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Do amor por Cabaceiras à criação da marca Sou Cariri

  • coletivof8noite
  • há 3 horas
  • 5 min de leitura
Foto: João Paulo Lima
Foto: João Paulo Lima

De tempos em tempos, o Nordeste volta ao centro das atenções, seja por suas contribuições ao cinema nacional ou pela força do artesanato local. Mas o que fazer quando essa visibilidade vem também acompanhada de preconceitos e estereótipos? As reações podem ser inúmeras, mas para a empreendedora e modelo profissional, Mércia Farias, de 29 anos, a reação se manifestou nos raios solares que remetem aos espinhos dos cactos e nos lajedos da região, que compõem a identidade visual da marca Sou Cariri.


Com berço em Campina Grande, mas com o coração pertencente a Cabaceiras, conhecida como a “Roliúde Nordestina”, Mércia fez da cidade a base para a construção do seu empreendedorismo e também a fonte da inspiração para o negócio. Nas estampas de suas camisas, estão presentes a vegetação típica do semiárido, os cenários conhecidos popularmente através do filme O Auto da Compadecida, além de personagens e elementos que vão muito além do cinema, representando o cotidiano e a cultura local. 


Foto: Andrei Oliveira
Foto: Andrei Oliveira

Ao contar sobre o empreendedorismo de Mércia e citar uma das obras mais célebres da literatura e do cinema brasileiros, seria impossível não comentar sobre o escritor e filósofo, Ariano Suassuna. Como um verdadeiro defensor da valorização da cultura popular nordestina, ele transformou personagens e paisagens do sertão em obras que ajudaram a projetar o Nordeste para o restante do país. Em O Auto da Compadecida, por exemplo, apresentou ao público um sertão rico em fé, humor e resistência, distante dos estereótipos que costumam marcar a região.


Décadas depois, a proposta da Sou Cariri nos remete ao escritor, que é também uma das inspirações da marca criada em 2025. Assim como Ariano utilizou a literatura e o teatro para contar histórias nordestinas, Mércia utiliza a moda para traduzir visualmente a identidade de Cabaceiras e do Cariri paraibano.


Os símbolos presentes em suas estampas, como a igrejinha, os cactos, os bodes, os lajedos e as paisagens do semiárido, funcionam como elementos de memória e despertam um sentimento de pertencimento em quem conhece e usa a marca. Mércia também conta alguns episódios que enfrentou ao longo da vida profissional e que a motivaram na criação do seu empreendimento:


“Em um dos meus antigos trabalhos, eu viajava o Brasil todo divulgando o estado da Paraíba e em alguns lugares que eu chegava, eu sentia um receio, uma resistência do pessoal quando eu falava da nossa cultura. E aí eu queria mostrar essa identidade com mais força para as pessoas. Como eu já trabalhava nesse meio e sou apaixonada pelo Nordeste, eu queria colocar isso para fora, visualmente.” 

Foto: João Paulo Lima
Foto: João Paulo Lima

Enquanto tantos artistas buscam inspirações em lugares inusitados, a empreendedora consegue encontrá-las nas ruas de Cabaceiras. É ali, na cidade-cenário, que enxerga os detalhes que fazem da sua marca uma iniciativa única. Segundo Mércia, esse processo nasce do cotidiano, de uma simples caminhada pelo centro de Cabaceiras, da observação e também da conexão com o lugar. Os primeiros traços aparecem em rabiscos feitos no papel por ela, mas, com o tempo, transformam-se em estampas cheias de significado. 


“Tanto os turistas quanto os moradores locais amam a arquitetura de Cabaceiras. Então, eu penso que preciso colocar isso em uma estampa, que preciso vesti-la e preciso ver outras pessoas vestindo também”, conta Mércia.

Para fugir de representações muito literais, Mércia sempre aposta em elementos simbólicos, como o bode, o cacto e a icônica igrejinha local, mostrando de forma sensível e criativa, a beleza do Cariri paraibano.



Foto: Andrei Oliveira
Foto: Andrei Oliveira

A visão empreendedora de Mércia é algo que a acompanha desde o início do seu negócio, pois cada detalhe foi pensado com o objetivo de gerar identificação, sendo possível enxergá-la desde as estampas que compõem as peças até a identidade visual da marca, como o verde que representa a caatinga e o amarelo que simboliza o sol que reina o ano todo.


Além disso, usa de uma proposta criativa e versátil para atender os diferentes públicos, priorizando peças únicas e indo desde o maximalismo ao minimalismo, de peças vibrantes aos tons mais discretos, mas sem esquecer o foco principal: empreender valorizando suas raízes.


O trabalho tem conquistado tanto turistas quanto moradores da cidade, que encontram nas estampas elementos com os quais se identificam. A procura costuma ser ainda maior durante a Festa do Bode Rei, um dos eventos mais tradicionais do município. Não por acaso, o bode, é um personagem importante da cultura local e também aparece em diversas criações da marca.



Foto: João Paulo Lima
Foto: João Paulo Lima

Assim como em qualquer negócio com um ano de atuação, Mércia enfrenta desafios no caminho. Empreendendo sozinha, ela sonha em conquistar um espaço fixo no Centro Histórico da cidade. Enquanto isso não se concretiza, compõe o mágico cenário ao lado da igrejinha do Auto da Compadecida com sua banquinha durante os sábados, além de também expor algumas das suas peças na Casa do Artesão de Cabaceiras e divulgar o seu trabalho por meio das redes sociais. 


As dificuldades, no entanto, não foram capazes de desanimá-la, sendo transformadas em força para impulsionar o negócio por Mércia. É perceptivo que as camisas da Sou Cariri vão além do simples vestuário, são peças que buscam carregar a história do Nordeste em cada detalhe, símbolo, cor e estampa, além de ser também responsável por despertar novos olhares sobre a região, seja pela admiração ou pela curiosidade, promovendo o nome de Cabaceiras e a cultura nordestina sem sair da sua região: 


“Quando eu passava um tempo fora, sentia muita falta disso, chegava nas cidades e não via aquelas casinhas coloridas. Eu morria de saudade de Cabaceiras! Acredito que isso me despertou mais ainda a vontade de ter um pedacinho da cidade comigo, vestindo.” relata Mércia

Ao transformar o cotidiano do Cariri paraibano em algo visível e “vestível”, Mércia desconstrói estereótipos e constrói uma trajetória marcada pelo empreendedorismo feminino, unindo o sentimento de pertencimento ao desejo de autonomia.


Sua história é um grito de protesto silencioso, porém marcante, mostrando que é capaz de abrir um negócio a partir das próprias origens e representar, em pequenas estampas, a grande potência de um território. Dessa forma, podemos afirmar que a trajetória de Mércia Farias é um símbolo da resistência e da determinação da mulher nordestina, que encontra na cultura um caminho para empreender sem abrir mão de suas raízes. 


Confira mais imagens do editorial de moda com Mércia Farias e peças da "Sou Cariri":


Expediente

Reportagem: Marcele Saraiva

Modelo e entrevistada:  Mércia Farias

Locação: Centro de Cabaceiras e Dona Inácia Cafeteria

Supervisão editorial (Jornalismo de Moda): Ada Guedes e Débora Marx

Supervisão editorial (Coletivo F8): Rostand Melo

Obs: Produção realizada durante as atividades da disciplina "Jornalismo de Moda".

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