Entre o abandono e a esperança: Dilemas da rede de proteção animal em Campina Grande
- coletivof8noite
- 20 de jan.
- 6 min de leitura

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80,5 mil cães e gatos vivem em situação de rua na Paraíba. Muitos desses animais foram abandonados por quem deveria protegê-los e amá-los. Embora o abandono seja crime, conforme a Lei nº 9.605/98, o problema persiste sem solução efetiva em muitas cidades do estado.
Em Campina Grande tornou-se comum ver animais sozinhos, sem lar, com fome e feridos, sobrevivendo como se cada dia fosse o último. Com abrigos superlotados e ausência de políticas públicas eficazes, esses animais continuam necessitando de cuidados em meio a uma rede de apoiadores enfraquecida pela falta de recursos e políticas assistenciais.
Por amor, não por obrigação

Diante da falta de estrutura e políticas públicas, muitos voluntários e projetos independentes se organizam com o objetivo de cuidar e encontrar lares para animais em situação de rua. No entanto, é importante ressaltar o desgaste emocional e financeiro enfrentado por ONGs e voluntários independentes.
Amanda Carolina, ex-voluntária da ONG Animal de Rua CG e atuando de forma independente atualmente, relata os desafios enfrentados:“O que faço é de forma independente, em situações pontuais que aparecem: tentativas de lar temporário, adoção, arrecadação de medicamentos, rações para animais em vulnerabilidade… Mas não tenho rede de apoio. É desgastante emocionalmente.” Amanda reconhece que precisa se blindar emocionalmente, pois entende que não é possível ajudar todos o tempo todo.
Essa motivação também é sentida por Luís Adriano, jornalista e professor, que começou a resgatar animais após se deparar com uma gata ferida em uma viagem. “Vendo uma gata machucada na frente do local e ninguém fazia nada… Senti que eu poderia tirar o animal daquela situação”. Ele a levou para casa, começou o tratamento e decidiu adotá-la. Desde então, passou a se envolver mais com a causa, carregando ração e água no carro, retirando animais de locais de risco e promovendo campanhas com amigos para custear alimentação, tratamentos e castrações. “O objetivo é conseguir adoção. Quando não é possível, tento lar temporário. Em último caso, recorro a abrigos e eles ficam lá até serem adotados, o que nem sempre acontece, infelizmente.”
Já o projeto Animal de Rua CG, que anteriormente atuava como ONG formalizada, teve que abrir mão do CNPJ e, hoje, se concentra apenas em ações de castração e devolução dos animais ao local de origem. Victoria Franco, uma das responsáveis, afirma: “Paramos de resgatar porque não tínhamos mais condições. Hoje restam apenas cinco animais sob nossa responsabilidade. A maior dificuldade é encontrar pessoas comprometidas e recursos financeiros.”
É amor, é zelo, é adoção responsável
A responsabilidade de adotar um animal não termina quando ele chega ao seu novo lar. Adotar requer amor, cuidado, paciência, rotina e adaptação. Aluska Piano, tutora de três gatas, compartilha como a presença dos animais transformou não apenas sua rotina, mas também o olhar da sua família sobre o amor e o cuidado: “É um amor único. Tanto de você para eles quanto deles para você. A gente cuida, entende as necessidades deles, adapta a rotina. E eu quis passar isso para as minhas filhas. Hoje, elas também têm esse amor enraizado.”
Já a empresária Anny Kaylles também viu sua vida mudar ao adotar dois gatos resgatados por uma ONG. Para ela, o preparo antes da adoção foi fundamental: “Pesquisei bastante sobre como adaptá-los ao apartamento. Hoje, é tranquilo. Um veio depois para fazer companhia à primeira, que se sentia sozinha quando saímos.”
Histórias como essas mostram que adotar é, na verdade, um processo de transformação mútua. A adoção pode, sim, devolver o sentido da vida para quem adota e para quem é adotado. E o que eles pedem em troca é simples: um lar, cuidado, respeito e alguém que os ame de verdade.
Políticas públicas ainda são desafio em Campina Grande
Para a vereadora e jornalista Waléria Assunção, militante da causa há mais de uma década, a negligência com o controle populacional de cães e gatos reflete a falta de compromisso da gestão municipal e da própria sociedade.
“O problema não é a lei. Leis existem. O problema é a fiscalização e o cumprimento da lei na prática”, afirma.
Casos de envenenamento e superpopulação são comuns na cidade, que ainda carece de ações contínuas e estruturadas.
Em sua atuação parlamentar, Waléria apresentou propostas como a criação de um hospital veterinário público, um banco de ração, um programa permanente de castração e uma ambulância para emergências com animais. “Campina precisa de hospital, abrigo, um local para recolhimento e cuidado temporário de animais até adoção”, defende. Ela também chama atenção para a responsabilidade individual: “Se decidir ter um animal, saiba que ele vai adoecer, envelhecer e vai precisar de você. Omissão é conivência com o crime”.
