Melo

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