O vereador Dr. Olímpio, atuante na causa há 20 anos, lembra que, ao assumir o primeiro mandato em 2005, encontrou no Código de Posturas do município uma prática cruel: qualquer animal resgatado nas ruas que não fosse retirado por seu tutor em até 72 horas era sacrificado. Em média, 700 animais eram mortos por ano. A partir dessa constatação, iniciou uma série de legislações para garantir a proteção animal. “Hoje temos o maior marco legal de leis de proteção aos animais do Nordeste, e ele parte de Campina Grande”, destaca.
Mesmo com avanços legais, Dr. Olímpio critica a falta de políticas públicas efetivas, especialmente no controle populacional. Os dois castramóveis existentes atendem apenas animais domiciliados. Como alternativa, ele propôs a adoção do método CED (Capturar, Esterilizar e Devolver) à colônia de origem, com marcação na orelha, reconhecido mundialmente como solução viável para animais de rua. Ele também cobra a construção de um hospital veterinário público e um centro de triagem para animais sadios.
“Hoje, esses animais vão para o centro de zoonoses, que vive superlotado…Protetores independentes fazem o papel que é da prefeitura…Essas pessoas adoecem porque não dão conta. com os gastos com ração, com medicamentos e com médico veterinário, é uma conta muito alta. E essa pessoa o que vai fazer? Vai deixar na rua? Se botar na rua, é crime de maus tratos.”
Segundo o vereador, todos os anos a Câmara aprova quase R$ 3 milhões no orçamento municipal para políticas públicas voltadas aos animais, mas a verba não é executada. “Essa semana critiquei o gasto de R$ 2,5 milhões na ornamentação do São João, enquanto falta verba para um hospital veterinário que custaria R$ 1 milhão.” Apesar das dificuldades, ele celebra conquistas como o fim das mortes no centro de zoonoses e a criação de um fórum permanente de proteção animal, que se reúne mensalmente na Câmara e acolhe propostas da população. “Se a gente não falar pelos animais, quem vai?”.
Estrutura pública entre a superlotação e o cuidado
Aretusa Nascimento, coordenadora do Centro de Controle de Zoonoses de Campina Grande (CCZ), informa que o centro possui respaldo legal desde 2003. Desde então, tem se consolidado como um órgão fundamental na prevenção e controle das zoonoses no município. Atualmente, o centro abriga 713 animais, entre eles, 457 cães, 192 gatos e 59 equinos. O espaço, que deveria se dedicar exclusivamente ao controle de zoonoses, opera em constante superlotação e, muitas vezes, absorve demandas que deveriam ser atendidas por outras políticas públicas que simplesmente não existem ou não funcionam como deveriam.
Apesar de oferecer serviços como a castração gratuita, o alcance ainda é limitado por dois fatores: o número reduzido de vagas restritas a beneficiários do Bolsa Família que vivem em vulnerabilidade, e o atendimento exclusivo à animais domiciliados. Ou seja, a medida se mostra paliativa diante da dimensão do problema. A castração, uma das principais ferramentas de controle populacional, ocorre apenas uma vez por mês e depende de um sistema online que nem sempre contempla quem mais precisa.
Por outro lado, é preciso reconhecer o incentivo à adoção responsável promovido pelo CCZ, que acontece de forma gratuita e consciente. A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, mediante apresentação de documentos e comprovação de maioridade.
A população precisa compreender que o CCZ é destinado ao tratamento dos animais e não ao seu abrigo. Atualmente, o centro conta com 11 médicos veterinários. Outro destaque é a reforma e ampliação do CCZ, que já está em sua fase final. Foram inaugurados novos canis e gatis, e estão em conclusão a sala de banho e tosa, além da ampliação do centro cirúrgico, o que permitirá um atendimento ainda mais digno e eficiente aos animais acolhidos.
Educação, castração e compromisso
A atuação da comunidade acadêmica também tem contribuído significativamente para a conscientização sobre a causa animal. Para Jadeliane dos Santos, estudante de Medicina Veterinária, é fundamental que universidades promovam projetos de extensão voltados à educação da população sobre a importância da castração. “Mesmo com o acesso à informação, muita gente ainda acredita em mitos, o que leva à reprodução descontrolada”, destaca.
A Comissão de Direito e Bem-Estar Animal da UEPB, criada em 2021, também reforça essa perspectiva institucional. De acordo com Luciana Dantas, representante da Comissão, o trabalho desenvolvido no campus se concentra no cuidado com os animais que permanecem na universidade, promovendo ações educativas e articulando recursos para sua manutenção. Luciana afirma: “Nossa missão maior é educar a população…Quando não recebem cuidado básico, é sinal de que ainda falta sensibilização e respeito”.
A comissão atua com o apoio de bolsistas, voluntários e projetos de extensão, mas enfrenta limitações por falta de recursos. “Hoje a universidade só consegue garantir alimentação. Precisamos de insumos básicos, medicamentos, equipamentos e mais voluntários para ampliar nossa atuação”, ela informa que os interessados em colaborar podem entrar em contato pelo perfil @cdbea.uepb no Instagram ou pelo e-mail cdbea.uepb@setor.uepb.edu.br.
Expediente
Fotografia e reportagem:
Texto: Micaelly Ramos
Monitoria: Bianca Dantas e Cecilia Sales
Supervisão Editorial: Rostand Melo e Ada Guedes




























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